Covid-19 pelo mundo afora: 20-06-21
Covid-19 pelo mundo afora: 20-06-21

Flexibilização. Eu já vi esse filme”, foi o título de uma matéria postada no blog há 1 mês. Não deu outra. Mérito nenhum, aliás. Mais difícil teria sido prever o desfecho de um jogo entre o Flamengo e o Íbis Sport Club, “O pior time do mundo”. De um lado, esse vírus infecta pelo contato e pelo ar, de outro lado, as normas anti-Covid-19 estavam a ser flexibilizadas em várias capitais. Em que você acha que uma combinação dessas sempre vai dar? Foram-se as tais normas e já viu. Hoje por aqui estamos com a m… até o pescoço e subindo: 500 mil mortos em 15 meses e beirando os 100 mil novos infectados em um único dia. E tudo tranquilo.

Agora estou tentado cravar o mesmo título daquele post na testa da União Europeia. Eu já morei por lá e sei o quanto os bípedes distantes do Mediterrâneo gostam de sol. E o sol vem aí e a maioria dos países da UE já abriram suas fronteiras para os turistas vindos de nações vacinadas ou coisa que o valha, mesmo sem exigir certificados de vacinação nem testes de diagnóstico no desembarque. Razões não faltam. Não é só de azeite de oliva que os 10 países mais visitados no continente vivem e está prevista a chegada de 360 milhões de turistas na temporada que começa. Tomara que dê certo, que a pandemia não descambe de novo e que um vírus falando francês ou italiano não aporte por aqui em Outubro, também de novo. Mas eu não posso deixar de pensar que eu já vi esse filme. E várias vezes.

O presente muda o passado

A euforia que ora toma conta da mídia devido à antecipação das campanhas de vacinação no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul (não confirmado) e São Paulo, opacou alguns pequenos detalhes desagradáveis do passado que alguns teimosos insistem em trazer à tona:

Pesquisa da UFPel (Universidade Federal de Pelotas) e Harvard aponta que vacinação evitou morte de 43 mil idosos por Covid no Brasil. Enquanto mortes de idosos com mais de 70 anos por outros motivos permaneceram estáveis, entre janeiro e maio de 2021, os óbitos em razão do coronavírus no Brasil caíram quase pela metade. Segundo o epidemiologista Cesar Victora, da UFPel, sem vacinação, o país que estava chegando a 480 mil mortes, já estaria entre 530 ou 540 mil.

Ainda mais contundentes são as conclusões de um estudo do professor Pedro Hallal, também da UFPel, publicado na revista científica The Lancet, talvez a mais prestigiada do mundo junto com a Nature e a JAMA. Ou seja, 375 mil mortes poderiam ser evitadas durante pandemia no Brasil, ou três de cada quatro mortes, se o Brasil estivesse na média mundial de controle da pandemia.

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A Janssen virou a Geni das vacinas

Com apenas 11,8 milhões de doses administradas nos Estados Unidos até agora – menos de 4% do total – a “vacina-de-única-dose” sobre a qual houve grande expectativa… desabou. Os estados americanos não têm onde guardar milhões de doses que irão expirar em breve. A procura da vacina caiu depois de ocorrido um raro (mas sério) distúrbio de coagulação do sangue e as injeções foram pausadas por 10 dias em abril.

Outro golpe: semana passada, os reguladores fizeram com que a Johnson & Johnson jogasse fora dezenas de milhões de doses porque poderiam estar contaminadas. Segundo a mídia foi esse o motivo pelo qual o FDA estendeu o prazo de validade da vacina por mais 6 semanas. Movimento seguido pela ANVISA.

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Por outro lado…

A vacina da Janssen aumenta os anticorpos que se ligam ao vírus e marcam as células do sistema imunológico para atacá-lo, e esses anticorpos funcionam contra a maioria das variantes do coronavírus, relataram os pesquisadores na Nature. A vacina também ativa células imunológicas que disparam alarmes adicionais sobre uma infecção ou matam células infectadas. Os anticorpos que impedem o vírus de infectar as células não funcionaram tão bem, no entanto. Isso significa que a vacina pode não ser tão boa na prevenção de infecções se as pessoas forem expostas a variantes. Mas provavelmente evita que esses indivíduos fiquem gravemente doentes.

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O que chega primeiro: novas variantes ou doses de reforço da vacina?

Qual é a proteção imunológica contra o coronavírus fornecida pelas vacinas? As pessoas logo precisarão de doses de reforço? Ninguém sabe ao certo, mas novas variantes do coronavírus podem tornar os reforços mais prováveis. Por um lado, as fabricantes de vacinas já se preparam para quando isso acontecer, porque vai acontecer. Você já deve saber que a Pfizer inicia um estudo no Brasil sobre a conveniência de se usar uma terceira dose de reforço para neutralizar novas variantes do vírus. E que a combinação das vacinas da Pfizer e da AstraZeneca parecem oferecer proteção acima do 90% contra a variante Delta. Mas é apenas um respiro. Por outro lado, as baixas taxas de vacinação em todo o mundo facilitam o aparecimento de novas variantes. Enquanto alguns países, como Canadá, Reino Unido, Chile e Israel, administraram pelo menos uma dose para cerca de 60% de suas populações, apenas 1% das pessoas em lugares como Nigéria e Serra Leoa receberam pelo menos uma dose da vacina.

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Reinfecção dos vacinados: um bicho-papão?

Pessoas que tiveram Covid-19 grave e se preocupam em passar por outro surto, podem relaxar: uma nova pesquisa descobriu que menos de 1% das pessoas que tiveram uma infecção grave por coronavírus são reinfectadas. Para o estudo, pesquisadores da Universidade do Missouri analisaram dados de mais de 9.100 pacientes em 62 unidades de saúde nos Estados Unidos. Apenas 0,7% dos pacientes com infecção grave por Covid-19 contraíram o vírus uma segunda vez, com um período médio de reinfecção de 116 dias. Dos que foram reinfectados, 3,2% morreram. Pacientes não brancos tiveram maior risco de reinfecção do que pacientes brancos, de acordo com o estudo publicado recentemente.

