Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Precisamos parar de culpar os médicos

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

A relação médico-paciente é um dos temas de maior interesse desse blog. Eu penso que dela, da sua qualidade, em muito depende o alívio de qualquer dor. Ainda mais se ela for crônica. A postura adotada, reconheço, não tem sido das mais amenas. Afinal, é difícil esperar de uma pessoa com dor aturar qualquer atraso, ou uma consulta cada vez mais curta. Nem tanto pelo simples mal uso do tempo, mas pelo significado atribuído: frieza, descaso e até falta de respeito. (Ok, isso raramente é externado pelo paciente. Contudo, o seu silêncio atesta o caráter postiço, artificial, insincero, que – na minha opinião e a dos que tem pesquisado o tema – amiúde permeia o contrato psicológico entre as partes.) Mas, para toda pendência há duas versões, e nesse post eu apresento a do médico. Um relato duro, pungente, que mostra um “outro lado” quase tão sofrido quanto o do paciente. Para lembrar nisso da próxima vez que ficar numa sala de espera, com uma dor que não passa há meses, olhando para o relógio.


Nota do blog:

Uma amiga, que é médica, me deixou pensando. Ela foi ler um ebook da minha autoria e não quis terminar a leitura. Boa amiga e boa médica, eu prestei atenção. O que a fez desistir foi se deparar com um episódio ocorrido no Pronto Socorro de um hospital de NY, reproduzido na primeira parte do ebook. Em síntese, uma menina, diagnosticada equivocadamente, teria sido enviada pelo médico para casa três vezes, sem conseguir sobreviver após a terceira. Após processo, o médico foi declarado culpado pela Justiça. Fim. (Obviamente, há um contexto; mas não cabe se estender nisso aqui.)

Foi a essa altura que a minha amiga optou por repudiar o resto do ebook. “Eu sei de muitos médicos que nem dormem, por dar atenção aos seus pacientes. Outros estão esgotados por trabalhar 12, 15 horas diárias em dois ou três hospitais. E depois de anos estudando e como interno, a maioria é obrigada a se ligar a um plano de saúde e acaba ganhando quase nada.”

De cara, eu repudiei a atitude dela. “Típica miopia, ou cegueira, de quem não admite crítica – e de passagem nega a realidade”, eu pensei.

Aquele episódio não saiu da minha mente, todavia. Entendi melhor porque o blog, apesar de conter informação valiosa para médicos, é visitado mormente por pacientes. Afinal, eu tenho insistido nisso de que a relação médico-paciente poderia ser muito melhor, se o médico – a quem certamente cabe a iniciativa – entendesse o imenso valor terapêutico disso. E consequentemente, tivesse essa melhora em mente como um objetivo profissional. Um objetivo que, como qualquer outro na sua especialidade, exige estudo, treino e prática para ser atingido.

No entanto, se eu repudiasse a atitude crítica da minha amiga estaria incorrendo na mesma miopia ou cegueira que antes lhe imputara. E convenhamos, o que se consegue trocando repúdios é mais ou menos, nada.

Como sempre, toda história tem dois lados. O meu é baseado numa experiência de décadas como paciente e toneladas de artigos científicos focados na relação médico-paciente, a maioria críticos. Exemplo: dentre os sites científicos que eu assino, o denominado Academia ontem (13/08/21) contabilizava nada menos que 1.507 papers sobre “Doctor-patient communication” quase todos críticos”!

O lado da minha amiga médica é sustentado pela realidade percebida. Percebida por ela, uma pessoa lúcida que vive – ou atualmente, sobrevive – na linha de frente. Como negar a credibilidade desse seu ponto de vista?

A postagem da matéria a seguir é uma forma, a única que eu tenho, de mostrá-lo. A autoria é de uma médica pediatra americana, mas não se engane; guardando as devidas proporções, a sua saga poderia perfeitamente ser a mesma que de um(a) colega no Brasil.

“Tome cuidado ao receber uma informação pela metade. Pode ter sido a metade equivocada.”

