A interface sono-fibromialgia: da intrusão alfa-delta à prática clínica baseada em evidências
A dor cervical costuma ser entendida como um problema local: músculos tensos, articulações rígidas, postura inadequada, esforço repetitivo, alterações da coluna ou excesso de tempo diante de telas. Tudo isso pode, de fato, participar do quadro. Mas a ciência da dor tem mostrado algo mais amplo: nem toda dor no pescoço nasce apenas no pescoço.
“Constatou-se que a cirurgia é útil em apenas 1 em cada 100 casos de dor lombar.”
Introdução
A dor cervical é uma condição musculoesquelética comum, capaz de afetar a coluna cervical e, em alguns casos, irradiar para um ou ambos os membros superiores1Safiri S., Kolahi A.-A., Hoy D., Buchbinder R., Mansournia M.A., Bettampadi D., Ashrafi-Asgarabad A., Almasi-Hashiani A., Smith E., Sepidarkish M., et al. Global, regional, and national burden of neck pain in the general population, 1990–2017: Systematic analysis of the Global Burden of Disease Study 2017. BMJ. 2020;368.. Quando não há uma doença subjacente identificável ou uma alteração anatômica clara que explique o quadro, ela costuma ser classificada como dor cervical inespecífica2Tsakitzidis G., Remmen R., Dankaerts W., Royen P. Non-specific neck pain and evidence-based practice. Sci. J. 2013;9:1–19.. Esse detalhe é importante porque, em muitos pacientes, especialmente quando a dor se torna crônica ou recorrente, o problema deixa de ser puramente mecânico.
Aproximadamente 60% dos indivíduos apresentam episódios recorrentes de dor cervical3Jull G., Sterling M., Falla D., Treleaven J., O’Leary S. Whiplash, Headache, and Neck Pain: Research-Based Directions for Physical Therapies. Elsevier Health Sciences; London, UK: 2008.. Isso sugere que, para uma parte considerável dos pacientes, tratar apenas a crise ou apenas a estrutura local pode não ser suficiente. A dor passa a envolver também o modo como o sistema nervoso regula tensão muscular, circulação, inflamação, sono, estresse, respiração e estado de alerta.
Uma publicação no Journal of Clinical Medicine reforça essa perspectiva ao investigar intervenções voltadas à modulação do sistema nervoso autônomo em pessoas com dor cervical crônica. O estudo avaliou estratégias como biofeedback da variabilidade da frequência cardíaca e estimulação transcutânea do nervo vago, técnicas que procuram influenciar a regulação autonômica do organismo23Lehrer P.M., Gevirtz R. Heart rate variability biofeedback: How and why does it work? Psychol. 2014;5:756..
A importância desse tema está no deslocamento do olhar clínico. A pergunta deixa de ser apenas “o que há de errado no pescoço?” e passa a incluir outra questão: “como o sistema nervoso dessa pessoa está regulando o corpo diante da dor?”. Essa mudança não elimina a relevância dos exercícios, da terapia manual ou da avaliação física. Mas amplia o campo de compreensão e ajuda a explicar por que alguns pacientes melhoram com abordagens convencionais, enquanto outros permanecem presos em ciclos de dor, tensão, fadiga e estresse.
1. Dor cervical: comum, recorrente e nem sempre simples
A dor cervical é uma das condições musculoesqueléticas mais frequentes1Safiri S., Kolahi A.-A., Hoy D., Buchbinder R., Mansournia M.A., Bettampadi D., Ashrafi-Asgarabad A., Almasi-Hashiani A., Smith E., Sepidarkish M., et al. Global, regional, and national burden of neck pain in the general population, 1990–2017: Systematic analysis of the Global Burden of Disease Study 2017. BMJ. 2020;368.4Alshami A.M. Prevalence of spinal disorders and their relationships with age and gender. Saudi Med. J. 2015;36:725–730.. Pode se limitar à região do pescoço ou irradiar para ombros, braços e mãos1Safiri S., Kolahi A.-A., Hoy D., Buchbinder R., Mansournia M.A., Bettampadi D., Ashrafi-Asgarabad A., Almasi-Hashiani A., Smith E., Sepidarkish M., et al. Global, regional, and national burden of neck pain in the general population, 1990–2017: Systematic analysis of the Global Burden of Disease Study 2017. BMJ. 2020;368.. Em muitos casos, é classificada como inespecífica, isto é, não há uma doença estrutural clara ou uma alteração anatômica única capaz de explicar todo o quadro2Tsakitzidis G., Remmen R., Dankaerts W., Royen P. Non-specific neck pain and evidence-based practice. Sci. J. 2013;9:1–19..