Mais uma vacina fora da corrida

Como é natural, a mídia só fala das vacinas que funcionam. Porém, das mais de 100 vacinas atualmente em ensaios clínicos, pouquíssimas irão sobreviver. Semana passada, a empresa alemã CureVac entregou resultados preliminares decepcionantes de um teste clínico de sua vacina Covid-19, diminuindo as esperanças de que ela possa ajudar a preencher a grande necessidade do mundo. O ensaio, que incluiu 40.000 voluntários na América Latina e Europa, estimou que a vacina de mRNA da CureVac teve uma eficácia de apenas 47%, entre as mais baixas relatadas até agora por qualquer fabricante de vacina Covid-19.

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Sinal trocado no aeroporto

Na Inglaterra, enquanto o governo luta para permitir mais viagens ao exterior e ao mesmo tempo tenta evitar a importação de novas variantes, um sistema de semáforos nos aeroportos está sendo considerado para determinar quem, vindo de onde, deve se isolar. A Ryanair, a maior companhia aérea da Europa, e o MAG, o maior grupo de aeroportos do Reino Unido, alegam que o governo não foi claro em relação à categorização dos países como vermelho, âmbar ou verde, minando a confiança do consumidor para reservar as férias de verão.

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Casos de Covid na Inglaterra dobram a cada 11 dias e a variante Delta toma conta

“Globalmente, a Delta é o desenvolvimento mais sério que conhecemos em termos de evolução do vírus”, disse William Hanage, epidemiologista da Universidade de Harvard. Os casos com essa variante Delta aumentam exponencialmente, mas o progresso da vacinação deve ajudar a reduzir o aumento. Contudo, as pessoas precisam de ambas as doses de vacinas de duas doses para obter a melhor proteção, dizem os especialistas. Apesar de que uma dose da injeção da Pfizer ou da AstraZeneca parece manter as pessoas fora do hospital.

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Vacinas e… contas… para o pessoal ao sul do Rio Grande

O Biden se comprometeu no final de abril a compartilhar até 60 milhões de doses da vacina da AstraZeneca com outras nações. Porém, graves falhas na fábrica da Emergent BigSolutions em Baltimore, colocam em dúvida o destino de mais de 100 milhões de doses das vacinas AstraZeneca e Johnson & Johnson produzidas lá. O FDA (Food and Drug Administration) está examinando os registros de praticamente todos os lotes produzidos pelo fabricante, para determinar se as doses são seguras, e até agora determinou que cerca de 25 milhões de doses da Johnson & Johnson feitas na fábrica podem ser liberadas, mas não tomou nenhuma decisão sobre as doses da AstraZeneca.

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O Brasil não consegue vacinas? Veja aqui uma das razões.

Em março, o Ministério da Saúde fechou acordo com a Moderna para compra de 13 milhões de doses da sua vacina contra a Covid-19. Nessa semana, a empresa anunciou que o governo americano comprou 200 milhões de doses adicionais da vacina, principalmente para vacinar crianças ou como reforço para pessoas já vacinadas.

Confirmando a Covid Longa

Quase um quarto dos pacientes com Covid-19 desenvolve sintomas de longa duração ou Covid Longa, mostra um novo relatório da FAIR Health, uma grande ONG americana que atua no campo da saúde. O estudo descobriu que pacientes mais velhos tinham uma chance maior de desenvolver colesterol alto, enquanto os pacientes mais jovens eram mais propensos a desenvolver problemas gastrointestinais.

Uma análise dos registros de seguro saúde de quase dois milhões de pacientes com coronavírus encontrou novos problemas em quase um quarto – incluindo aqueles cuja infecção por Covid era leve (27%) ou assintomática (19%). Os afetados eram de todas as idades, incluindo crianças. Seus novos problemas de saúde mais comuns eram dores, inclusive nos nervos e músculos, dificuldades respiratórias, colesterol alto, mal-estar, fadiga e hipertensão. Outros problemas incluíram sintomas intestinais, enxaquecas, problemas de pele, anormalidades cardíacas, distúrbios do sono e condições de saúde mental como ansiedade e depressão.

