Artigos - by dorcronica.blog.br

Prudência e promessa na terapia assistida por psicodélicos

Prudência e promessa na terapia assistida por psicodélicos

As duas novidades mais recentes no arsenal de terapias para tratar de doenças e dores crônicas são a Cannabis (Medicinal) e a psicodélica. Matérias sobre ambas foram e estão sendo devidamente postadas nesse blog. Elas em muito se parecem, aliás, na maneira em que estão sendo apresentadas à sociedade. Com muita informação de validade duvidosa, mas referida a uma espécie de mega-solução, inegavelmente super-promissora, para um número considerável de todo-tipo-de-males-crônicos. Os autores do artigo a seguir são um psiquiatra e um acadêmico de medicina, que meteram a mão, digo a pena, num vespeiro que, por sinal, está recém se instalando em muitos países, o Brasil inclusive. Um vespeiro onde o espaço – terapêutico? comercial? mediático? – já começa a ser ferozmente disputado por gente do mundo da medicina que, ao menos por enquanto, parece estar com uma mão apoiada no “Juramento de Hipócrates” e a outra no “Espírito Animal”, de Robert Shiller, Prêmio Nobel 2013.

Autores: Charles Saylor e Jacob M. Appel, MD, JD, MPH1

“LSD é uma droga psicodélica que ocasionalmente causa comportamento psicótico em pessoas que NÃO a tomaram.”

– Timothy Leary

A terapia assistida por psicodélicos (PAT) representa um dos desenvolvimentos mais promissores na psiquiatria em décadas. O tratamento geralmente envolve a infusão de um composto como LSD, psilocibina ou MDMA (a droga do Ecstasy) durante uma sessão de terapia prolongada com profissionais licenciados.

Embora careça de ampla aprovação regulatória ou uso clínico, avanços significativos foram feitos no estudo da PAT na última década, com um aumento pronunciado nos últimos anos. Recentemente, um estudo publicado no New England Journal of Medicine (NEJM) demonstrou que uma dose única de 25 mg de psilocibina (o composto ativo dos cogumelos psicodélicos) acompanhada de psicoterapia foi eficaz na redução dos sintomas em pacientes com depressão resistente ao tratamento, uma condição notoriamente difícil tratar.

Este estudo é o exemplo mais recente em um padrão de ensaios que demonstram a eficácia da PAT para tudo, desde PTSD até transtorno por uso de álcool. No entanto, o campo data de meados do século 20, quando os médicos conduziram estudos que, apesar do seu desenho ser pobre, usaram exatamente os mesmos compostos (por exemplo, LSD) para condições psiquiátricas muito semelhantes (por exemplo, transtorno por uso de álcool). Essa onda inicial de pesquisa nas décadas de 50 e 60 foi condenada por forças políticas e sociais nos Estados Unidos que interromperam o financiamento e levaram a um hiato de décadas, do qual o campo emergiu apenas recentemente.

Nota do blog: “Drogas mais conhecidas por suas propriedades alucinógenas, como a psilocibina, podem ajudar as pessoas a vencer a agonia das enxaquecas e outras doenças dolorosas.” Eis a chamada do artigo “O remédio psicodélico para a dor crônica”, publicado recentemente na Nature, uma das três revistas científicas mais prestigiosas do mundo.

Seu ressurgimento também está repleto de controvérsias

Críticas válidas foram feitas contra ensaios clínicos que usam medicamentos que alteram a consciência e são difíceis (ou impossíveis) de controlar com placebo. Em contraste com a maioria dos grandes ensaios clínicos controlados por placebo, muitos ensaios de PAT têm resultados patéticos, com mais de 90% dos participantes adivinhando corretamente se receberam medicação ativa ou placebo. Isso turva as águas da análise e torna difícil atribuir resultados ao tratamento, ao placebo ou a ambos. O estudo do NEJM não se incomodou com o placebo e, em vez disso, usou doses mais baixas de psilocibina como comparadores – os  pacientes que receberam as doses mais baixas tiveram menos resposta.

Esses estudos também podem estar sujeitos a efeitos de expectativa. Assim como um júri pode ser inadvertidamente influenciado pela cobertura da imprensa ou da mídia social, os pacientes que estão familiarizados com a tremenda promessa ou “exagero” em torno da PAT podem ter maior probabilidade de acreditar que o tratamento funciona e, assim, responder positivamente à intervenção.

Há também uma discrepância entre a compreensão pública da PAT e o estado real do campo. A microdosagem, que alguns afirmam aumentar a criatividade e a produtividade ou tratar condições psiquiátricas, não está relacionada à PAT e carece de evidências de sua validade. A cetamina, que é amplamente utilizada para indicações psiquiátricas, é outra entidade não relacionada: não é estruturalmente relacionada aos psicodélicos clássicos, nem é tipicamente administrada durante as sessões de terapia.

Além disso, a PAT é uma síntese de terapia e medicação. A dosagem normalmente envolve uma infusão que é administrada durante uma sessão de terapia monitorada, não retirada de uma farmácia. Isso contrasta fortemente com a distribuição de outros medicamentos sensíveis, como opioides ou Adderall, mas muitos não conseguem reconhecer a diferença.

Nota do blog: O Adderall é o nome comercial de um estimulante do sistema nervoso central, indicado para o tratamento da narcolepsia e do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Ele é uma associação medicamentosa composta por quatro sais de anfetamina.

Além disso, houve muito poucos ensaios de PAT que refletem adequadamente a composição racial ou étnica da população. Muitos estudos inovadores recrutaram principalmente participantes brancos, limitando a generalização de quaisquer descobertas. O artigo do NEJM não foi diferente – mais de 90% dos participantes eram brancos.

A sessão de terapia/infusão também é um processo prolongado, que pode levar muitas horas, dificultando o acesso de muitas pessoas a esses tratamentos. Se você não pode tirar um dia de folga razoável do trabalho, como poderia esperar participar de várias sessões de tratamento de 8 horas?

Finalmente, a PAT começou a assumir a aparência de uma bala de prata, que pode tratar uma ampla gama de condições que podem não ter mecanismos patológicos semelhantes. Ora, novas terapias são muitas vezes apresentadas como sendo mais eficazes do que realmente são. Se as expectativas forem infladas além da realidade, isso colocará em risco o que pode ser uma ferramenta válida e eficaz no arsenal dos psiquiatras de nosso país.

Os Estados Unidos estão em uma crise de saúde mental. Como psiquiatras, estamos cientes da necessidade urgente de novas intervenções para condições que vão desde o Transtorno de Estresse Pós-Traumático até o vício em cigarro e a depressão. Muitos milhões de pessoas podem ser tratadas com segurança e eficácia pela PAT, e a aprovação ou rejeição regulatória da PAT pode ser iminente. No entanto, a empolgação crescente em torno da PAT ameaça colocar em risco a própria causa. Embora os resultados recentes tenham sido empolgantes e haja muito trabalho pela frente, o melhor caminho a seguir é uma abordagem comedida e cautelosa que também permita que as terapias mais seguras e baseadas em evidências alcancem o maior número de pessoas.

Tradução livre de “Prudence and promise in psychedelic-assisted therapy”, de Charles Saylor e Jacob M. Appel.

Cadastre-se E receba nosso newsletter

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

CONHEÇA FIBRODOR, UM SITE EXCLUSIVO SOBRE FIBROMIALGIA
CLIQUE AQUI