Artigos - by dorcronica.blog.br

Raiva e dor crônica – Parte 1

Raiva

Eu prestei atenção a ligação entre a raiva e a dor crônica através dos livros do Dr. John Sarno. Há meio século, ele foi o pioneiro em uma abordagem radical para o tratamento da dor nas costas, instruindo os pacientes a se concentrarem nas emoções reprimidas como a fonte. Apenas estes acreditaram, e por conta disso, muitos obtiveram alívio.

Nos anos seguintes, a neurociência da dor foi confirmando as teses do Dr. Sarno: em suma, a raiz da fisiopatologia de muitas dores crônicas está no cérebro e qualquer tratamento de recuperação desse tipo de dor deve ter na saúde mental o seu foco principal. O que requer identificar distúrbios mentais subjacentes tais como a ansiedade, a depressão e a raiva.

Esse artigo, o primeiro de uma série de três sobre a relação Raiva-Dor Crônica, aponta o que é a raiva e como ela é considerada do ponto de vista psiquiátrico. Os outros dois, irão apresentar evidências científicas da presença da raiva na dor crônica (ex.: prevalência) e da sua influência disruptiva no ambulatório médico, respectivamente.

Autor: David Cossio

PARTE 1

A raiva é uma experiência emocional que pode ser um estado de humor atual ou uma predisposição geral para sentir raiva. Em relação a outras emoções negativas, como medo, tristeza, culpa e vergonha, a raiva é a emoção mais proeminente em pacientes com dor crônica.1 Este post traça uma panorâmica sobre esse distúrbio mental e suas expressões específicas.

Quando a raiva cobra seu preço

É importante lembrar que a raiva não ocorre no vácuo, mas tem efeitos de longo alcance nas funções ocupacionais, recreativas, sociais, interpessoais e de autocuidado.2 Existem vários sinais de raiva descontrolada, incluindo: ter um temperamento explosivo / estar internado; problemas de sono; problemas alimentares; inquietação/agitação; bater; ter o desejo de prejudicar alguém; explosões verbais; sensação de perder o controle; pouca concentração; estar obcecado por um evento, pessoa ou situação.

A raiva descontrolada pode afetar negativamente a saúde física, inclusive aumentando a dor. Por exemplo, a raiva tem sido associada à inflamação, particularmente com os níveis sanguíneos de proteína c-reativa e interleucina-6.3 A raiva pode funcionar como um fator predisponente, mas também pode ser um fator precipitante, exacerbante ou perpetuante da dor.4

Existem muitos desafios que os indivíduos que vivem com dor crônica enfrentam, incluindo ambiguidade diagnóstica, falha do tratamento e batalhas com seguradoras, empregadores e sistema legal. A dor e o sofrimento são diversos e podem assumir a forma de raiva, que, se não for tratada, pode levar a distúrbios perturbadores, de controle de impulsos e de conduta.5

Quando a raiva leva a transtornos disruptivos, de controle de impulso e de conduta

Os transtornos disruptivos, de controle de impulsos e de conduta incluem condições que envolvem problemas no autocontrole de emoções e comportamentos.6  Embora outros transtornos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) da American Psychiatric Association (APA) também possam envolver problemas de regulação emocional e/ou comportamental, as condições no capítulo de transtornos disruptivos, de controle de impulso e de conduta são únicos no sentido de que se manifestam em comportamentos que violam os direitos de outras pessoas.7 Esses comportamentos têm o potencial de colocar um indivíduo em conflito significativo com as normas sociais ou figuras de autoridade. As causas subjacentes das perdas no autocontrole das emoções (como raiva) e comportamentos (como agressão) podem variar muito entre os transtornos. 

A raiva descontrolada pode afetar negativamente a saúde física, inclusive aumentando a dor.