A Covid pelo mundo afora

País Notícia
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Mundo Em todo o mundo, já houve 176 milhões de casos de Covid-19 e mais de 3,8 milhões de mortes. Vários países ricos, menos o Japão, já vacinaram (ou estão se aproximando de vacinar) mais da metade da população. Quase 53% das pessoas nos EUA receberam pelo menos uma injeção de vacina e cerca de 44% estão totalmente vacinadas.
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas China Depois de um início lento, a campanha de vacinação da Covid-19 da China está a todo vapor enquanto as autoridades perseguem a ambiciosa meta de vacinar totalmente 40% dos quase 1,4 bilhão de pessoas do país até o final deste mês. A China administrou mais de 945 milhões de doses de vacinas, mais de um terço do total global, de acordo com o rastreador de vacinas do The New York Times. Com cerca de 17 milhões de injeções injetadas todos os dias neste mês, a China está a caminho de ultrapassar um bilhão de injeções nos próximos dias.
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas União Europeia A campanha de vacinação da União Europeia ganhou velocidade no último mês, com cerca de 55% da população adulta tendo recebido pelo menos uma dose. O bloco parece estar a caminho de cumprir sua meta de ter 70% dos adultos totalmente vacinados até o final de julho. O baixo número de infecções em muitos países da região nas últimas semanas foi considerado um sinal otimista. Oficialmente, a UE irá se abrir para turistas vindos dos Estados Unidos e outros 14 países (menos o Brasil, claro), incluindo Albânia, Austrália, Israel, Japão, Líbano, Nova Zelândia, República da Macedônia do Norte, Ruanda, Sérvia, Cingapura, Coréia do Sul, Tailândia e China. Tudo parece indicar que se está no caminho da normalidade. Mas não em todos os lugares. Na Grã-Bretanha, as autoridades estão de olho na variante Delta, o que gerou um aumento nos casos, e na segunda-feira atrasou por um mês a tão esperada reabertura que havia sido anunciada como o “dia da liberdade”. E em Moscou, uma onda de casos levou a um lockdown, deixando as autoridades russas implorando aos residentes para serem vacinados.
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Portugal As autoridades portuguesas ordenaram um bloqueio de fim de semana da região da capital, Lisboa, a partir de sexta-feira, em uma tentativa de conter o recente surto de novas infecções, oferecendo um poderoso lembrete de que, mesmo enquanto a Europa busca uma reabertura mais completa, o vírus ainda apresenta desafios. A decisão veio depois de Portugal ter registrado esta semana o maior número de novos casos desde março. Metade dos novos casos envolveram a variante Delta, a indiana, ora aumentando em outros países, incluindo a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Índia É um pingue-pongue na Ásia, por cortesia da Índia. O Sri Lanka está pedindo para o Japão. O Nepal perguntou à Dinamarca. Bangladesh apelou aos Estados Unidos. Os países do sul da Ásia estão olhando para o resto do mundo para impulsionar as campanhas de inoculação que estão paralisadas desde que a Índia suspendeu as exportações de vacinas para lidar com sua segunda onda catastrófica de coronavírus nesta primavera. A abordagem ad hoc mostra como a decisão da Índia, o maior fabricante mundial de vacinas, deixou os países mais pobres com poucas opções de vacinas, já que os países mais ricos acumularam grande parte do fornecimento global.
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Japão O governo do Japão disse na quinta-feira que relaxaria as medidas de emergência em Tóquio e outras áreas à medida que o mais recente surto de coronavírus no país diminuísse, e com os Jogos Olímpicos programados para começar em pouco mais de cinco semanas. Ainda assim, a campanha de vacinação do Japão continua sendo uma das mais lentas entre as nações mais ricas: cerca de 26 milhões de doses de vacina foram administradas, com 15% da população tendo recebido pelo menos uma dose. Segundo fontes governamentais, o Japão planeja avançar com uma proposta que permitirá até 10.000 espectadores ou 50% da capacidade do local, o que for menor, em eventos em julho e agosto, caso o atual estado de emergência e outras medidas da Covid-19 sejam suspensas.
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Indonésia Mais de 350 médicos indonésios contraíram Covid-19 apesar de terem sido vacinados e dezenas foram hospitalizados, disseram as autoridades, à medida que aumentam as preocupações sobre a eficácia de algumas vacinas contra cepas de vírus mais virulentas. Quase todos receberam a vacina desenvolvida pela Sinovac da China, de acordo com a Associação Médica Indonésia (IDI).
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Palestina A Autoridade Palestina cancelou um acordo com Israel que previa a transferência de pelo menos 1 milhão de doses da vacina Pfizer para a Cisjordânia e Gaza. A reviravolta abrupta veio depois que as autoridades de saúde em Ramallah inspecionaram a primeira entrega de quase 90.000 doses na tarde de sexta-feira. ''Constatou-se que as doses não estavam de acordo com as especificações técnicas previamente acordadas e que seu prazo de validade estava próximo", disse o Ministro da Saúde palestino.
Uganda Uganda O governo anunciou novas restrições durante 6 semanas para controlar uma nova onda de casos poucas semanas depois de fechar escolas e suspender reuniões públicas e orações. Elas incluem a proibição de viagens, exceto para transporte de cargas e trabalhadores essenciais.
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Fiji O arquipélago do Pacífico com cerca de 900.000 habitantes, está lutando contra um grande surto. As principais autoridades de saúde pediram à Austrália para enviar uma equipe de apoio médico para sua capital, Suva. O governo tem resistido até agora aos apelos para impor um bloqueio nacional, em vez de usar restrições locais, para ajudar a conter o vírus.
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Rússia A variante Delta, encontrada pela primeira vez na Índia, é agora a versão mais prevalente em Moscou. O rápido aumento do número de casos colocou a Rússia em risco de seguir o caminho de outros países como a Índia, que parecia ter reprimido infecções apenas para ver um ressurgimento.
Covid Longa: os efeitos mais comuns
Covid Longa: os efeitos mais comuns

Na semana passada eu estabeleci um paralelo entre a dor crônica e a Covid Longa. Foi argumentado que ao menos em 13 aspectos, as duas doenças – ou síndromes, se preferir – em muito se parecem. A sintomatologia do paciente “sequelado”, por exemplo, é semelhante à do portador de doenças crônicas como fibromialgia, fadiga crônica e lúpus, entre outras. Nesse post apresento o que uma grande pesquisa diz sobre os sintomas mais prevalentes.

“Não há remédio que você possa tomar para substituir o que você pode fazer pela sua própria saúde.”

Aarti Patel

Há meses, pesquisadores apontaram que muitos pacientes em recuperação da Covid-19 apresentavam sintomas meses depois de terem tido alta após vários dias hospitalizados, e que precisavam de tratamentos adicionais de longo prazo. Atualmente se sabe que, em maior ou menor medida, a mesma indicação vale para três quartos de todos os que contraíram a doença, inclusive os assintomáticos.

Agora, uma nova pesquisa lança luz sobre a extensão desses sintomas persistentes – e as doenças crônicas com que se assemelham.

Em uma revisão sistemática de préimpressão e meta-análise publicada em 30 de janeiro de 2021, os pesquisadores analisaram dados de 47.910 pacientes com diagnóstico confirmado de Covid-19 em 15 estudos separados que analisaram sintomas, sinais ou parâmetros laboratoriais duas semanas ou mais após a infecção. (Uma pré-impressão significa que o estudo ainda não foi submetido à revisão por pares.)

“More than 50 Long-term effects of COVID-19: a systematic review and meta-analysis”. Sandra Lopez-Leon e outros. Fonte: medrxiv.org

Como a ilustração mostra, foram identificados 55 possíveis efeitos de longo prazo da Covid-19. Em cada 10 dos pacientes infectados, 8 desenvolveram um ou mais sintomas de longo prazo.