Esse ponto é essencial. Quando se fala em dor cervical inespecífica, não se está dizendo que a dor é imaginária ou “psicológica”. Significa apenas que a relação entre achados anatômicos e sofrimento real do paciente nem sempre é direta. Duas pessoas podem ter imagens semelhantes da coluna cervical e experiências de dor completamente diferentes.
Além disso, a dor cervical frequentemente recorre. Estima-se que cerca de 60% dos indivíduos apresentem episódios recorrentes3Jull G., Sterling M., Falla D., Treleaven J., O’Leary S. Whiplash, Headache, and Neck Pain: Research-Based Directions for Physical Therapies. Elsevier Health Sciences; London, UK: 2008.. Muitos melhoram por algum tempo e depois voltam a apresentar crises. Isso sugere que, além de tratar sintomas imediatos, é necessário compreender os fatores que mantêm o sistema vulnerável à repetição da dor.
2. O tratamento baseado em evidências ainda começa pelo movimento
As diretrizes clínicas recomendam diferentes intervenções para a dor cervical crônica, incluindo abordagens multimodais com mobilização ou manipulação torácica e/ou cervical, exercícios de alongamento e fortalecimento, agulhamento seco, laser e tração intermitente5Gómez F., Escribá P., Oliva-Pascual-Vaca J., Méndez-Sánchez R., Puente-González A.S. Immediate and Short-Term Effects of Upper Cervical High-Velocity, Low-Amplitude Manipulation on Standing Postural Control and Cervical Mobility in Chronic Nonspecific Neck Pain: A Randomized Controlled Trial. Clin. Med. 2020;9:2580.6Blanpied P.R., Gross A.R., Elliott J.M., Devaney L.L., Clewley D., Walton D.M., Sparks C., Robertson E.K. Neck Pain: Revision 2017. Orthop. Sports Phys. Ther. 2017;47–A83..
Apesar da diversidade de opções, diretrizes mais recentes apontam que a combinação de exercícios e terapia manual permanece como tratamento preferencial baseado em evidências para pacientes com dor cervical, enquanto outras modalidades ainda carecem de sustentação mais clara7Verhagen A.P. Physiotherapy management of neck pain. Physiother. 2021;67:5–11..
Esse continua sendo o eixo principal do tratamento conservador. O corpo precisa reaprender a se mover com segurança. O pescoço precisa recuperar mobilidade, força, resistência e coordenação. O paciente precisa sair da imobilidade defensiva e reconstruir gradualmente sua capacidade funcional.
Mas há um limite importante: nem todos os pacientes respondem da mesma forma. A diversidade de respostas ao tratamento pode estar relacionada a diferentes mecanismos de dor – nociceptivos, neuropáticos, nociplásticos ou autonômicos – que podem participar de maneira distinta em cada caso9Puntillo F., Giglio M., Paladini A., Perchiazzi G., Viswanath O., Urits I., Sabbà C., Varrassi G., Brienza N. Pathophysiology of musculoskeletal pain: A narrative review. Adv. Musculoskelet. Dis. 2021;13:1759720X21995067.10Shraim M.A., Massé-Alarie H., Hodges P.W. Methods to discriminate between mechanism-based categories of pain experienced in the musculoskeletal system: A systematic review. Pain. 2021;162:1007–1037.. Quando a dor persiste apesar de intervenções adequadas, pode ser necessário olhar além da musculatura e das articulações.
3. Respiração, dor cervical e regulação corporal
Além dos exercícios convencionais, exercícios respiratórios também têm sido investigados em pacientes com dor cervical. Um estudo piloto comparou exercícios respiratórios com exercícios fisioterápicos de rotina e observou menor intensidade de dor entre os pacientes que realizaram exercícios respiratórios8Mohan V., Ahmad N.B., Tambi N.B. Effect of respiratory exercises on neck pain patients: A pilot study. Ann. Med. 2016;23:15–20..
Esse achado é interessante porque aproxima a dor cervical de uma dimensão frequentemente negligenciada: a regulação fisiológica. Respirar não é apenas trocar oxigênio e gás carbônico. A respiração influencia ritmo cardíaco, tensão muscular, estado de alerta e equilíbrio autonômico. Por isso, em alguns pacientes, trabalhar a respiração pode ajudar a modular a dor, especialmente quando ela se associa a tensão, estresse e hipervigilância corporal.
