RESULTADOS DA PESQUISA

Dor na Mulher

A pesquisa foi realizada por mim em parceria com a Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP) e autorizada pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa. O relatório completo também estará acessível no blog em breve, na condição de “manuscrito do autor”. Cabe a faculdade providenciar a sua publicação no meio científico.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Percepção do Atendimento Médico prestado às mulheres com dor crônica.

Julio Troncoso, Ph.D.

A fim de criar uma mudança sustentável no tratamento da dor, reconhecer o impacto das diferenças de sexo e gênero no atendimento ao paciente é fundamental.

O objetivo do estudo foi o de conhecer a percepção que as pacientes com dor crônica têm do atendimento recebido por parte de médicos e suas equipes. A indagação se insere num vigoroso movimento de pesquisa ora presente em diversos países desenvolvidos, focado na disparidade de gênero que caracteriza os serviços de saúde, seja no atendimento clínico, na pesquisa, na farmacologia, e até no reconhecimento das profissionais de saúde mulheres. Disparidades que, ao afetar o acesso da mulher a recursos de promoção da saúde, prejudicam a sua saúde e bem-estar. Dessa evolução, todavia, pouco ou nada se sabe no Brasil. O questionário abrangia 37 questões. O convite ficou disponível online durante 21 dias (outubro-novembro/2020).  Ao todo foram processados 1022 questionários corretamente respondidos. Obs. Somente algumas das gráficos que constam do Relatório da pesquisa foram incluídas nesse briefing.

Escolaridade x Idade

Gráfico 3

Informação sobre Origem da Dor Crônica

Das 1022 respondentes, 622 disseram ter sido informadas por um profissional da saúde sobre a doença causante da sua dor. Solicitadas a escrever o nome da doença, o resultado foi o seguinte:

Gráfico 4

O Médico

O Gráfico 5 a seguir mostra os principais resultados pertinentes ao médico.

Gráfico 5

Obs. Na primeira pergunta, respondida conforme uma escala de 0 a 10, foram consideradas “satisfeitas” apenas as respondentes que cravaram 9 e 10, e “insatisfeitas”, as que distribuíram suas notas entre 1 e 5. Na segunda pergunta foi usada uma escala de Likert de 1 a 5 e a interpretação foi convencional.

A metade das mulheres amostradas (498 em 1022) reclama da valorização que o médico dá às suas queixas de dor.

Gráfico 6 – A

Uma proporção ainda maior (756 em 1022), reconhece que este se preocupa com a doença, mas dá pouca atenção às queixas de dor.

Gráfico 6 – B

Embora semelhantes, as duas perguntas não se mostraram correlacionadas estatisticamente. Isso ocorreu porque a percepção de que “o médico se preocupa com a doença, mas dá pouca importância às queixas de dor” é generalizada, independentemente da percepção das respondentes quanto as suas queixas de dor serem valorizadas.

A análise conjunta de ambas, no entanto, revela que a percepção de que o médico pouco atenta para às queixas de dor é claramente prevalente entre as mulheres amostradas.

A Equipe Médica

A equipe médica foi descrita no questionário da pesquisa como sendo constituída por médicos, enfermeiro(a)s, psicólogos, assistente social etc.

Gráfico 7

Para tornar as informações mais sucintas, as opções de respostas foram reunidas em “Concordo Totalmente” e “Concordo parcialmente” numa única categora “Concordo”). Igualmente no caso das discordâncias. Para ver a tabela completa, consulte o relatório completo da pesquisa.

A percepção das respondentes em relação a preocupação demonstrada pela equipe médica em relação a doença e queixas de dor é bastante mais crítica que a inspirada pelo médico. Enquanto 8 em cada 10 respondentes concordam plenamente que o médico se preocupa com ambas as coisas, apenas em torno de 2 mulheres opinam o mesmo da equipe médica, e quase 5 indicam que outras pessoas se preocupam mais com elas do que essa equipe. Isso é confirmado pela afirmação da maioria (57%), ao se mostrar a favor do apoio de uma equipe de saúde multidisciplinar.