Os cinco sintomas mais comuns foram:

Fadiga
58%
Dor de cabeça
44%
Transtorno de atenção
27%
Queda de cabelo
25%
Dificuldade em respirar
24%

Durante o acompanhamento, 34% dos pacientes tiveram uma radiografia de tórax ou tomografia computadorizada anormal. Os pesquisadores também identificaram vários marcadores elevados no sangue, como a proteína C reativa (um marcador de inflamação).

Cada estudo teve pelo menos 100 pacientes, com idades variando de 17 a 87 anos, e com um período de acompanhamento de 14 a 110 dias.

“Não analisamos as diferenças de gênero em nossa meta-análise porque nem todos os estudos incluídos fizeram essa diferenciação, mas alguns estudos relataram que fadiga, polipneia pós-atividade (respiração rápida) e alopecia (queda de cabelo) foram mais comum em mulheres do que em homens ”, diz a pesquisadora Sonia Villapol, PhD , professora assistente de neurocirurgia no Houston Methodist Research Institute.

A revisão também apontou que os adultos têm o dobro do risco de serem diagnosticados com transtorno psiquiátrico após um diagnóstico de Covid-19. Os mais comuns foram transtornos de ansiedade, insônia e demência. Os distúrbios do sono podem contribuir para distúrbios psiquiátricos, observam os pesquisadores.

Ao considerar se algo em particular sobre as descobertas a surpreendeu, a Dra. Villapol disse: “Sem dúvida, o grande número de efeitos neurológicos persistentes pós-Covid.”

Ela acrescenta que as doenças neurológicas são a principal preocupação dos pesquisadores no momento, especialmente doenças psiquiátricas como ansiedade ou depressão e, também, problemas inflamatórios no cérebro que podem desencadear doenças neurodegenerativas no futuro.

Outro estudo de janeiro de 2021 publicado na The Lancet descobriu que 76% dos pacientes hospitalizados com Covid-19 em Wuhan, China, relataram pelo menos um sintoma persistente seis meses após o início dos sintomas (com a proporção sendo maior em mulheres), geralmente fadiga ou fraqueza muscular e dificuldades para dormir.

Além do mais, 23% dos pacientes relataram ansiedade ou depressão nos acompanhamentos.

Dor Crônica & Covid Longa: parentes próximos?
Dor Crônica & Covid Longa: parentes próximos?

Uma ONG escocesa voltada para a assistência médica e social no seu site convida os visitantes a “Compartilhar experiências sobre dor crônica e Covid Longa.” O convite me pareceu emblemático. Há quase 10 mil km de distância parece haver gente que pensa, como eu, que a Covid Longa se assemelha extraordinariamente a uma dor crônica (entendida esta como doença em si mesma). Provar isso importa porque concederia à Covid Longa “legitimidade” diante da classe médica, principalmente na atenção primária. Legitimidade que hoje não está sendo reconhecida e é motivo para que os próprios “sequelados” estejam se organizando em redes sociais para serem ouvidos e atendidos. Nesse artigo, eu me proponho a provar pari passu a referida semelhança, baseado em dados de inúmeras pesquisas de boa qualidade.

“Se ele parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, ele é provavelmente um pato.”

Ditado popular

Autor: JULIO TRONCOSO

Covid Longa é a primeira doença reivindicada democraticamente por pacientes que se encontram por meio do Twitter e de outras mídias sociais. O que ela exatamente é – uma doença? Uma síndrome? – e se irá se desenvolver em uma condição específica de doença, crônica ou permanente, e/ou se metamorfosear numa doença crônica já existente (ex.: por enquanto, a síndrome da fadiga crônica surge como séria candidata) e/ou se a infecção persistente irá gerar uma nova doença autoimune… atualmente são questões em aberto.

Uma coisa é clara, todavia. A Covid Longa parece muito com uma doença crônica induzida por um vírus. Nesse artigo, eu tenciono provar essa tese comparando a Covid Longa (CL) com a Dor Crônica (DC), entendida esta como uma doença ou distúrbio. O cotejo irá se dar de 13 pontos de vista:

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(dano cerebral/disfunção nervosa/memória)

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(dano cardiológico)

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1. Definição

Três aspectos principais caracterizam uma doença: a presença de um comprometimento das funções normais; a presença de uma sintomatologia específica; e uma etiopatogenia distinta. (Etiopatogenia é o estudo das causas das doenças e dos mecanismos patogênicos que atuam sobre o organismo para provocarem essas doenças.)

A Dor Crônica e a Covid Longa preenchem os três requisitos.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Dor Crônica

A nova categoria de CID-11 proposta para “Dor crônica” pela IASP define a dor crônica como dor persistente ou recorrente com duração superior a 3 meses. Para os leigos, uma definição esdrúxula, uma vez que nada diz sobre a etiologia da condição, dificultando a sua acepção seja como doença, síndrome ou mero sintoma. A razão vem a seguir: na nova proposta de classificação de dor crônica na CID-11, esta compreende 7 grupos de distúrbios: 1): (1) dor crônica primária, (2) dor crônica do câncer, (3) dor pós-traumática e pós-cirúrgica crônica, (4) dor neuropática crônica, (5) dor de cabeça crônica e dor orofacial, (6) dor visceral crônica e (7) dor musculoesquelética crônica. Essa classificação de dor crônica na CID-11 poderá entrar em vigência em 01/01/22.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Covid Longa

As definições de Covid-19 em si permanecem instáveis: a patologia foi inicialmente definida como uma condição respiratória, cardiovascular, endotelial ou sistêmica. Com o tempo, ela se revelou ainda mais multifacética. Por consequência, a etiologia de Covid Longa também não é precisa, apenas é claro que ela é múltipla.

A Covid Longa aponta para manifestações clínicas amplamente variáveis. Pode incorporar várias condições com diferentes etiologias e mais de um mecanismo, ainda que no mesmo paciente.