Isso não significa substituir fortalecimento, mobilidade ou terapia manual por respiração. Significa reconhecer que, na dor cervical crônica, diferentes portas de entrada podem ser úteis – movimento, respiração, sono, estresse, controle motor e autorregulação.
4. O sistema nervoso autônomo entra em cena
O sistema nervoso autônomo regula funções corporais automáticas, como frequência cardíaca, respiração, sudorese, circulação, digestão e resposta ao estresse. Ele inclui, entre outros componentes, o sistema simpático, mais associado ao estado de alerta, e o sistema parassimpático, mais ligado à recuperação, repouso e regulação.
O sistema nervoso autônomo desempenha papel importante tanto no início quanto na persistência da dor musculoesquelética12Dmitry K., Dermot M. The Role of Autonomic Nervous System in Pain Chronicity. In: María Elena H.-A., Gonzalo Emiliano A.-A., editors. Topics in Autonomic Nervous System. IntechOpen; Rijeka, Croatia: 2023.. O sistema nervoso simpático, em especial, pode ser ativado em resposta à dor, levando ao aumento da tensão muscular, inflamação e redução do fluxo sanguíneo local, fatores que podem contribuir para a manutenção do quadro doloroso12Dmitry K., Dermot M. The Role of Autonomic Nervous System in Pain Chronicity. In: María Elena H.-A., Gonzalo Emiliano A.-A., editors. Topics in Autonomic Nervous System. IntechOpen; Rijeka, Croatia: 2023..
Na dor crônica, esse sistema pode permanecer excessivamente ativado. O corpo funciona como se estivesse sempre em modo de ameaça. A musculatura tende a ficar mais tensa, o sono piora, a respiração se altera, a fadiga aumenta e a sensibilidade dolorosa pode se ampliar.
Há evidências de que terapias direcionadas ao sistema nervoso autônomo, como biofeedback, ioga e estimulação elétrica, podem ajudar a reduzir a dor musculoesquelética crônica13Wagner B., Steiner M., Huber D.F.X., Crevenna R. The effect of biofeedback interventions on pain, overall symptoms, quality of life and physiological parameters in patients with pelvic pain: A systematic review. Klin. Wochenschr. 2022;134:11–48.14Hallman D. Autonomic Nervous System Regulation in Chronic Neck-Shoulder Pain: Relations to Physical Activity and Perceived Stress. Ph.D. Thesis. Uppsala University; 2013.. No caso da dor cervical, isso ajuda a explicar por que alguns pacientes relatam piora em períodos de estresse, cansaço, ansiedade, sobrecarga emocional ou sono ruim. O pescoço pode ser o local onde a dor aparece, mas o sistema que mantém o quadro pode ser mais amplo.
5. Variabilidade da frequência cardíaca: uma janela para a regulação corporal
A variabilidade da frequência cardíaca, conhecida pela sigla VFC, mede pequenas variações entre os batimentos cardíacos. Embora pareça um detalhe técnico, ela é um marcador importante da flexibilidade regulatória do organismo.
O biofeedback da VFC tem demonstrado utilidade no tratamento de sintomas associados a alterações do sistema nervoso autônomo15Wheat A.L., Larkin K.T. Biofeedback of heart rate variability and related physiology: A critical review. Psychophysiol. Biofeedback. 2010;35:229–242.. Estudos também investigaram sua aplicação em condições como transtorno de estresse pós-traumático, fibromialgia, dor lombar crônica e manejo de doenças crônicas16Zucker T.L., Samuelson K.W., Muench F., Greenberg M.A., Gevirtz R.N. The effects of respiratory sinus arrhythmia biofeedback on heart rate variability and posttraumatic stress disorder symptoms: A pilot study. Psychophysiol. Biofeedback. 2009;34:135–143.17Hassett A.L., Radvanski D.C., Vaschillo E.G., Vaschillo B., Sigal L.H., Karavidas M.K., Buyske S., Lehrer P.M. A pilot study of the efficacy of heart rate variability biofeedback in patients with fibromyalgia. Psychophysiol. Biofeedback. 2007;32:1–10.18Kapitza K.P., Passie T., Bernateck M., Karst M. First non-contingent respiratory biofeedback placebo versus contingent biofeedback in patients with chronic low back pain: A randomized, controlled, double-blind trial. Psychophysiol. Biofeedback. 2010;35:207–217.19Fournié C., Chouchou F., Dalleau G., Caderby T., Cabrera Q., Verkindt C. Heart rate variability biofeedback in chronic disease management: A systematic review. Ther. Med. 2021;60:102750..
