Durante décadas, a prática clínica em dor crônica se organizou em torno de uma pergunta simples demais: quanto dói? Uma pergunta assim, respondida numa escala de 0 a 10, parece objetiva — mas esconde uma quantidade enorme de variação individual que não consegue capturar. É exatamente por isso que por aqui decidimos ajudar quem convive com dor crônica a entender melhor o próprio quadro de dor. O artigo que resumimos nesta postagem não apenas mostra uma das abordagens clínicas mais modernas para se abordar essa medição, mas também explora como o grau de severidade da dor relatada pelo paciente é modulado pela sua personalidade.
Quando um paciente com dor persistente é ajudado por um terapeuta, o objetivo principal é reduzir o medo, reformular os pensamentos sobre o desconforto e restaurar movimentos seguros ou estratégias de enfrentamento emocional. O tratamento concentra-se em mudar a forma como o corpo e a mente respondem à dor, em vez de apenas buscar uma solução rápida.
A questão é: quanto o grau de severidade da dor determina o nível de apoio psicológico que o paciente provavelmente necessita?
Isso requer por um pé na medicina da dor e outro pé na psicologia.
Um novo estudo conduzido em clínicas de dor e centros de fisioterapia de Teerã, entre 2022 e 2023, ajuda a explicar por que o grau de severidade da dor crônica é uma informação que muda a natureza do seu tratamento.
O estudo
O estudo abrangeu 260 pacientes, divididos em dois grupos de 130: um com dor crônica de baixa severidade, outro com dor crônica de alta severidade. A separação entre os grupos foi feita com a Escala Graduada de Dor Crônica (GCPS) – o mesmo instrumento, na sua essência, que orienta boa parte dos protocolos modernos de triagem de dor persistente, e que mede não apenas intensidade, mas o quanto a dor efetivamente limita a vida da pessoa.
Para caracterizar a personalidade de cada paciente, os pesquisadores usaram o Inventário de Temperamento e Caráter (TCI), de Cloninger – um modelo que distingue dois níveis de personalidade: o temperamento (traços com base mais biológica, relativamente estáveis desde cedo: Busca de Novidade, Esquiva ao Dano, Dependência de Recompensa, Persistência) e o caráter (traços moldados pela experiência de vida, mais maleáveis: Autodirecionamento, Cooperatividade, Autotranscendência).
O que os dados mostraram
A análise (MANOVA, com diferenças estatisticamente significativas, p < 0,01) revelou um padrão consistente: pacientes no grupo de alta severidade de dor apresentaram um perfil de personalidade sistematicamente diferente do grupo de baixa severidade.
| No temperamento: | |
| Esquiva ao Dano mais alta | Mais medo antecipatório, mais preocupação, mais tendência a evitar o que é percebido como ameaça (incluindo, plausivelmente, movimento e atividade). |
| Busca de Novidade mais alta | Um achado menos intuitivo, que sugere maior impulsividade ou inquietação diante da frustração crônica. |
| Dependência de Recompensa mais baixa | Menor sensibilidade a reforço social e afetivo, o que pode dificultar a adesão a tratamentos que dependem de vínculo e acompanhamento. |
| Persistência mais baixa | Menor capacidade de manter esforço diante de resultados lentos ou inconsistentes, um fator crítico quando o tratamento exige semanas de adesão a um plano. |
| No caráter: | |
| Autodirecionamento mais baixo | Menor senso de controle sobre a própria vida e menor clareza de objetivos, historicamente um dos preditores mais robustos de pior ajustamento psicológico à dor crônica. |
| Cooperatividade mais baixa | Maior dificuldade de engajamento colaborativo, inclusive na relação terapêutica. |
| Autotranscendência mais baixa | Menor capacidade de encontrar sentido além da experiência imediata de sofrimento. |
Em conjunto, esse é o retrato de um sistema psicológico sob pressão prolongada — não uma “personalidade difícil” pré-existente, mas um perfil que muito provavelmente é, em parte, moldado pela própria experiência acumulada de dor de alto impacto, e que por sua vez retroalimenta a forma como essa dor é vivida e enfrentada.