Da mesma forma que a dor crônica, a Covid longa é uma condição proposta para ser definida pela ultrapassagem de um limite tempo. No caso, se as sequelas persistem – ou acontecem – além de 12 semanas após o período típico de convalescença da Covid-19. Outros pesquisadores referem-se à Covid Longa como sintomas da Covid-19 que duram mais de 2 meses.

Um estudo prospectivo realizado em Wuhan, China, mostrou que de 1.733 pacientes que receberam alta, 63% disseram que ainda tinham fadiga ou fraqueza muscular seis meses depois, e cerca de um quarto relatou ansiedade ou depressão persistente, bem como dificuldade para dormir.

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2. Prevalência

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Dor Crônica

A variabilidade mundial na prevalência da dor crônica é enorme, indo de 8,7% em Cingapura a 48% no Reino Unido.

No Brasil, estudos sobre dor crônica, um deles numa unidade do SUS, mostram a prevalência variando de 30 a 50%.

Globalmente, estima-se que 25% dos adultos sofrem de dor e que outros 10% dos adultos são diagnosticados com dor crônica a cada ano.

Nos Estados Unidos, onde as estatísticas de saúde são confiáveis, um estudo recente do National Institutes of Health descobriu que mais de uma em cada três pessoas sentiu algum tipo de dor nos três meses anteriores. Destes, aproximadamente 50 milhões sofrem de dores crônicas ou intensas.3839

Prevalência por gênero? A dor crônica afeta 40% dos homens versus 60% das mulheres.4041424344

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Covid Longa

Uma pesquisa de mais de 3.700 pessoas de 56 países que contraíram Covid-19 entre dezembro de 2019 e maio de 2020 mostrou que cerca de 65% dos entrevistados apresentaram sintomas por pelo menos 6 meses.

No Reino Unido, foi estimado que cerca de 1 em 5 pessoas apresentam sintomas de Covid Longa por 5 semanas ou mais, e cerca de 1 em 10 exibem sintomas por 12 semanas ou mais.

Na Suíça, num estudo de 437 indivíduos positivos para a Covid-19, após 6 meses, 26% não tinham retornado ao estado normal de saúde. Além disso, 23% entre os não hospitalizados e 39% entre os hospitalizados relataram não ter se recuperado totalmente.

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3. Diferenças de Gênero

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Atualmente, em países como Estados Unidos, Inglaterra, Suécia, Austrália e outros, não se discute que as mulheres prevaleçam na maioria das doenças crônicas – hipertensão, doenças renais, doenças autoimunes (ex.: artrite reumatoide), fibromialgia, ou enxaqueca, e especialmente transtornos mentais comuns: depressão, ansiedade, alterações psicológicas e queixas somáticas. Todas essas condições possuem implicações crônicas.

Dentre as 10 doenças autoimunes mais prevalentes, por exemplo, elas lideram em sete delas. E, também superam os homens em comorbidades (a presença de várias doenças crônicas ao mesmo tempo).

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No estudo suíço antes mencionado, em que após 6 meses, 26% dos ex-pacientes de Covid-19 não tinham retornado totalmente ao estado normal de saúde, 31% foram homens e 21%, mulheres.

Dados preliminares do aplicativo Covid Symptom Tracker, mostram que de fato as mulheres britânicas são ligeiramente mais propensas a sofrer efeitos a longo prazo após uma infecção por Covid.

Médicos em um hospital de Paris, baseados em ter visto uma média de 30 pacientes com sequelas todas as semanas, relataram que as mulheres superavam os homens em 4 para 1.

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4. Sintomas

No seu site, a American Chronic Pain Association lista 141 condições crônicas de natureza dolorosa. Para efeitos de comparação com a Síndrome da Covid Longa eu escolhi a fibromialgia. Ela é bastante prevalente e pode ser comparada, seja por comorbidade ou por semelhança sintomatológica, a um grupo de doenças caracterizadas por sensibilização central (central sensitivity syndromes CSSs), entre as quais a síndrome de fadiga crônica (Myalgic Encephalomyelitis, ME), a síndrome do intestino irritável (IBS), dor de cabeça crônica, distúrbios temporomandibulares (DTMs) e síndromes de dor pélvica.

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Os sintomas de fibromialgia mais conhecidos são dor, fadiga e problemas cognitivos e de sono. Fraqueza, Síndrome da Articulação Temporomandibular, hipervigilância, sistema digestivo e condições geniturinárias também são relatadas pelos pacientes.

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A Covid Longa pode incluir uma variedade de diferentes sinais e sintomas em todos os sistemas do corpo, incluindo, mas não se limitando a: pulmonar, cardiovascular, gastrointestinal, reprodutivo, geniturinário, endócrino, renal, dermatológico, musculoesquelético, neurológico, neuropsiquiátrico, imunológico, oftálmico e audiológico.

Um estudo pesquisou mais de 3.700 pessoas de 56 países que contraíram Covid-19 entre dezembro de 2019 e maio de 2020. Cerca de 65% dos entrevistados apresentaram sintomas por pelo menos 6 meses. Eles mais frequentemente relataram fadiga, mal-estar pós-exercício e névoa cerebral, mas também destacaram sensações neurológicas, dores de cabeça, problemas de memória, dores musculares, insônia, palpitações cardíacas, falta de ar, tontura, problemas de equilíbrio e problemas de fala. Síndrome da Articulação Temporomandibular e problemas de sono, também são relativamente característicos.

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5. Recorrência

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Em 2019, um painel de cientistas convocado pela IASP propôs que a Dor Crônica fosse incluída na International Classification of Diseases (ICD-11), definida como “a dor que persiste ou recorre por mais de 3 meses”. Alguns pacientes, após se recuperarem de um episódio de dor lombar, terão uma recorrência em algum momento futuro. No entanto, um único episódio de recorrência não constitui a condição “lombalgia recorrente”, e sim, um certo número de recorrências dentro de um período de tempo definido.