Os transtornos disruptivos, de controle de impulso e de conduta incluem diagnósticos, como transtorno desafiador de oposição, transtorno explosivo intermitente, transtorno de conduta, piromania (incêndio), cleptomania e transtorno de personalidade antissocial.8 Essas condições representam um grande problema de saúde pública porque aumentam muito o risco de encarceramento, lesões, depressão, abuso de substâncias e morte por homicídio ou suicídio.9

Esses distúrbios tendem a se manifestar pela primeira vez na infância ou adolescência. A prevalência de transtorno desafiador de oposição varia de 1% a 11%.10 Os dados de prevalência de um ano para transtorno explosivo intermitente nos Estados Unidos são cerca de 4% a 7%,11 enquanto a prevalência de transtorno de conduta varia de 2% a 10%.12 A prevalência de piromania ao longo da vida foi relatada como 1% em uma amostra populacional,13 enquanto a prevalência de cleptomania na população em geral varia de aproximadamente 0,3% a 0,6%.14 Aproximadamente 5% a 15% da população dos EUA é incapacitada por distúrbios de controle de impulso.15

Diagnósticos relacionados à raiva

O capítulo da APA sobre transtornos disruptivos, de controle de impulso e de conduta é novo no DSM-5.16 Ele reúne transtornos que foram incluídos anteriormente em outros capítulos com foco na adolescência e no controle dos impulsos no DSM-IV.17

Várias alterações foram feitas nos diagnósticos específicos. Os sintomas do transtorno desafiador de oposição agora são agrupados em três tipos: humor raivoso/irritável, comportamento argumentativo/desafiador e vingança.18 A mudança primária no transtorno explosivo intermitente é que os tipos de explosões agressivas agora incluem: agressão física, agressão verbal e agressão não destrutiva/não injuriosa.19 Os critérios para transtorno de conduta, piromania e cleptomania são praticamente os mesmos da edição anterior, DSM-IV. O transtorno de personalidade antissocial também está presente no novo capítulo, além do capítulo sobre transtornos de personalidade.


Baseado em “Anger expression and pain”, de David Cossio, Practical Pain Management.

Na próxima semana, veja o post “RAIVA NO AMBULATÓRIO E DOR CRÔNICA”, também baseado no artigo do Dr. Cossio.


Nota do blog:

Nesse blog o pensamento e método do Dr. John Sarno estão acessíveis em seus livros, artigos escritos por pacientes, e posts da minha autoria. O bom doutor merece. Ele percebeu que a mente inconsciente estava ativando o sistema nervoso autônomo e que a repressão da raiva inconsciente contribuía muito para a dor. Ao orientar seus pacientes a entender a dor como um estratagema do cérebro para protegê-los das emoções mantidas represadas no cérebro – incluindo a tendência de se colocarem sob extrema pressão e estresse, raiva em destaque – a maioria deles melhorou rapidamente.

Ao longo de seus mais de 50 anos de prática no Rusk Institute of Rehabilitation na New York University, por meio de seus atendimentos clínicos no instituto, Sarno identificou causas psicossomáticas – raiva reprimida, uma das mais influentes – em inúmeros casos de dores lombares na década de 1960. Baseado nisso, ele desenvolveu e adaptou seu programa de tratamento em quatro livros best-sellers.

Por ser considerado um iconoclasta, um profissional da saúde que se atrevia a pensar diferente e a praticar o que pensava com seus pacientes, obtendo resultados extraordinários, o Dr. Sarno foi ridicularizado pelos seus colegas médicos. Estes clinicavam, conforme o aprendido na faculdade e como muitos ainda hoje, de olho nas feridas das pessoas e não nas pessoas feridas. Ironicamente, 60 anos depois da publicação do primeiro livro – traduzido por mim e acessível nesse blog – a neurociência da dor prova todo dia que ele estava mais do que certo.

Em 22 de junho de 2017, o Dr. Sarno faleceu – um dia antes de seu 94º aniversário.
Um belo obituário no New York Times relatou sua vida lendária e profundas contribuições para a ciência.

Usando uma abordagem em primeira pessoa para explorar o trabalho do Dr. John Sarno e seus métodos radicais para tratar a dor nas costas, o filme ALL THE RAGE (“Toda a raiva”) examina a conexão entre emoções e saúde. Por meio de entrevistas com o Dr. Sarno, pacientes e especialistas, o filme convida os espectadores a repensar profundamente nossa atual abordagem à saúde.

Cadastre-se E receba nosso newsletter

Veja outros posts relacionados…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

SAIBA TUDO SOBRE VACINAS COVID-19
CLIQUE AQUI
Preencha e acesse!
Coloque seu nome e e-mail para acessar.
Preencha e acesse!
Você pode baixar as imagens no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
ATENÇÃO!
Toda semana este blog publica dois artigos de cientistas e dois posts inéditos da nossa autoria sobre a dor e seu gerenciamento.
Quer se manter atualizado nesse tema? Não duvide.

Deixe aqui seu e-mail:
Preencha e acesse!
Você pode ver os vídeos no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas