Comorbidades sem direito à vacina. E sem explicação.

Comorbidades sem direito à vacina. E sem explicação.
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Milhões de famílias brasileiras atualmente dependem da vontade do que aos desenhadores do Plano Nacional de Imunização entenderem por “grupo de risco”. Nessa semana, os com direito à vacina são os portadores de comorbidades – um termo, aliás, que muita gente ainda desconhece. O Ministério da Saúde soltou uma listagem especificando quais seriam elas, as tais comorbidades. Mas excluiu duas que afetam muita gente. Esse post comenta uma delas. Omissões do tipo, convém mencionar, não são eventos triviais; nas atuais circunstâncias, elas podem custar vidas.

“A omissão do bem não é menos repreensível do que a prática do mal.”

Plutarco

Com a pandemia vários termos médicos antes desconhecidos se tornaram corriqueiros. Comorbidade é um dos mais falados, especialmente agora que essa condição caracteriza um grupo de risco sendo vacinado.

Comorbidades são duas ou mais condições médicas distintas que ocorrem na mesma pessoa, ao mesmo tempo. Obviamente, isso é muito comum, e talvez por esse motivo o Ministério da Saúde emitiu ontem uma listagem com as comorbidades específicas que dão direito a vacina.

Tabela – Lista de comorbidades incluídas nos grupos prioritários da vacinação contra a COVID-19

Grupo de comorbidades Descrição
Diabetes Mellitus Indivíduos com diabetes mellitus.
Pneumopatias crônicas graves Indivíduos com pneumopatias graves, incluindo doença pulmonar obstrutiva crônica, fibrose cística, fibroses pulmonares, pneumoconioses, displasia broncopulmonar e asma grave (uso recorrente de corticoides sistêmicos, internação prévia por crise asmática).
Hipertensão Arterial Resistente (HAR) HAR= Quando a pressão arterial (PA) permanece acima das metas recomendadas com o uso de três ou mais anti-hipertensivos de diferentes classes, em doses máximas preconizadas e toleradas, administradas com frequência, dosagem apropriada e comprovada adesão ou PA controlada em uso de quatro ou mais fármacos anti-hipertensivos.
Hipertensão arterial estágio 3 PA sistólica ≥180mmHg e/ou diastólica ≥110mmHg independente da presença de lesão em órgão-alvo (LOA) ou comorbidade.
Hipertensão arterial estágios 1 e 2 com lesão em órgão-alvo e/ou comorbidade PA sistólica entre 140 e 179mmHg e/ou diastólica entre 90 e 109mmHg na presença de lesão em órgão-alvo e/ou comorbidade.
Insuficiência cardíaca (IC) IC com fração de ejeção reduzida, intermediária ou preservada; em estágios B, C ou D, independente de classe funcional da New YorkHeart Association.
Cor-pulmonale e Hipertensão pulmonar Cor-pulmonale e Hipertensão pulmonar. Cor-pulmonale crônico, hipertensão pulmonar primária ou secundária.
Cardiopatia hipertensiva Cardiopatia hipertensiva (hipertrofia ventricular esquerda ou dilatação, sobrecarga atrial e ventricular, disfunção diastólica e/ou sistólica, lesões em outros órgãos-alvo).
Síndromes coronarianas Síndromes coronarianas crônicas (Angina Pectoris estável, cardiopatia isquêmica, pós Infarto Agudo do Miocárdio, outras).
Valvopatias Lesões valvares com repercussão hemodinâmica ou sintomática ou com comprometimento miocárdico (estenose ou insuficiência aórtica; estenose ou insuficiência mitral; estenose ou insuficiência pulmonar; estenose ou insuficiência tricúspide, e outras).
Miocardiopatias e Pericardiopatias Miocardiopatias de quaisquer etiologias ou fenótipos; pericardite crônica; cardiopatia reumática.
Doenças da Aorta, dos Grandes Vasos e Fístulas arteriovenosas Aneurismas, dissecções, hematomas da aorta e demais grandes vasos.
Arritmias cardíacas Arritmias cardíacas com importância clínica e/ou cardiopatia associada (fibrilação e flutter atriais; e outras)
Cardiopatias congênita no adulto Cardiopatias congênitas com repercussão hemodinâmica, crises hipoxêmicas; insuficiência cardíaca; arritmias; comprometimento miocárdico.
Próteses valvares e Dispositivos cardíacos implantados Portadores de próteses valvares biológicas ou mecânicas; e dispositivos cardíacos implantados (marca-passos, cardiodesfibriladores, ressincronizadores, assistência circulatória de média e longa permanência).
Doença cerebrovascular Acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico; ataque isquêmico transitório; demência vascular.
Doença renal crônica Doença renal crônica estágio 3 ou mais (taxa de filtração glomerular < 60 ml/min/1,73 m2) e/ou síndrome nefrótica.
Imunossuprimidos Indivíduos transplantados de órgão sólido ou de medula óssea; pessoas vivendo com HIV; doenças reumáticas imunomediadas sistêmicas em atividade e em uso de dose de prednisona ou equivalente > 10 mg/dia ou recebendo pulsoterapia com corticoide e/ou ciclofosfamida; demais indivíduos em uso de imunossupressores ou com imunodeficiências primárias; pacientes oncológicos que realizaram tratamento quimioterápico ou radioterápico nos últimos 6 meses; neoplasias hematológicas.
Anemia falciforme Indivíduos com anemia falciforme
Obesidade mórbida Índice de massa corpórea (IMC) ≥ 40
Síndrome de down Trissomia do cromossomo 21
Cirrose hepática Cirrose hepática Child-Pugh A, B ou C

Fonte: BRASIL, Ministério da Saúde, Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a COVID-19, 5ª edição, 2021.

Eu a comparei com a listagem homônima emitida em Nova York e duas omissões me chamaram a atenção. Elas se referem a doenças neurológicas e a fibromialgia. Nesse post vou comentar a primeira.

As comorbidades neurológicas ficaram de fora da listagem brasileira, ou elas estão ocultas em algum canto escuro da comunicação ministerial e eu deixei passar?

Conforme o Plano Nacional de Imunização (PNI), são oficialmente consideradas comorbidades: diabetes, doenças pulmonares, hipertensão, problemas cardíacos, doenças renais, obesidade mórbida e outros. Se as doenças neurológicas estiverem nos “outros”, tudo bem, caso contrário é estranho.

Somente em relação ao autismo, por exemplo, há ao menos 8 comorbidades neurocomportamentais, sendo o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o Transtorno Bipolar, e o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), as mais conhecidas.

A enxaqueca, por outro lado, afeta muita gente que sofre com todo tipo de doenças crônicas, em especial as mulheres – segundo a Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (SBED), 50% da população geral tem cefaleia (o termo técnico para a dor de cabeça) durante um determinado ano, e mais de 90% tem história de cefaleia durante a vida. Mas 3% da população geral tem enxaqueca, ou seja, cefaleia crônica em ≥15 dias por mês! Será que isso não conta para a enxaqueca se habilitar a ser uma comorbidade, semelhante a hipertensão ou a uma cardiopatia, para efeitos de vacinação… ou para tanto é preciso ter sofrido um acidente vascular isquêmico? Estranho.

Mais estranho ainda é que a listagem de comorbidades que autorizam a vacinação em Macapá, sim Macapá, onde o diabo perdeu as botas, de fato inclui “doenças neurológicas e até específica: acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico, paralisia cerebral, esclerose múltipla, deficiência neurológica grave, doenças hereditárias e degenerativas do sistema nervoso central”.

Muito estranho, tudo isso.

Sofre de enxaqueca?
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