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Alguns sequelados (long haulers) tiveram um ataque moderado do vírus, apenas para descobrir que sintomas debilitantes surgiram mais tarde. Outros tiveram casos graves que ainda não conseguem curar.45

A natureza da síndrome da Covid Longa é episódica e frequentemente imprevisível. Em cada 10 pacientes com Covid Longa quase 9 relatam recaídas ao longo de 7 meses, sendo a atividade física, estresse, exercícios e atividade mental os desencadeadores mais comuns de recaídas. A trajetória da Covid Longa é heterogênea, com muitos dos pacientes experimentando sintomas flutuantes contínuos após 6 meses.46

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6. Impacto Multi-Orgânico

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“A dor crônica afeta toda a pessoa”

A dor crônica pode vir em muitas formas diferentes e aparecer em todo o corpo:

  • Artrite ou dor nas articulações.
  • Dor nas costas.
  • Dor cancerosa perto de um tumor.
  • Dores de cabeça, incluindo enxaquecas.
  • Dor duradoura no tecido cicatricial.
  • Dor muscular por toda parte (como na fibromialgia).
  • Dor neurogênica, causada por danos aos nervos ou outras partes do sistema nervoso.

A dor crônica também está associada a outros transtornos não dolorosos per se, mas que contribuem a dores crônicas como as anteriores: ansiedade, depressão, fadiga ou sensação de cansaço excessivo, insônia ou dificuldade em adormecer e mudanças de humor.47

De fato, numa pesquisa qualitativa envolvendo pacientes com fibromialgia, a reclamação mais prevalente não foi a dor física em si, mas as consequências psicossociais, como angústia, solidão, perda de identidade e baixa qualidade de vida, seus principais problemas.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas Covid Longa

“A dor crônica afeta toda a pessoa”. O mantra também se aplica à Covid Longa.

Danos causados pela Covid-19 e tratamentos relacionados prejudicam vários sistemas do corpo e podem ter efeitos fisiológicos, emocionais, e mentais de longa duração. Estes, por sua vez, podem provocar anormalidades metabólicas.

O estudo abrangendo 3.700 pessoas de 56 países, antes mencionado, mostrou que eles registraram 205 sintomas em 10 sistemas de órgãos e 66 sintomas rastreados ao longo de 7 meses. Em média, os entrevistados experimentaram sintomas de nove sistemas orgânicos diferentes.

Por que esses novos sintomas crônicos são tão variados? Uma hipótese é a de que a síndrome pós-aguda Covid-19 afeta o sistema nervoso autônomo, que regula as respostas involuntárias, como digestão e respiração. Como esse sistema atravessa tantos sistemas orgânicos, os sintomas são muito mais variados e disseminados.

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7. Impacto Neurológico (dano cerebral/disfunção nervosa/memória)

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A dor crônica é um componente frequente de muitos distúrbios neurológicos, afetando 20–40% dos pacientes com muitas doenças neurológicas primárias. Essas doenças resultam de uma ampla gama de fisiopatologias, incluindo lesão traumática do sistema nervoso central, neurodegeneração e neuroinflamação.

A dor originada no sistema nervoso central (SNC) ou periférico, frequentemente se torna centralizada por meio de respostas mal-adaptativas dentro do SNC que podem alterar profundamente os sistemas cerebrais e, assim, o comportamento (ex.: depressão). Assim sendo, ser considerada uma doença cerebral na qual alterações nas redes neurais afetam vários aspectos da função, estrutura e química do cérebro.

Exemplos de doenças neurológicas48 que têm a dor como processo coexistente ou comórbido:

  • Parkinson
  • Alzheimer
  • Esclerose Múltipla
  • Doença de Huntington
  • Neuropatia diabética
  • Lesão traumática no cérebro

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Que o SARS-CoV-2, o culpado da pandemia Covid-19, também esteja associado a sintomas neurológicos não é totalmente surpreendente, dadas algumas evidências de que seus parentes próximos, MERS-CoV e SARS-CoV-1, foram associados com sintomas neurológicos também.

Estudos de autópsia encontraram sinais claros de danos em dezenas de cérebros de pacientes com Covid-19, apesar de, às vezes, sequer haver traços do vírus. As maneiras em que o novo coronavírus afeta o cérebro podem ser indiretas – ex.: ingressando pelo nariz e se hospedando no tecido local – ou desconhecidas.

Num estudo prospectivo abrangendo 100 long haulers não hospitalizados, 85% relataram 4 ou mais sintomas neurológicos persistentes e debilitantes, entre eles: “névoa cerebral” (81%), dor de cabeça (68%), dormência/formigamento (60%), disgeusia (59%), anosmia (55%) e mialgias (55%), com apenas anosmia ser mais frequente. Além disso, 85% também experimentaram fadiga.  Aproximadamente metade dos pacientes no estudo teve um exame neurológico anormal, com anormalidades na memória de curto prazo e funções de atenção sendo proeminentes.49

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8. Impacto Cardiológico (dano cardiológico)

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A dor crônica de longo prazo pode produzir estresse e ansiedade severos, que por sua vez podem elevar a pressão arterial e a pulsação. Isso se deve “em parte a processos alterados nas vias da dor e na função cardiovascular que normalmente se sobrepõem”.

O ‘barorreflexo’, mecanismo homeostático que ajuda a manter a pressão arterial em níveis quase constantes, também está envolvido na experiência da dor. Com a dor crônica, os processos do barorreflexo são interrompidos e não fazem seu trabalho adequadamente, o que leva à hipertensão – o corpo está sobrecarregado e o fluxo sanguíneo funciona em horas extras. A anomalia pode causar ataque cardíaco, derrame, insuficiência cardíaca e angina, entre outros problemas.50

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Quase um quarto dos hospitalizados com Covid-19 foram diagnosticados com complicações cardiovasculares, que comprovadamente contribuem para cerca de 40% de todas as mortes relacionadas com Covid-19.

