“Psicologia e dor”. Como é que isto não foi escrito antes?

“Psicologia e dor”. Como é que isto não foi escrito antes?

Ler e comentar um bom livro que trata de um bom tema é um prazer. “Psicologia e Dor – O que você deve saber”, faz jus a seu título: ele realmente cobre (quase) tudo o que um profissional da saúde deveria saber para prestar os primeiros auxílios psicológicos ao seu paciente com dor, no Século XXI. (Se ele(a) se dispõe a fazê-lo, bem, eis uma outra questão.) Atualizado, completo e muito claro, é um texto que complementa a educação em dor dos… educadores.

“Talvez a maior faculdade que nossas mentes possuam seja a capacidade de lidar com a dor.”

Patrick Rothfuss. The Name of the Wind

Esse texto estava fazendo falta. Eu vou comentá-lo amadoristicamente, não sou crítico literário, nem profissional da saúde. Apenas um reles pesquisador, ex-paciente de dor crônica e estudioso da dor humana e seu gerenciamento.

Trata-se de um trabalho em equipe, formada por vários psicólogos e uma fisioterapeuta. Quem escreve, porém, são dois psicólogos.

Uma boa decisão, parece-me, foi a de iniciar com a Neurofisiologia da Dor, o que logo sugere o texto estar atualizado. O conhecimento da dor, convenhamos, meio que virou de ponta cabeça há pouco tempo – 30 a 40 anos – e a maioria dos profissionais da saúde nem suspeita disso, nem das consequências para o seu trabalho cotidiano. Enfim, o leitor pode confirmar a minha avaliação – a do texto estar atualizado – ao constatar mais adiante menções ao modelo biopsicossocial da medicina, bem como a alguns de seus recursos clínicos (as bandeiras), a mecanismos de sensitização, a (imprescindível, porém ignorada) distinção entre dor aguda e dor crônica, e os processos mentais e sua relação com o comportamento em relação à dor, entre outras coisas. Todos estes, sinais de que houve preocupação em chegar até as fronteiras do conhecimento da dor no presente momento.

“Pense antes de falar. Leia antes de pensar.”

Fran Lebowitz

Um voo rasante pelas 186 páginas indica que é um texto “completo”, exaustivo, daqueles que você termina de ler com a sensação de que leituras parecidas adicionais são desnecessárias, por redundantes. Ele vai da relação Biologia/Mente/Dor a, por fim, uma Proposta de um Modelo Psicoterapêutico para o paciente com dor; passando, claro, por Avaliações, Tratamentos (Psicológicos, Não Farmacológicos…), e Intervenções Psicoeducativas… tudo isso, sem se perder nos meandros da psicologia clínica, nem perder o foco do livro, que é a dor e seu gerenciamento. A prevalência da dor crônica e os tipos de dor “convivem” harmoniosamente, no texto, com o estresse e a saúde mental, apenas para ilustrar o meu ponto.

Entre os vários subtemas, eu destacaria dois: “a diferença entre dor e sofrimento” e “como as emoções modulam a percepção da dor”. Isso, porque se apenas um em cada 10 profissionais da saúde no país parasse cinco, não, apenas três minutos para ler e refletir sobre cada um deles, comparando com o praticado diariamente nos seus consultórios, os resultados no alívio da dor crônica certamente seriam melhores que os atuais.

Para os amantes da prolixidade gráfica, a diagramação é excelente, sobram boas ilustrações, tabelas e demais, e principalmente não há informação inútil.

Quanto a subtemas que lamentavelmente ficaram de fora, atrevo-me a apontar os dois seguintes:

Primeiro, maior ênfase na questão de gênero. Homens e mulheres são diferentes em tudo, inclusive em termos de sentir e enfrentar a dor, biológica e psicologicamente. No entanto, os profissionais da saúde não parecem levar isso suficientemente em conta no diagnóstico e tratamento das dores femininas. Isso é irrelevante? A metade da humanidade tem útero e a prevalência feminina na dor crônica é maior que a masculina. Faça as contas.

Segundo, logo na primeira página, deixa-se claro que o destinatário do texto é o profissional da saúde, e de fato, deveria ser. O capítulo sobre Tratamentos Psicológicos e Dor, assim como a Proposta de Protocolo de Avaliação e Intervenção Psicológica da Dor, aparentemente inédita e reservada para o final da leitura, por exemplo, são ambos de extremo valor prático para esse profissional. Mas qual é aquele que mais deveria se interessar por ler sobre isso? Fisioterapeutas, fisiatras, psicólogos, anestesiologistas, enfermeiros… são todos importantes etc., mas qual é o mais importante de todos no que se refere a educar o paciente e convencê-lo a assumir um papel ativo no próprio tratamento? Afinal, qual é o educador-mor nessa história toda?

Ora, convenhamos, é o médico. E tenho para mim que o médico típico lê sobre psicologia, quando mais psicologia da dor, só se for por hobby. E um livro como o aqui comentado bem que poderia ter trazido isso à tona mesmo o tema sendo politicamente incorreto. Mas, claro, eu posso estar redondamente enganado. O que você acha?

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2 comentários
  1. Boa tarde. Sou educadora física e tenho buscado leituras a respeito da dor. Creio que o caminho seja este mesmo: pensar, olhar o ser humano por completo, principalmente as emoções.

  2. Li e gostei muito do livro. Com certeza preencheu uma lacuna importante em nossa literatura. Como médico, acredito que infelizmente temos uma formação insuficiente neste e que nossa educação se faz MUITO necessária…
    Gostaria de lembrar que os anestesiologistas são médicos também! 🙂
    Parabéns pelo blog, sou grande fã!

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