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Você que não é idoso, já pensou o que é ser velho nessa pandemia?

Você que não é idoso, já pensou o que é ser velho nessa pandemia?

Um quarto das pessoas com 65 anos ou mais são considerados socialmente isolados, e uma proporção provavelmente maior se sente solitária. Muitos chegam nessa idade portando comorbidades. Acrescente a isso o isolamento sentido com a pandemia, e essas pessoas enfrentam um risco maior de ataque cardíaco, derrame ou mesmo proteção antiviral reduzida, que são tão importantes no momento. Este post expressa o ponto de vista de uma delas com relação a maneira em que o idoso é tratado no Brasil, em época de pandemia.

“Há poucos meses, éramos tão velhos quanto nos sentíamos; agora estamos apenas… velhos.”

– Anônimo

Na virada do ano eu me sentia muito feliz. Acabava de ler um artigo finlandês provando que as pessoas mais velhas de hoje são realmente “mais jovens” do que nas gerações anteriores.

Poxa, pelo menos isso! eu pensei. Eu já suspeitava daquilo, mas não tinha “a evidência”…e sem evidência, mesmo que você seja idoso (acima de 60 anos, segundo a classificação oficial) mas se sinta jovem, não há o que fazer, a medicina moderna diz que você é rematadamente velho – aliás, tem que ser – e ponto final.

Enfim, como é que os finlandeses chegaram à mesma conclusão que eu cheguei olhando para mim mesmo?

Centenas de cobaias com idades entre 75 e 80 anos fizeram uma bateria de testes físicos e cognitivos há 30 anos. Os mesmos testes foram repetidos recentemente, com finlandeses com idades entre 75-80.

Este último grupo ganhou de braçada:

  • velocidades de caminhada 0,2 a 0,4 metros por segundo mais rápidas
  • força de pressão 5% -25% mais forte
  • força de extensão de joelho 20% -47% maior
  • melhor fluência verbal, raciocínio e memória de trabalho

Em síntese, os idosos de hoje se movem e pensam de maneira “mais jovem” do que há 30 anos. Maravilha.

O que me ocorreu de imediato foi mostrar esses dados (e as conclusões) às atendentes de supermercado que olham para mim como se eu não existisse quando peço para revisar o preço de um produto. Ou para o médico que, no seu consultório, explicou a minha sobrinha tudo o que acontecia (comigo) em vista de um dedo infectado (que era muito meu, esse dedo), como se eu fosse um idiota transparente. Ou para o juiz a quem eu reclamo bimestralmente de um processo em que eu sou parte, e que ele há 12 anos – sim, 12 anos! – não julga de jeito nenhum, apesar da Lei 8.842/94, sobre a Política Nacional do Idoso, no seu artigo 71 “… assegurar prioridade na tramitação dos processos e procedimentos e na execução dos atos e diligências judiciais em que figure como parte pessoa com idade igual ou superior a 60 anos, em qualquer instância.” Eu já percebera que Sua Eminência procrastina legal na esperança de que eu, idoso, morra logo e assim ele possa ir desfrutar dos seus dois meses de férias sem remorsos – ou quase.

Enfim, devaneios à parte, há 8 meses os finlandeses me fizeram sentir que nem touro de exposição goiana, forte, animado, disposto, essas coisas…

E aí a pandemia mudou tudo. E para pior, muito pior.1

No começo, mesmo quando o surto viral já mostrava uma desagradável preferência pelo extermínio dos idosos, o espírito finlandês morando em mim me protegia. Sim, o vírus parecia representar um risco extra, mas não para mim. Talvez para quem não fosse tão saudável quanto eu, tão ativo e enérgico, nem tão confiante etcétera, etcétera…

Ora, “velhos” eram pessoas que não podiam caminhar direito, muito menos andar de bicicleta (eu me exercitava 90 minutos todo santo dia); que não podiam viajar (no ano anterior eu tinha estado em 4 países); que precisavam de auxiliares de saúde em casa (eu tinha nenhum); que sentiam absolutamente nada olhando para a Rainha do Bumbum (definetely not my case)…

Ledo engano. Eu não fazia ideia o quanto a sociedade me considerava dispensável. Aliás, eu sequer sabia que a sociedade não era formada por gente como eu, mas apenas por jovens. Jovens assassinos, com mais poder letal que o do próprio James Bond com a sua Beretta 9 mm – eles conseguem dar conta do recado – de mim, eventualmente – com um suspiro, um espirro, ou até um abraço fraternal.

“Não estamos mais nos vendo no espelho, mas uma versão de nós que o vírus revelou – uma versão que pensávamos ter rejeitado, mas secretamente tememos ser quem realmente somos.”

– Peshe Kuriloff, professora aposentada, Temple University

“Eu não fazia ideia o quanto a sociedade me considerava dispensável. Aliás, eu sequer sabia que a sociedade não era formada por gente como eu, mas apenas por jovens.”