Mas dois estudos recentes sugerem que os danos ao coração entre as pessoas infectadas podem ser mais comuns. Autópsias feitas em 39 pacientes com Covid-19 identificaram infecções nos corações de pacientes que não tinham sido diagnosticados com problemas cardiovasculares enquanto estavam doentes.5152

Outro estudo do JAMA Cardiology usou ressonâncias magnéticas cardíacas em 100 pessoas que se recuperaram da Covid-19 nos últimos dois a três meses. Os pesquisadores encontraram anormalidades no coração de 78% dos pacientes recuperados e “inflamação contínua do miocárdio” em 60%. O mesmo estudo encontrou níveis elevados da enzima sanguínea troponina, um indicador de dano cardíaco, em 76% dos pacientes testados, embora a função cardíaca pareça estar geralmente preservada. A maioria dos pacientes do estudo não precisou de hospitalização.53

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9. Impacto Hepático (metabolismo)

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A obesidade – definida como um índice de massa corporal acima de 30 – é uma causa da síndrome metabólica, um grupo de condições associadas que incluem diabetes, doenças cardíacas, derrame e outras condições crônicas.

A relação, todavia, é de duas mãos. Estudos também mostraram que a obesidade e a dor estão interligadas e influenciam uma à outra ao longo de muito tempo.

Ou seja, enxaqueca, artrite e diferentes condições crônicas podem causar sintomas físicos e emocionais, os que por sua vez podem aumentar a sensibilidade à dor e causar inflamação, de maneira permanente.

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As complicações fisiológicas causadas pela síndrome metabólica e diabetes tipo 2 são um fator de risco para a Covid-19, e também favorecem o desenvolvimento de patologias associadas à Covid-19, independentemente da carga viral. Ao que parece, porém, esse efeito não se extingue com a infecção. Os que sobrevivem a ela estão predispostos a desenvolver complicações metabólicas durante a recuperação, sugerindo que essas infecções, e potencialmente seus tratamentos, podem causar danos colaterais de longa duração à saúde metabólica.

Evidências, por exemplo, mostram pessoas com dificuldades para controlar seus níveis de açúcar no sangue após desenvolverem diabetes como resultado da Covid. E há precedentes em pacientes recuperados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), a família dos coronavírus. Um estudo abrangendo 25 deles mostrou mudanças na maneira em que o corpo passou a processar gorduras por pelo menos 12 anos. Especificamente, foram detectadas anormalidades metabólicas como hiperlipidemia e anormalidades cardiovasculares, bem como sinais de metabolismo anormal da glicose, como hiperinsulinemia, resistência à insulina, hiperglicemia, e diabetes tipo 1 ou 2.

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10. Impacto Musculoesquelético

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Na nova categoria proposta pela International Association for the Study of Pain (IASP) para a International  Classification of Diseases (IDC-11), a dor musculoesquelética crônica é definida como dor persistente ou recorrente que surge como parte de um processo de doença afetando diretamente ossos, músculos, ou tecidos moles relacionados.

Essa dor pode resultar indiretamente de:

  • Neuropatia periférica – danos ao sistema nervoso periférico, a vasta rede de comunicação que envia sinais entre o sistema nervoso central (o cérebro e a medula espinhal) e todas as outras partes do corpo. Essa rede engloba nervos motores, sensoriais e autonômicos. Os primeiros controlam o movimento de todos os músculos sob controle consciente, como os usados para caminhar, agarrar coisas ou falar. O dano ao nervo motor é mais comumente associado à fraqueza muscular. Outros sintomas incluem cãibras dolorosas, fasciculações (espasmos musculares não controlados visíveis sob a pele) e encolhimento muscular.
  • Deficiência de testosterona – comum em pacientes com dor crônica.  A falta desse hormônio pode causar redução da função sexual, afrontamentos, ganho de peso, perda de massa muscular e muito mais.54
  • Fadiga – costuma acompanhar a dor crônica. Até três em cada quatro pessoas com dor musculoesquelética crônica generalizada relatam fadiga; e até 94% das pessoas com síndromes de fadiga crônica relatam dores musculares.55

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Complicações relacionadas à Covid são depressão cardíaca, pulmonar ou renal, sono insatisfatório ou descondicionamento muscular.

Alguns long haulers relatam dores em um músculo ou grupo de músculos (mialgia), dores nas articulações e fadiga após se recuperarem do curso inicial do vírus. Dor muscular persistente e dor no peito estão sendo relatadas pelos que tiveram a Covid-19 leve ou moderada e hoje se sabe que estes não estão isentos de se transformar em long haulers.56

Uma pesquisa recente abrangendo 1500 long haulers, realizada pelo “Survivor Corps” em setembro de 2020, relacionou as dores musculares em segundo lugar, logo atrás da fadiga, num ranking de dores experimentadas dentre 98 possibilidades. Ela foi seguida por falta de ar e dificuldades de concentração.5758

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11. Impacto na Saúde Mental

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O estudo da relação entre dor crônica e psicopatologia é recente. Em 1992, uma pesquisa pioneira avaliou 200 pacientes com dor lombar crônica, descobrindo que 77% deles teriam preenchido os critérios de diagnóstico psiquiátrico ao longo da vida e 59% demonstravam sintomas atuais, para pelo menos um diagnóstico psiquiátrico. Os mais comuns foram depressão grave, abuso de substâncias e transtornos de ansiedade. Além disso, 51% preenchiam os critérios para pelo menos um transtorno de personalidade.

Posteriormente, encontrou-se taxas comparativamente altas de psicopatologia em outros distúrbios de dor crônica, como distúrbio temporomandibular e distúrbios dos membros superiores, como a síndrome do túnel do carpo.59 Igualmente, em síndromes inespecíficas (como síndrome do intestino irritável, fibromialgia, cefaleia etc.), muito associadas com transtorno do pânico, depressão maior e transtorno de somatização.60

A relação entre ansiedade e depressão é a mais pesquisada. Pacientes com ansiedade ou transtornos depressivos apresentam mais sintomas físicos e, à medida que o número de sintomas físicos aumenta, aumenta também a probabilidade de ansiedade ou transtorno depressivo.