Intensidade da Dor

Gráfico 8 – Proporção dos que sentem dor há mais de 6 meses e estão em 8, 9 e 10, na escala de intensidade da dor (n = 882)

Os dados na tabela acima se referem unicamente ao subgrupo das mulheres com dor crônica acima de 6 meses. Das 882 respondentes, a metade (434, ou 49,2%) reportou ter percebido que suas queixas de dor não foram valorizadas pelo médico.  Mais importante, quase um terço desse grupo com dor crônica (29,4%, ou 259 em 882) está no pior dos mundos: sentindo dor intensa e sem ter essa condição “legitimada” pelo médico uma vez que este não reconhece suas queixas de dor.

Surpreendentemente, a intensidade da dor não influencia a percepção de descaso do médico em relação as queixas de dor. Mesmo quando a intensidade da dor não é severa a reclamação permanece.

Comunicação

Gráfico 10

Teste de qui-quadrado valor-p < 0.0001

Pouco mais da metade das pacientes amostradas (540 em 951, ou 56,7%) diz conhecer o motivo de sua dor e ter sido informada sobre isso por um profissional da saúde. É difícil considerar essa proporção como sendo satisfatória.

Outros achados

Uma proporção também significativa de respondentes (399, ou 39,1%) é composta por dois grupos distintos: as que se consideram informadas sobre sua dor, mas não por um profissional da saúde, e as que não se consideram informadas, a despeito de tê-lo sido por este. Ou seja, por ação ou omissão, os profissionais da saúde não satisfazem as necessidades de informação sobre a dor de suas pacientes em 40% dos casos.

Ao restringir a análise à subamostra de mulheres com dor crônica acima de 6 meses (284 em 882, ou 32%), o quadro piora: um terço relata não conhecer o motivo da dor, e uma parcela levemente maior (313, ou 35%), que não fora informada sobre isso por um profissional da saúde. A dupla carência atinge um quarto desse grupo (226 em 882).

O nível de informação, todavia, parece amenizar as críticas sobre a valorização das queixas de dor pelo médico. A maioria das mulheres (568 em 1022) que se diz bem-informada, reclama menos da valorização das suas queixas de dor pelo médico do que as que se dizem menos informadas.

Lócus de Controle

O Lócus de Controle mede até que ponto a pessoa acredita que controla os eventos que a afetam. 

Se o Lócus de Controle de uma pessoa for caracteristicamente Externo, significa que ela acredita que os eventos da sua vida dependem do poder de outros (“Outros Poderosos”). Ao contrário, um Lócus de Controle Interno indica que a pessoa acha que esses eventos estão sob o seu controle. E se o Lócus de Controle preferenciar o Acaso, que os acontecimentos dependem da sorte.

Na amostra estudada prevaleceu o Lócus de Controle Acaso, seguido à distância pelo Lócus de Controle Externo, e por último, do Interno. 

A explicação para a supremacia dessa orientação pelo Acaso entre as mulheres amostradas – que não foi prevista – pode estar na sensação de abandono e desamparo que ronda quem sofre com dor persistente, sem cura à vista e ainda por cima não percebe receber atenção dos que cuidam da sua saúde – valorização de queixas de dor, comunicação do que causa a dor – à altura das suas expectativas afetivas. Para essas mulheres, à essa altura, a solução dos seus problemas de saúde depende mais da sorte, do que de médicos (“Outros Poderosos”) ou da vontade própria (ex.: adesão ao tratamento).

O principal problema causado por uma orientação de controle pautada preferentemente pelo Acaso numa paciente com dor crônica, todavia, é a de induzi-la a adotar estratégias de enfrentamento (coping) passivas, sabidamente ineficazes.

Conclusões

O atendimento que as mulheres com dor crônica recebem dos médicos e das equipes de saúde, quanto a suas queixas de dor serem valorizadas conforme expectativas, não satisfaz a maioria delas. Essa constatação já é ventilada abertamente pela mídia, e até pela produção científica, em países mais desenvolvidos no Ocidente. Uma vez aceita como legítima no Brasil, ela deveria inspirar novas pesquisas agora sobre causas (ex.: inabilidade e/ou preconceito de gênero) e consequências (diagnósticos demorados e/ou distúrbios mentais nas pacientes), temas por sinal já pesquisados noutras latitudes.

