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Sofrimento mental e dor nas costas: o que diz a ciência?

Sofrimento mental e dor nas costas

De acordo com descobertas recentes, a dor nas costas e a saúde mental estão profundamente ligadas. A lombalgia é a queixa específica mais comum que leva à consulta com médicos da atenção primária. Dessa forma, o número de causas é enorme e aparentemente são todas relacionadas ao corpo, variando de hérnia de disco e fratura vertebral a condições musculoesqueléticas e síndromes psicogênicas. No entanto, o resultado de qualquer tratamento da dor lombar depende fortemente de cofatores psiquiátricos. Além disso, fatores de risco psicossociais – os chamados fatores propensos à dor – são parcialmente responsáveis ​​pelo prolongamento da duração das síndromes dolorosas, e também podem ser encontradas associações com eventos da vida e falta de estratégias de enfrentamento.

Autor: Julio Troncoso, Ph.D.

Eu vivi com uma dor crônica cervical durante três décadas. Como sobrevivi a ela até conseguir recuperar plenamente a minha qualidade de vida já foi resumido noutra postagem. O tema aqui é outro, um que sempre me intrigou no período em que eu consultava médicos, fisioterapeutas e curandeiros comanches a torto e direito. Por que eles sempre se concentram somente no corpo, enquanto este é apenas uma parte do meu drama? Apenas uma parte, sim, porque depois de anos patinando no mesmo lugar, a dor permanece no corpo, mas no embalo ela se apossa da mente. Você vive aos trancos sentindo que dói, mas morre um pouco a cada dia ruminando sobre um presente angustiante e um futuro deprimente – ou melhor dizendo, depressivo.

A questão ficou mais intrigante ainda na última década, quando decidi estudar a dor humana pela minha conta. Descobri coisas inusitadas, como a de que a dor – um campo de conhecimento de altíssima prevalência clínica e sobre o qual são publicados milhares de artigos científicos ao ano – não é ensinada nas faculdades de medicina, seja no Brasil ou em muitos outros países supostamente civilizados. Nem precisa dizer que, em parte por conta do anterior, a conexão mente-corpo e o quanto ela influencia uma doença ou dor crônica, bem como o seu enfrentamento pelo paciente, também passam batidos.

Esse fenômeno – ora, eu sou um paciente; essas descobertas me parecem fenomenológicas, como cruzar com um venusiano na Avenida Paulista, por exemplo – tem consequências tão práticas quanto deletérias para nós, pacientes. Como as de que em geral o profissional da saúde que você ou eu consultamos devido a um desconforto no corpo, raramente provoca um diálogo franco sobre como, por exemplo, uma dor lombar crônica poderia estar afetando o equilíbrio mental no momento. Isso é considerado fora da jurisdição da medicina clínica (na sua acepção mais mesquinha) e pertinente ao território da psicologia ou da psiquiatria e, portanto, “tratável” num outro endereço do planeta. Melhor hipótese: você sai da consulta calculando quanto mais tempo e dinheiro vai gastar nessa nova dimensão de você mesmo, a psicológica. Pior hipótese: a dúvida tem a ver com a sua própria sanidade.

Será que a relação entre a mente e o corpo no campo do sofrimento humano é um elo perdido na ciência médica? Ou trata-se de uma omissão presente apenas na relação entre dor nas costas e a saúde mental? Outra possibilidade, claro, é a de que eu esteja delirando. Mas não, essas hipóteses são nulas. Prova disso é a quantidade de estudos realizados sobre o tema nos últimos 30 anos, e a consistência das provas levantadas. Vejamos…

Sofrimento mental e dor nas costas: o que vem primeiro?

A relação entre lombalgia e saúde mental, todavia, não é novidade. Há quase três décadas, Polatin et al. avaliaram 200 pacientes dinamarqueses com dor lombar crônica, dos quais 77% preenchiam os critérios diagnósticos para doença psiquiátrica ao longo da vida e 59% apresentavam sintomas atuais.

O sofrimento mental foi comparado em um grupo de pacientes com dor lombar (n=770) e um grupo de referência de base populacional (n=909).

Ver Informações sobre os aspectos metodológicos →
Os valores de corte dinamarqueses estabelecidos para sofrimento mental foram usados ​​para avaliar o estado de sofrimento mental no grupo de controle e dor lombar e a regressão logística foi usada para calcular as razões de chance para o Índice de Gravidade Global e as escalas de sintomas da Lista de Verificação de Sintomas-90 enquanto controlava as diferenças demográficas da linha de base entre os grupos.