Na virada do século, um estudo da Organização Mundial da Saúde avaliou 5.438 pacientes de 15 locais de atenção primária e 14 países. Dos 22% dos pacientes que relataram dor persistente por mais de 6 meses, houve um aumento de 4 vezes na ansiedade associada ou transtornos depressivos.61

Há 15 anos, uma pesquisa da Pesquisa Mundial de Saúde abrangendo 245.404 participantes de 60 países demonstrou que a prevalência de depressão em entrevistados com doenças crônicas era major do que naqueles sem doenças crônicas.

Mais recentemente, em 2016, um estudo de autorrelatos feitos por 5.688 adultos com sintomas confirmou a associação: quando o número de doenças crônicas aumenta, também aumentam os sintomas depressivos. A prevalência de sintomas depressivos foi de 10,5% com zero condições crônicas, 14,4% com uma condição, 20,8% com duas condições, 30,1% com três condições, 37,3% com quatro condições e 58,3% com cinco condições.

Aproximadamente um terço a três quartos das pessoas com dor crônica experimentam depressão moderada a grave. A relação entre ambas as condições não foi esclarecida até a neurociência mostrar uma relação biunívoca entre elas. Dessa forma, a mera persistência da dor pode aumentar o estresse e consequentemente a depress5o, criando um ciclo vicioso difícil de quebrar.6263

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Para começar, a própria pandemia poderia ser considerada um evento traumático com efeito psicológico duradouro. Os resultados de uma pesquisa transversal italiana baseada na web mostrando uma porcentagem relativamente alta (29,5%) de pessoas com a síndrome de estresse pós-traumático (PTSS) relacionada à pandemia, sugerem isso.6465

Atualmente não há um único estudo de coorte sobre os sintomas da Covid Longa que exclua transtornos psiquiátricos.

Por exemplo, um estudo de coorte retrospectivo usando registros eletrônicos de saúde abrangendo 236.379 sobreviventes de Covid-19, revelou a incidência de 14 desfechos neurológicos e psiquiátricos nos 6 meses após um diagnóstico confirmado de Covid-19: hemorragia intracraniana; acidente vascular cerebral isquêmico; parkinsonismo; síndrome de Guillain-Barré; nervos, raízes nervosas e distúrbios do plexo; junção mioneural e doença muscular; encefalite; demência; transtornos psicóticos, de humor e de ansiedade (agrupados e separadamente); transtorno de uso de substância; e insônia.66

Há também efeitos cognitivos. Num estudo prospectivo abrangendo 100 pacientes com Covid Longa, estes tiveram pior desempenho em tarefas que exigiam atenção e memória de trabalho em comparação com uma população-controle demograficamente semelhante.67

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12. Comorbidades

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Um em cada três adultos vive com mais de uma condição crônica ou condições crônicas múltiplas (multiple chronic conditions, MCC).68

As estimativas de prevalência para comorbidades crônicas são heterogêneas. Há uma década, no Reino Unido elas variavam de 16% (17 condições crônicas consideradas) a 58% (114 doenças crônicas consideradas).69

Ao incluir 10 condições físicas crônicas, aproximadamente 25,5% da população dos Estados Unidos relatou ter MCC. A taxa de prevalência aumentou para 50% nos adultos de 45 a 65 anos e atingiu 81% nos com mais de 65 anos.70

A prevalência geral de multimorbidade foi alta em 7 países europeus, 1 latino-americano e 1 africano. Hipertensão, catarata e artrite foram as comorbidades mais prevalentes. Vários padrões foram identificados em vários países: “cardiorrespiratório” (angina, asma e doença pulmonar obstrutiva crônica), “metabólico” (diabetes, obesidade e hipertensão) e “mental-articular” (artrite e depressão). Para adultos com mais de 50 anos, as taxas de MCC variam de 45% na China a 71% na Rússia.71

As comorbidades incluem alterações de humor (como depressão, ansiedade, distúrbios do sono, fadiga/falta de energia, alterações neuro-cognitivas e outros sintomas vagos, incluindo estados de dor difusa generalizada. A dor crônica e doenças neuropsiquiátricas, principalmente a depressão, são altamente comórbidas. De fato, em média até 50% dos pacientes com alguma forma de dor crônica apresentam sintomas de ansiedade e depressão, enquanto em alguns estudos o número excede 75%.72

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Num estudo prospectivo abrangendo 100 pacientes com Covid Longa, as comorbidades mais frequentes foram depressão/ansiedade (42%) e doenças autoimunes (16%).

A pesquisa mostra que alguns portadores de Covid Longa têm pelo menos uma comorbidade, como doença cardíaca ou diabetes tipo 2, mesmo que não estivessem gravemente doentes com Covid-19. Um pequeno estudo de outubro de 2020 publicado na Clinical Microbiology and Infection descobriu que 86 de 130 pessoas que desenvolveram Covid-19 não crítica experimentaram pelo menos um sintoma persistente dois meses após seus sintomas iniciais. Desses 86 long-haulers, 80 indivíduos tinham ao menos uma comorbidade.73

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13. Reconhecimento Médico

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O reconhecimento da dor crônica como uma entidade patológica por direito próprio permanece sob judice.74 A dor crônica ainda não é incluída na International Classification of Diseases (ICD-11), nem o seu diagnóstico e tratamento são típicos de uma especialidade médica específica. Apesar dos dados que mostram o peso da dor como doença, falta um reconhecimento final da natureza patológica dessa condição. (Ele poderia vir no próximo 01/01/22.)

Nenhuma especialidade médica responde, sozinha, pela dor crônica.

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A Covid Longa ainda sequer é entendida pelos médicos em geral, muito menos reconhecida como doença. Os cientistas recém começam a descobrir parcialmente a sua etiologia. Contudo, quando uma fadiga pós-viral não desaparece por três meses ou mais e tem um efeito significativo sobre o que você pode fazer – ex.: voltar ao trabalho ou à vida normal – o diagnóstico seria de encefalomielite miálgica (ME), também conhecida como síndrome de fadiga crônica (CFS), que é uma doença crônica, também parecida com a fibromialgia. Algo semelhante acontece com a Covid Longa. Há muita sobreposição entre essas duas condições.

Até agora nenhuma especialidade médica se apresentou para responder pela Covid Longa.