A equipe de saúde, além de muito criticada quanto a prestar atenção às queixas de dor, parece não ser importante para o tratamento, e sequer é percebida como tal – como uma equipe – pela maioria das pacientes. O achado deveria orientar a atenção para, ao se constituir uma equipe multidisciplinar para tratar de pacientes com dor crônica, cuidar não apenas dos aspectos técnicos, mas também de comunicar oportunamente a estes o que essa equipe tem de peculiar, por que é útil para o tratamento, quem a integra, qual o papel do paciente na equipe, e que resultados são esperados.1

A preocupação do médico e da equipe de saúde com a doença e com queixas em geral, parecem pertencer a um capítulo distinto e não sujeito a tanta crítica, por parte da maioria das mulheres, quanto a valorização dada às queixas de dor propriamente ditas. As entidades “doença” e “queixas”, são distintas de “queixas de dor”. As primeiras são genéricas e têm mais a ver com a parte instrumental do serviço médico, e as segundas, mais específicas, com sua dimensão afetiva. Pesquisas futuras deveriam averiguar se os profissionais da saúde compreendem que a sua relação com um paciente é contratual, ao menos do ponto de vista deste último. E se entendem que esse contrato os obriga a apresentar competência não apenas técnica, mas também afetiva.

Como era previsível, a dor intensa é prevalente entre as mulheres com dor crônica vigente há mais de 6 meses. Para um terço do grupo, todavia, a situação é ainda pior: à dor intensa soma-se a percepção de queixas de dor não valorizadas. Esses achados sugerem que a valorização não tão somente das queixas de dor, mas também de suas opiniões e palpites dessas mulheres pode ser um mediador da intensidade da dor que elas sentem. Talvez simplesmente ouvi-las mais atentamente tenha valor terapêutico. Eis um tema interessante para pesquisas futuras.

A informação sobre a dor, e a sua comunicação por parte de um profissional da saúde, quando presentes, amenizam a percepção nas mulheres de que suas queixas de dor não estão sendo valorizadas pelo médico e a equipe de saúde. Mas apenas a metade das amostradas se encontra nessa situação, um dado por demais insatisfatório para os profissionais da saúde. O achado vem reforçar a noção, suportada pela literatura, de que os médicos tendem a se comunicar tecnicamente com seus pacientes, negligenciando os cuidados de forma e conteúdo que fortalecem as relações interpessoais. Cabe a futuras pesquisas revelar se o fazem por incompetência, desinteresse ou falta de tempo.

A prevalência da orientação pelo Acaso na amostra, denunciada pela investigação do Lócus de Controle, sugere que uma proporção importante das mulheres com dor crônica acima de 6 meses desacredita da biomedicina, e dos seus agentes, enquanto solução para obter alívio ou cura. Isso pode explicar a queda progressiva do prestígio do médico perante a opinião pública23 e a aceitação cada vez maior da medicina alternativa por parte da população em geral.4

Em suma, o presente estudo aponta que os médicos e suas equipes, e os profissionais de saúde em geral, deveriam prestar muito mais atenção às queixas de dor da mulher com dor crônica. Dados obtidos via internet não são evidências científicas, mas são claros o suficiente para alertar o profissional de saúde e talvez motivá-lo a repensar o conceito de “excelência profissional” – um tanto estreito – que trouxe da faculdade. Do ponto de vista da pesquisa, o campo é vasto. O estudo mostra que a relação médico-paciente, fundamental para o sucesso de um tratamento de saúde, apresenta no Brasil fraquezas semelhantes às apontadas em outras latitudes. E prova, também, que as pacientes observam, avaliam e mostram um grau considerável de insatisfação em relação a isso quando convidadas a opinar. O pano de fundo são diferenças de gênero ora relativamente ignoradas no campo da saúde, que há tempo já deveriam integrar o elenco dos temas de maior interesse da medicina no Brasil.