Resultados:

  • Os escores médios em todas as escalas de sintomas e no Índice de Gravidade Global para ambos os sexos foram estatisticamente elevados no grupo com dor lombar, exceto para sensibilidade interpessoal em mulheres.
  • Quando os escores foram dicotomizados para casos e não casos de sofrimento mental, uma prevalência significativamente maior de casos foi observada no grupo de lombalgia em comparação ao grupo de referência.
  • A maior diferença entre os grupos foi observada para a escala de sintomas de somatização.
  • Os sintomas mais comuns foram depressão grave, abuso de substâncias psicotrópicas e transtornos de ansiedade.
  • Além disso, 51% preencheram os critérios para pelo menos um transtorno de personalidade. Todas as taxas de prevalência foram significativamente maiores do que a taxa básica para a população em geral.
  • Finalmente, e o mais importante, desses pacientes com uma história positiva ao longo da vida para síndromes psiquiátricas, 54% daqueles com depressão, 94% daqueles com abuso de substâncias e 95% daqueles com transtornos de ansiedade haviam experimentado essas síndromes antes do início de sua dor nas costas.

O estado mental prediz a dor crônica nas costas

Na mesma época, Gatchel et.al demonstraram ser viável prever a cronificação da dor aguda usando preditores clínicos de psicopatologia.

Uma coorte de 324 pacientes foi avaliada, e as análises diferenciando os pacientes que voltaram ao trabalho em 6 meses daqueles que não voltaram por causa da lesão nas costas original, revelaram a importância de 3 medidas:

  • Dor e incapacidade autorrelatadas.
  • Presença de um transtorno de personalidade.
  • Pontuações na Escala 3 do Inventário Multifásico de Personalidade de Minnesota.

Esses resultados demonstraram a associação entre incapacidade psicossocial e a probabilidade de trabalhadores acidentados desenvolverem problemas crônicos de incapacidade.

Em 2004, Carragee e sua equipe no Orthopaedic Spine Center da Stanford University apresentaram os resultados de um estudo comparando 46 indivíduos com anomalias na coluna versus 49 indivíduos sem problemas durante quatro anos. Os pacientes com poucas habilidades de enfrentamento da dor ou com síndrome de dor crônica eram quase três vezes mais propensos a desenvolver dor nas costas do que aqueles sem essas duas condições. Enquanto isso, problemas na coluna evidenciados via ressonância magnética não estavam associados estatisticamente a dor nas costas. Ou seja: “Os problemas estruturais foram realmente superados pelos fatores psicossociais”, disse Carragee.

A presença de transtornos psiquiátricos em pacientes com hérnia de disco

Por último, Maiar et al analisaram os prontuários de 245 pacientes consecutivos com dor lombar internados no departamento de neurologia de um hospital austríaco entre janeiro de 2001 e novembro de 2002. Dois terços dos pacientes (161) apresentaram dano estrutural com hérnia de disco, 106 desses pacientes apresentavam déficits neurológicos radiculares, incluindo paresia, hipoestesia e perda de reflexos.

A incidência de transtornos psiquiátricos foi de 38% (93 de 245). Uma análise mais aprofundada mostrou que pacientes sem hérnia de disco nem evidência clínica de déficits radiculares tiveram uma incidência maior de transtornos psiquiátricos (47 de 76 pacientes, 62%) do que pacientes com esses problemas (17 de 106 pacientes, 16%). Análises adicionais para transtornos psiquiátricos específicos não foram feitas, mas os transtornos de depressão e ansiedade foram vistos com mais frequência.

“Descobrimos até agora que quanto menos déficits estruturais e neurológicos encontramos, mais sintomas psiquiátricos estão presentes e vice-versa. Clínicos, médicos de cuidados primários e especialistas devem prestar mais atenção ao estado psiquiátrico de seus pacientes com dor lombar, especialmente se eles não tiverem danos estruturais claros ou déficit clínico.”1

Conclusões

Pacientes com lombalgia são mais perturbados mentalmente em comparação com uma amostra selecionada aleatoriamente da população geral.

Sintomas autorrelatados de somatização, ansiedade, ansiedade fóbica, transtorno obsessivo-compulsivo, depressão e hostilidade são mais comuns entre os pacientes com lombalgia em comparação com a população geral.

Na minha opinião, lembremos que eu não sou médico, e sim, paciente, essas evidências deveriam motivar o redesenho do papel do médico ao atender pacientes com doenças e/ou dores crônicas, especialmente na primeira consulta. Uma mudança no sentido de incluir a investigação de transtornos psicológicos relacionados a essas condições de saúde, bem como uma orientação completa em casos que, em princípio, não justifiquem o encaminhamento a um especialista em saúde mental.

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2 respostas

  1. Bom dia.
    Sou o Dr Henrique Fernandes, fisioterapeuta especialista em reabilitação da coluna vertebral.
    Esse é um ponto crucial no tratamento de pacientes com dores na coluna. Identificar bandeiras amarelas (fatores psicoemocionais).
    Por isso é importante uma avaliação de excelência, entender qual é o comportamento da dor, quais influências elas tem na qualidade de vida do paciente.
    Identificando fatores que comprometem o tratamento, indicar o acompanhamento de profissionais capacitados para ajudar no tratamento. Exemplo, psicólogos, psiquiatras, educadores físicos, nutricionistas….

    O seu humano é complexo e precisamos olhar para a causa do problema para resolver de forma rápida e duradoura, entregando o resultado que tanto o paciente necessita.

    Excelente artigo.

    Abraço

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