Terapias Alívio da Dor & Outros - by dorcronica.blog.br

Sem pressa para cuidar bem

Sem pressa para cuidar bem

Ano passado eu entrevistei o Dr. André Islabão e postei algumas das matérias publicadas no seu site. Na época, expressei a minha admiração pela sua postura crítica diante das mazelas de um sistema médico do qual, aliás, ele forma parte. Não é qualquer um que se atreve a fazer isso, com tanta propriedade, cara lavada e domínio da gramática. Na próxima semana, o André lançará um novo livro sobre um tema do qual falou com entusiasmo no nosso primeiro contato: Slow Medicine, um movimento que pede mudanças na prática médica de maneira a dedicar mais tempo ao paciente. Simples demais, certo? Porém, dramaticamente em falta. Esses 10 ou 15 minutos que caracterizam a consulta médica típica na atenção básica destroem no nascedouro qualquer ensaio de aliviar uma dor crônica, que é complexa, recorrente e cujo tratamento pode demorar anos ou a vida toda.

Sinceramente, todavia, eu nem imagino como o amigo Islabão vai destravar esses micro-protocolos de atendimento absurdos que hoje médicos e pacientes consideram ser ponto pacífico. No entanto, se por aqui eu puder ajudar no mais mínimo a promover esse seu livro, o farei com imenso prazer.

“Sem pressa para cuidar bem”.

– Slogan da Slow Medicine

Voltemos, no entanto, aos apelos do Dr. Islabão, médico internista. Na sua postagem “O óbvio, o ululante e o trágico”, como noutras várias, ele culpa diretamente a indústria de alimentos ultraprocessados por enriquecer jogando porcaria para cima da população. Em seguida, conclama a comunidade-médico-científica a parar a música, orientando os pacientes a mudar seus hábitos alimentares.

O apelo, ou denúncia, é perfeita. Mas no meu mundo ela ressoa com um som mais melancólico do que estridente. Estridente era há mais de 5 anos quando comecei com o blog e eu ainda pensava que as pessoas com dor se disporiam a mudar muita coisa, crenças, hábitos, objetivos de vida, para obter alívio. Na época, por experiencia própria, eu já percebera que a rotina médico/farmácia/repouso, em se tratando de um quadro clínico de dor crônica, nada resolvia. Que sem a minha participação ativa no meu tratamento, mudando tudo o que pudesse estar ativando a dor e piorando os sintomas associados (ex.: cansaço, sono ruim), eu estava condenado a viver encurralado, sem conseguir me movimentar livremente ou pensar noutra coisa que não fosse a minha desgraça.

Hoje isso é mil vezes mais nítido para mim, até porque na época eu ignorava que tivesse tanto cientista, evidência científica e testemunhos empíricos, por trás do que me parecia ser apenas uma ideia amadorística.

Contudo, eu disse antes que o chamado do André me trazia melancolia, porque hoje eu careço da sua energia para denunciar isso ou aquilo. Não é apenas a indústria, ou a classe médica, a principal culpada pelo fato do fast food crescer a taxas anuais altíssimas entre 2022 e 2023, na América Latina (25%) e no Brasil (38%). 

Brasil
Brasil 38%
América Latina
América Latina 25%

Não, o diabo é que a responsabilidade é mormente do consumidor. As papilas gustativas, o dinheiro para pagar o lanche, a indiferença diante do que todo mundo sabe, que o fast food faz mal a saúde, tudo isso é coisa dele e mais ninguém. Por que ele faz o que faz?

Por prazer. Por conforto. Por comodidade. Por avaliar conscientemente, que nenhuma outra opção (ex.: fazer uma refeição leve num restaurante por quilo; carregar um lanche nutritivo feito em casa; passar fome) supera o valor de um Mac-qualquer-coisa regado a Coca-Cola.

A história se repete no autocuidado da dor crônica. Igual que o consumo de porcaria, a dor crônica cresce também todo ano. Uns culpam a indústria farmacêutica por empurrar para a linha de frente drogas que, no médio e longo prazo, pouco resolvem e muito prejudicam; outros apontam para os profissionais da saúde que relutam em tratar pacientes com dor crônica e que, quando o fazem, raramente os ajudam a adotar o auto-manejo de sua condição de saúde – a única saída que resta, após a ingestão de fármacos esgotar suas possibilidades de alívio.

Mais ou menos, pode ser. Mas eu penso que o paciente com dor crônica não maligna típico, poderia fazer muito por si mesmo, por seu bem-estar e o da sua família, mesmo convivendo com os altos e baixos que caracterizam a dor crônica. Se ele se informasse sobre a sua condição de saúde, se teimasse em fazer isso – o Google, convenhamos, está ao alcance de muitos – talvez entenderia que quase tudo o que antes pensava saber sobre o que a dor é, no caso da dor crônica já não é mais. Que o tratamento médico a que estava acostumado quando machucava um joelho ou sofria uma luxação no ombro, ou ficava com dor de barriga após o Carnaval, agora é outro, bem diferente. Que a espera pela dor, mais dia, menos dia, sumir de vez… é ilusória; melhor pensar em recuperar funcionalidade e qualidade de vida. E por fim, que isto depende quase integralmente de mudar hábitos de vida insalubres que servem de combustível para os sintomas da dor crônica, e a própria dor, permanecerem ou piorarem.

E quem é que muda o que precisa ser mudado? Quase ninguém, na verdade. Por que razão? Por prazer. Por conforto. Por comodidade. Por avaliar conscientemente, poucas semanas após sair da consulta médica com várias recomendações saudáveis no bolso, que é mais prazeroso fazer como Tancredi Falconeri em Il Gattopardo, romance de Lampedusa sobre a decadência da aristocracia italiana no século XIX: “Tudo deve mudar para que tudo continue igual”.

Ora, culpar o usuário do SUS típico por não estudar sobre a sua doença é obsceno. Assim como, jogar a responsabilidade de controlar a dor crônica para cima do paciente soa quase desumano, eu sei. Porém, pode soar tudo o que for, que para ele (ou ela) não há outra escolha. Nem a medicina clínica privada, nem o SUS, hoje têm preparo para acolher devidamente pacientes com dor crônica.  Longe disso. Viva-se com isso. E por isso, o único que a maioria dessas pessoas resta é se defender quase sozinhas do avanço da cronificação.

Jeremy Bentham, filósofo inglês (1748-1832) criou a teoria utilitária, em que sustentava que os indivíduos buscam mais prazer e menos dor. A maioria dos consumidores de trash-food e dos pacientes com dor crônica, parecem ter criado uma outra, parecida: mais prazer, mesmo com dor.

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