Por que isso importa para quem sente a dor
Para o paciente, esse achado tem um valor imediato: desculpabiliza.
Se alguém com dor de alto impacto se percebe mais medroso, menos persistente, com menos senso de controle sobre a própria vida – isso não é fraqueza de caráter, nem “estar sendo dramático”. É um padrão psicológico mensurável, replicado em estudo, associado à severidade objetiva do quadro. Entender isso muda a relação da pessoa com sua própria reação à dor: a dificuldade de manter um plano de tratamento, o medo de se movimentar, a sensação de estar “sem rumo” diante do próprio corpo – tudo isso faz sentido dentro do quadro, em vez de ser interpretado como um defeito pessoal a mais, empilhado sobre a dor.
Saber o próprio grau de severidade, portanto, não é só uma etiqueta clínica – é uma peça de autoconhecimento que ajuda a pessoa a entender por que certas coisas (manter uma rotina, confiar em melhora, aceitar ajuda) estão mais difíceis agora do que estariam num momento de dor mais leve.
Por que isso importa para quem trata
Para o médico ou fisioterapeuta, a implicação é mais direta ainda: o grau de severidade da dor crônica de um paciente é informação preditiva sobre o tipo de suporte psicológico que aquele tratamento provavelmente vai precisar, mesmo antes de qualquer avaliação de personalidade formal ser feita.
| Um paciente identificado como estando em grau de alto impacto tem uma probabilidade maior de apresentar: | |
| Maior esquiva e medo antecipatório | Planos de reativação de movimento precisam de graduação mais cuidadosa e de mais tempo dedicado à segurança percebida, não só à prescrição do exercício em si. |
| Menor persistência | Adesão a longo prazo é um risco real; planos de tratamento que dependem de múltiplas semanas de constância se beneficiam de metas menores, ciclos de revisão mais curtos, e reforço mais frequente, não porque o paciente “não se esforça”, mas porque a arquitetura do tratamento precisa compensar um traço mensurável. |
| Menor autodirecionamento | O paciente pode se beneficiar de mais estrutura externa (um plano passo a passo, decisões pré-organizadas) em vez de ser deixado para “decidir sozinho o que fazer”, que é exatamente o tipo de autonomia que esse perfil tem mais dificuldade de exercer no momento. |
| Menor cooperatividade | A aliança terapêutica pode exigir mais tempo e intencionalidade para se firmar, e isso não deveria ser lido como resistência ou falta de motivação. |
Nenhuma dessas adaptações exige um teste de personalidade completo na consulta. Exige, no mínimo, saber em que grau de severidade o paciente está – porque é essa informação, sozinha, que já antecipa estatisticamente a direção provável do perfil psicológico associado.
Um clínico que trata dor de alto impacto exatamente da mesma forma que trata dor leve – mesma expectativa de adesão, mesmo ritmo de progressão, mesma exigência de autonomia – está, em média, desalinhado com o perfil psicológico mais provável do paciente à sua frente.
Da pesquisa à prática: por que a triagem de severidade não é burocracia
Esse é o argumento, em essência, para que instrumentos de triagem de severidade – como a própria GCPS e suas variantes mais recentes – deixem de ser vistos como formalidade administrativa e passem a ser tratados como o primeiro filtro clínico real, tão relevante quanto perguntar onde dói. Saber que um paciente está em grau de alto impacto não é apenas uma forma de documentar gravidade – é uma pista concreta sobre como aquele tratamento provavelmente precisa ser desenhado para não esbarrar em exatamente os traços que a própria dor, ao longo do tempo, ajudou a moldar.
A dor crônica nunca foi só uma questão de intensidade. Este estudo reforça, com dados, o que a prática clínica já suspeitava: quanto mais grave o quadro de dor, mais o tratamento precisa deixar de ser genérico – e o primeiro passo para isso é, simplesmente, saber em que grau de severidade a pessoa está.
Referência:
- Bagheri Sheykhangafshe, F., Farahani, H., Dehghani, M., & Fathi-Ashtiani, Assessing Temperament and Character Traits in Patients with Varying Degrees of Chronic Pain: A Comparative Analysis.