Erin Langford

Precisamos parar de culpar os médicos

Por Cindy Rubin, MD, pediatra e especialista em medicamentos para amamentação.

“Por que a consulta deve demorar 15 minutos?”, meu estudante de medicina me perguntou ontem. Eu ri. Eu não pude evitar. Reação instintiva – como quando você ri em vez de chorar. Expliquei que todas as nossas consultas duram 15 minutos – exames de saúde (independentemente da idade), resfriados, suicídio ou dores no peito. Trabalho para um grande sistema hospitalar e é assim que as consultas dos pacientes são agendadas. Eu sou a única pediatra que dá aos meus pacientes 30 minutos (e eu sou descontada do meu salário por isso). O que parece mais importante do que cuidar bem de nossos pacientes e passar tempo com eles quando precisam de nós, são os nossos números. Claro e simples. Ponha-os para dentro, tire-os fora.

Desenvolvi uma reputação no hospital por estar sempre atrasada. Quando comecei a pediatria ambulatorial, há 12 anos, raramente me atrasava. Corri de paciente em paciente, orgulhosa de mim mesma por sempre chegar na hora. Ocasionalmente, um paciente mais complicado chegava e precisava de mais tempo, ou eu ficava atrasada por algum outro motivo, mas era raro. Nos últimos anos, algo mudou. Agora estou quase invariavelmente atrasada, até uma hora, todos os dias. Mesmo em dias “lentos”, muitas vezes ainda estou atrasada. Tenho me perguntado o que levou a essa mudança. Minhas horas semanais são as mesmas desde que comecei neste trabalho. Meu tempo por paciente é o mesmo.

Eu finalmente descobri. Essa mudança? Essa mudança foi por eu ficar conhecendo melhor meus pacientes e suas famílias. Essa mudança foi por conta de eu ter ido me transformando de uma médica novata em uma pediatra experiente que não larga os pacientes em seus momentos de necessidade, quando eles estão vulneráveis, precisam de perguntas respondidas, ou estão passando por uma crise. Meus pacientes querem conversar, me contar sobre suas vitórias e derrotas, exalar orgulho por seus filhos. E eu quero ouvir essas coisas. Quero prescrever um antidepressivo imediatamente, quando a criança estiver deprimida, ansiosa e não puder se consultar com um terapeuta por semanas, em vez de pedir que voltem para discutir seus problemas de saúde mental porque estou atrasada. É por isso que entrei em medicina. Quero construir relacionamentos, ver essas crianças e suas famílias crescerem, e para ajudar a mantê-los saudáveis ​​tanto física quanto emocionalmente. Aparentemente, devo ser capaz de fazer tudo isso em 15 minutos.

Nota do blog:
Pois é. A dor obriga você ou qualquer um a lembrar de repente que a saúde é o bem mais precioso que existe. E é difícil imaginar que esse tesouro venha a ser bem protegido por um estranho, em 15 minutos.

Embora eu já andasse atrasada antes mesmo de a Covid-19 atingir os Estados Unidos, a pandemia colocou uma pressão única em nossas visitas pediátricas. Muito mais crianças estão deprimidas, ansiosas, socialmente isoladas, ganhando peso com menos atividades, indo mal na escola. Muitos pais também ficam felizes por sair de casa e ter com quem conversar… sobre qualquer coisa! E depois há todas essas perguntas sobre Covid, e o tempo extra que leva para colocar e retirar o EPI, e a frequência de falta de pessoal devido a demissões ou faltas por doença – nada disso nos dá tempo extra em nossas agendas. Cada minuto extra gasto aumenta ao longo do dia, levando-nos a correr para trás, o que, por sua vez, deixa os pacientes infelizes e também nos sobrecarrega. Eu perco meu almoço porque estou trabalhando. Sinto falta do jantar e da hora de dormir com meus filhos porque acabo tarde com os pacientes e fico mais tempo para responder às mensagens e aos resultados do laboratório, esperando minha resposta. E então eu fico acordada depois da meia-noite terminando minhas leituras científicas porque eu não consigo durante meu dia de trabalho com medo de ficar ainda mais para trás.