E de repente descobri a diferença entre Solitário 1 e Solitário 2. O Solitário 1 se afasta dos outros por vontade própria; o Solitário 2 é afastado pelos outros, independentemente da sua vontade. Até essa data eu achava ter conquistado um lugar entre os primeiros. Mesmo numa sociedade sabidamente voltada para a juventude, eu evitara cair na cilada que ameaça todo idoso: a de se sentir “menos” alguma coisa. Menos ativo, menos capaz, menos experimentado no uso da tecnologia a informação, menos atraente, menos rápido em driblar o trânsito na hora do rush, e menos tolerante com todo mundo, exceto o cachorro.

Enganei-me, porém. Foi aos poucos. Através de um processo de conscientização progressiva de que você é insignificante, desnecessário, um zero à esquerda…

Vejamos:

  • Toda a atenção, seja da mídia, das autoridades, concentrada na proteção das crianças voltando às aulas. Crianças definidas como gente entre os 2 e os 19 anos, sendo que, haja visto o poder infeccioso desse pessoal, eu é que teria que me proteger delas! As crianças estudando em escolas paulistas têm assistência de 1 mil psicólogos para cuidar de eventuais traumas causados pela quarentena. E eu, que ainda estou na quarentena, e vou ficar nela mais uns quantos meses, não recebo uma palavra de conforto sequer do carteiro. Não é isso injusto?
  • Estatísticas mostrando que, se bem os mortos pela Covid-19 têm diminuído, os acima de 60 anos continuam liderando o ranking. Ou seja, você hoje corre o mesmo risco de morrer que há 8 meses – ou algo parecido, uma vez que ainda não há cura para a Covid-19, só paliativo para quem passa mal ou acaba entubado. E tudo bem.
  • Inúmeras falas e recomendações de epidemiologistas, infectologistas, etc. que não me dizem respeito. Eles não têm outra coisa a recomendar que não seja usar máscaras, lavar as mãos, manter distância social e evitar aglomerações. E que utilidade isso tem para mim, que não saio de casa, nem deixo entrar ninguém nela, há 7 meses? Há recomendações específicas para idosos? Ou elas não se justificam?
  • Inexistência de um sistema de atendimento psicológico, de alcance e abrangência significativa, destinado a atender especialmente os que – junto com as mães com filhos pequenos – mais sofreram as agruras da quarentena, ou seja, os idosos. Eu sinceramente acho que ainda regulo bem, mas nunca se sabe. E nesse caso, sobrou psicólogo para mim?
  • Atitude flagrantemente impiedosa e indolente da “sociedade” – aquela dos com menos de 60 anos – e de seus governantes, que permitiram desde sempre – sim senhor, desde sempre – uma flexibilização meia-boca altamente infecciosa… e ainda por cima alegando ter feito isso em nome da ciência, lorota esta que agride o meu encéfalo.
  • Vacinas que os cientistas admitem há muito tempo que funcionam bem menos para idosos do que para os não-idosos, mas do que eu fiquei sabendo por ser xereta, ninguém me alertou, muito menos ofereceu qualquer explicação ou medida compensatória.

“No Brasil, parece que ser velho é deselegante. As pessoas vivem em estado de negação, como se não fossem morrer.”2

– Dra. Junia de Vilhena, coordenadora do LIPIS, o Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social, PUC-Rio.

Enfim, eu não sei como outros idosos pensam – eu não saio de casa, já disse – mas eu me sinto como penetra num baile que, depois de tantos anos, deveria ser em minha homenagem, e não é. A mensagem que a experiência da Covid-19 me trouxe foi a de que a chance de ser respeitado pelo mundo em que vivi já era – se é que algum dia foi – e que agora devo me submeter bovinamente às prioridades de todos os imbecis que fazem de conta que o novo coronavírus foi extinto, e a Covid-19 a priori 100% liquidada por uma vacina – os jovens, os políticos, os donos de bares… Todos eles dão pouca importância ao meu destino ou aos meus sentimentos enquanto festejam em bares, na praia ou em outros lugares públicos. Seu descuido é como um tapa na cara. Eles não querem manter os mais velhos vivos e felizes. Em geral parecem satisfeitos em nos deixar ao léu, confinados e acima de tudo, esquecidos.

“Com um risco aumentado de doenças graves devido à Covid-19, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) recomendam que adultos com 60 anos ou mais “fiquem em casa o máximo possível”. Porém, estudos mostram que o isolamento e a solidão podem causar danos físicos e mentais aos idosos. Na verdade, podem prejudicar mais do que a obesidade ou fumar 15 cigarros por dia.”

Voltando aos pesquisadores finlandeses. Seus achados sugerem que os melhores desempenhos são alimentados pelo envelhecimento retardado, o que leva a um melhor funcionamento nos últimos anos. Outro estudo publicado recentemente, descobriu que mais educação na terceira idade leva a habilidades cognitivas mais altas, o que torna o declínio menos óbvio.

Ou seja, estou tinindo, mas… e daí?

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