De modo simplificado, uma boa variabilidade sugere que o corpo consegue alternar melhor entre esforço e recuperação, alerta e repouso, ativação e relaxamento. Já uma variabilidade reduzida pode indicar menor capacidade de adaptação fisiológica.
Por isso, técnicas como o biofeedback da VFC procuram ensinar o paciente a influenciar sua própria regulação corporal, geralmente por meio de respiração guiada, atenção aos sinais fisiológicos e treino progressivo de autorregulação. Não se trata de “pensar positivo” nem de negar a dor. Trata-se de usar sinais do próprio corpo para treinar o sistema nervoso a sair de um estado persistente de ameaça.
6. Nervo vago, biofeedback e novas possibilidades terapêuticas
A estimulação transcutânea do nervo vago também tem despertado interesse por sua capacidade de modular a variabilidade da frequência cardíaca em adultos saudáveis20Geng D., Liu X., Wang Y., Wang J. The effect of transcutaneous auricular vagus nerve stimulation on HRV in healthy young people. PLoS ONE. 2022;17.21Gianlorenço A.C., Pacheco-Barrios K., Daibes M., Camargo L., Choi H., Song J.-J., Fregni F. Age as an Effect Modifier of the Effects of Transcutaneous Auricular Vagus Nerve Stimulation (taVNS) on Heart Rate Variability in Healthy Subjects. Clin. Med. 2024;13:4267.22Shvartz V., Sizhazhev E., Sokolskaya M., Koroleva S., Enginoev S., Kruchinova S., Shvartz E., Golukhova E. The Effect of Short-Term Transcutaneous Electrical Stimulation of Auricular Vagus Nerve on Parameters of Heart Rate Variability. Data. 2023;8:87.. Assim como o biofeedback da VFC, ela se dirige ao sistema nervoso autônomo por meio de uma técnica não invasiva.
Enquanto outras formas de biofeedback podem focar parâmetros fisiológicos diferentes, como a atividade eletrodérmica, o biofeedback da VFC e a estimulação transcutânea do nervo vago miram especificamente a regulação autonômica através da VFC. Essas técnicas têm a vantagem de serem não invasivas, relativamente seguras, acessíveis e fáceis de usar23Lehrer P.M., Gevirtz R. Heart rate variability biofeedback: How and why does it work? Psychol. 2014;5:756..
O nervo vago participa de funções ligadas à regulação cardíaca, respiratória, digestiva, inflamatória e emocional. Ao estimular vias relacionadas a esse sistema, pesquisadores investigam se é possível melhorar a capacidade de regulação fisiológica em condições associadas à dor crônica.
Ainda não se trata de uma solução pronta para todos os pacientes com dor cervical. A pesquisa está em desenvolvimento, e os resultados precisam ser interpretados com prudência. Mas o caminho é relevante porque amplia o repertório terapêutico: em vez de tratar apenas músculos, articulações e postura, começa-se a considerar também a capacidade do organismo de regular ameaça, estresse e recuperação.
7. A dor cervical pode ter fontes além do pescoço
Embora a dor cervical seja frequentemente atribuída a problemas somáticos, a disfunção visceral também pode contribuir para a dor cervical inespecífica, fenômeno conhecido como dor visceral referida11Oliva-Pascual-Vaca Á., González-González C., Oliva-Pascual-Vaca J., Piña-Pozo F., Ferragut-Garcías A., Fernández-Domínguez J.C., Heredia-Rizo A.M. Visceral Origin: An Underestimated Source of Neck Pain. A Systematic Scoping Review. Diagnostics. 2019;9:186.. Isso ocorre quando a dor originada em órgãos internos – como coração, pulmões ou trato gastrointestinal – é percebida no pescoço devido a vias neurais compartilhadas entre esses órgãos e os tecidos cervicais11Oliva-Pascual-Vaca Á., González-González C., Oliva-Pascual-Vaca J., Piña-Pozo F., Ferragut-Garcías A., Fernández-Domínguez J.C., Heredia-Rizo A.M. Visceral Origin: An Underestimated Source of Neck Pain. A Systematic Scoping Review. Diagnostics. 2019;9:186..
Isso não significa que toda dor cervical tenha origem visceral. Também não significa que o paciente deva suspeitar de doenças graves diante de qualquer dor no pescoço. Mas reforça a necessidade de avaliação cuidadosa, especialmente quando a dor é atípica, persistente, associada a sintomas sistêmicos ou não responde como esperado ao tratamento convencional.