Uma de minhas pacientes deve ter visto isso em meus olhos quando entrou recentemente na minha sala para tratar de sua ansiedade contínua. Enquanto ela se sentava ali batendo no joelho e explicando sua história para mim, ela disse: “Você precisa se cuidar. Vá buscar um copo d’água quando terminar comigo”.

Este não é um modelo sustentável. Espero ter alguns dias longos e estressantes porque isso vem com o trabalho. Mas nem todo dia de trabalho. Mas se eu prolongar meus compromissos, ou colocar alguns horários vazios ao longo do meu dia, meu empregador vai me denunciar por não cumprir minha meta de produtividade.

Tornei-me um “problema” na clínica. Como fazer a Dra. Rubin funcionar na hora certa? Vamos bater na porta para que ela pare de cuidar de um problema importante atendendo o paciente X para ela atender o próximo paciente Y? Mesmo que ela tenha que adicionar mais horas no final do dia para cumprir sua cota de horas na clínica?

Em vez disso, vamos corrigir o problema real. Por favor, vamos consertar o sistema.

Vamos alongar as visitas. Vamos criar um protocolo de agendamento robusto para que pacientes complicados tenham ainda mais tempo. Vamos garantir uma equipe suficiente para apoiar os médicos, para não ficar preenchendo a papelada por horas após os pacientes terem ido para casa. Vamos basear os salários dos médicos no valor dos serviços que eles prestam, e não no volume de pacientes, de modo que o incentivo seja prestar um bom atendimento e não ver mais pacientes para ver mais pacientes, e assim não precisamos decidir se vamos esquecer os nossos “dias de férias” e trabalhar esses dias para melhorar nossos “números”. (Você sabia que a maioria dos médicos de atenção primária está pagando centenas de milhares de dólares em empréstimos estudantis, mas estão sendo pagos menos de US$ 60 por hora trabalhada para o hospital ou clínica que o emprega? Compare isso com os US$ 300 a 600 por hora que muitos advogados, contabilistas e consultores financeiros ganham, mesmo que tenham os mesmos ou menos anos de educação e treinamento.)

Vamos cortar os administradores desnecessários que consomem receita. Vamos parar de pensar na medicina como um negócio de consumo, mas sim como um sistema de saúde projetado para fornecer o melhor atendimento possível aos nossos pacientes (não clientes!). Vamos ajudar os pacientes a perceber que somos médicos, não vendedores. Nem sempre podemos prever o que passará pela porta e, embora gostemos de estar na hora tanto quanto nossos pacientes, às vezes eles precisam de mais de 15 minutos. Devemos lembrar aos pacientes que eles terão aquele tempo extra quando precisarem.

Eu poderia continuar e continuar. Eu volto do trabalho exausta e enfurecida na maioria dos dias – com pouquíssima energia para me concentrar em meus filhos, meu marido, em mim mesma. E se eu me apressar no dia e deixar negócios inacabados para trás, sinto como se tivesse falhado com meus pacientes. Algo precisa mudar – seja para mim ou para o sistema como um todo, para poder continuar a fazer esse trabalho gratificante e necessário. Quero praticar a medicina da maneira que sempre pretendi: com consideração, de forma meticulosa, com sentimento, o tempo todo tentando modelar essas qualidades para a próxima geração de médicos. Não quero me sentir egoísta por esperar passar mais tempo com minha família, que precisa de mim, que precisa da minha energia, do meu tempo, o qual tem sido gasto no trabalho hoje em dia.

Precisamos parar de culpar os médicos. Precisamos ver isso pelo que é: um sistema quebrado. Um sistema em processo de quebra dos próprios médicos que compõem sua estrutura. Por favor, vamos chamá-lo assim, e deixar os médicos retomarem a medicina para o bem dos pacientes que precisam deles e para os médicos que cuidam deles.

Tradução livre de “We need to stop blaming the doctors”, publicado em 03/03/21

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