Esse ponto também reforça a ideia central do artigo: a dor cervical crônica deve ser compreendida como uma experiência integrada. O pescoço é o local da dor, mas nem sempre é o único território relevante para explicar sua persistência.
8. O que muda para o paciente e para o profissional
A principal consequência prática dessa visão é abandonar explicações simplistas. Dor cervical crônica não deve ser reduzida apenas a “má postura”, “tensão muscular” ou “desgaste da coluna”. Esses fatores podem existir, mas frequentemente interagem com sono, estresse, respiração, atividade física, medo do movimento, sensibilidade do sistema nervoso e estado geral de saúde.
Para o paciente, isso pode ser libertador. Se a dor depende de vários sistemas, então há várias portas de entrada para melhorar. Movimento, sono, respiração, redução de ameaça, treino de relaxamento, fortalecimento, educação em dor e estratégias de autorregulação podem trabalhar juntos.
Para o profissional, o desafio é construir um plano mais integrado. A pergunta não é apenas qual técnica aplicar no pescoço, mas quais fatores estão mantendo aquele corpo em estado de dor.
Conclusão
A dor cervical crônica é comum, recorrente e muitas vezes mais complexa do que parece1Safiri S., Kolahi A.-A., Hoy D., Buchbinder R., Mansournia M.A., Bettampadi D., Ashrafi-Asgarabad A., Almasi-Hashiani A., Smith E., Sepidarkish M., et al. Global, regional, and national burden of neck pain in the general population, 1990–2017: Systematic analysis of the Global Burden of Disease Study 2017. BMJ. 2020;368.3Jull G., Sterling M., Falla D., Treleaven J., O’Leary S. Whiplash, Headache, and Neck Pain: Research-Based Directions for Physical Therapies. Elsevier Health Sciences; London, UK: 2008.. Embora exercícios e terapia manual continuem sendo pilares importantes do tratamento baseado em evidências5Gómez F., Escribá P., Oliva-Pascual-Vaca J., Méndez-Sánchez R., Puente-González A.S. Immediate and Short-Term Effects of Upper Cervical High-Velocity, Low-Amplitude Manipulation on Standing Postural Control and Cervical Mobility in Chronic Nonspecific Neck Pain: A Randomized Controlled Trial. Clin. Med. 2020;9:2580.6Blanpied P.R., Gross A.R., Elliott J.M., Devaney L.L., Clewley D., Walton D.M., Sparks C., Robertson E.K. Neck Pain: Revision 2017. Orthop. Sports Phys. Ther. 2017;47–A83.7Verhagen A.P. Physiotherapy management of neck pain. Physiother. 2021;67:5–11., a compreensão atual da dor exige olhar também para o sistema nervoso autônomo, a variabilidade da frequência cardíaca, o estresse, o sono, a respiração e a capacidade geral de autorregulação do organismo12Dmitry K., Dermot M. The Role of Autonomic Nervous System in Pain Chronicity. In: María Elena H.-A., Gonzalo Emiliano A.-A., editors. Topics in Autonomic Nervous System. IntechOpen; Rijeka, Croatia: 2023.15Wheat A.L., Larkin K.T. Biofeedback of heart rate variability and related physiology: A critical review. Psychophysiol. Biofeedback. 2010;35:229–242.23Lehrer P.M., Gevirtz R. Heart rate variability biofeedback: How and why does it work? Psychol. 2014;5:756..
A publicação sobre modulação autonômica em dor cervical crônica reforça justamente esse ponto: em alguns pacientes, tratar o pescoço pode não ser suficiente se o corpo inteiro permanece em estado de alerta. Nesses casos, a dor não é apenas um sinal local; ela pode ser parte de um padrão mais amplo de desregulação.
Isso não invalida os tratamentos convencionais. Pelo contrário, ajuda a refiná-los. Exercícios continuam importantes. Terapia manual pode ser útil. Avaliação clínica segue indispensável. Mas talvez o futuro do cuidado em dor cervical esteja menos em escolher uma técnica isolada e mais em combinar abordagens capazes de recuperar movimento, confiança, sono, regulação fisiológica e participação ativa do paciente.
No fim, a pergunta mais importante talvez não seja apenas “de onde vem a dor no pescoço?”, mas “que condições estão impedindo esse sistema de voltar ao equilíbrio?”. É nesse ponto que a dor cervical deixa de ser vista como um problema de uma região do corpo e passa a ser compreendida como uma experiência integrada, na qual pescoço, cérebro, sistema nervoso e vida cotidiana estão profundamente conectados.





