Dor Crônica - by dorcronica.blog.br

Por que seu tratamento para a dor crônica está falhando? Introdução.

Por que seu tratamento para a dor crônica está falhando?

Eu ruminei semanas sobre a conveniência de comentar um assunto crucial no controle da dor crônica, mas cada vez que me aprestava a escrever, recuava. Um tema espinhoso e controverso, desses que o “sistema da saúde” – profissionais da saúde, associações médicas, planos de saúde e “otoridades” preferem deixar estar para ver como é que fica. Refiro-me à baixa, baixíssima, taxa de adesão dos pacientes com dor crônica aos tratamentos prescritos pelos médicos, tipicamente estimada em cerca de 50% em média em vários países, variando de 0% a mais de 100%. (Atenção! Taxa referida exclusivamente a tratamentos medicamentosos).123

Por fim, decisão tomada: preparar uma breve série de três postagens sobre o tema, da qual a presente postagem é a Introdução. As duas postagens seguintes, a serem publicadas nas próximas semanas, tratam dos dois fatores responsáveis pela baixa adesão: o (Sub)Sistema de Saúde e o (Des)Conhecimento sobre a Dor Crônica.

“Gosto de falar sobre nada. É a única coisa sobre a qual sei alguma coisa.”

– Oscar Wilde

Bem, isso foi até o acaso me levar a assistir a uma matéria veiculada pela TV a cabo sobre uma troupe de artistas alternativos intitulados “Imaginário Periférico”, na Baixada Fluminense. No meio dela, o super-inusitado: uma máquina de produzir nada. Absolutamente nada. Um enorme emaranhado de rodas de bicicleta, canos, cabos, caixas e garrafas conectadas a diversas estruturas metálicas e plásticas, movimentando-se desengonçadamente ao ritmo de uma manivela operada por um barbudo de camiseta e chinelos. Uma espécie de sinfonia do absurdo.

Perguntado pelo repórter para que o artefato servia. “Para nada” respondeu o barbudo, muito sério.

Bem, eu pensei, se esse artista pode mostrar uma máquina de produzir nada, eu, que sou apenas um nada artístico paciente com dor crônica, posso produzir uma matéria sobre o “quase nada”, ou algo parecido.

Porque é isso que uma adesão ao tratamento (medicamentoso) por parte de apenas 50% dos pacientes com dor crônica significa para a sociedade. (Por “adesão” se entende a utilização de pelo menos 80% dos tratamentos prescritos, observando horários, doses e tempo de tratamento.)4

Ou seja, de cada 2 pessoas diagnosticadas com dor crônica, uma desiste de cumprir com o tratamento que seu médico prescreve.

É como se o paciente juntasse TUDO o acumulado em termos de gastos médicos, gastos relacionados (ex.: transporte); tempo perdido, custos de oportunidade e toneladas de esperança, desde a sua primeira consulta até o momento da desistência do tratamento… e o jogasse pela janela. Ou pela privada.

Um sistema de serviços de saúde enorme, enfim, semi-inútil. Meio milhão de médicos, 1,3 mil operadoras de planos de assistência médica, 27 associações médicas estaduais e 396 associações regionais filiadas à Associação Médica Brasileira Brasil, 492 empresas farmacêuticas… e no entanto, a prevalência da dor crônica no país continua no patamar que ocupa há décadas: média nacional de 45,59% segundo revisão sistemática de 35 artigos científicos5, ou algo parecido.6 (Cá entre nós, essa proporção é um exagero. Sem querer desmerecer o trabalho dos autores do artigo, eu fico prudentemente na faixa dos 20% a 30%, o que abrange nada menos que entre 42 e 64 milhões de bípedes.)

E você sabia que o Sistema Único de Saúde (SUS), que atende mais de 190 milhões de pessoas, ainda sequer conta com um protocolo para atender pacientes com dor crônica?

Uma máquina “de-produzir-nada”, então? Seria um desaforo, eu sei. Mas você já entendeu o meu ponto. Troque o “nada” por “pouco” e por aí estamos.

A questão é relevante, porque, por um lado, a dor crônica é uma condição de saúde dolorosa, incapacitante, depressiva e sem cura à vista.7 E que, além de estigmatizar o portador, prejudica sua qualidade de vida, as atividades da vida diária, e a saúde financeira.8

Sendo que, por outro lado, gente muito séria na comunidade científico-médica considera a dor crônica uma “epidemia”.9

Mais informações

Numa grande pesquisa, realizada em 2016, cerca de 20% dos adultos nos Estados Unidos Estados Unidos – cerca de 50 milhões de pessoas – sentiram dor na maioria dos dias ou todos os dias nos últimos 6 meses. Cerca de 8% — 20 milhões de pessoas — apresentavam dor crônica de alto impacto, do tipo que interfere no trabalho ou nas atividades do dia a dia.10

Múltiplas Condições Crônicas (MCC) significa que uma pessoa vive com duas ou mais condições crônicas ao mesmo tempo. Atualmente, 1 em cada 3 americanos adultos tem MCCs e para pessoas com 65 anos ou mais, 4 em cada 5 beneficiários do Medicare e um número crescente de crianças têm MCCs. Esta é a maior população de pacientes e usuários de recursos de saúde representando 64% de todas as visitas clínicas, 70% de todas as internações, 83% de todas as prescrições, 71% de todos os gastos com saúde e 93% dos gastos com Medicare.

Aproximadamente 20% da população adulta da Europa – mais de 80 milhões de pessoas – relatam dor crônica.11

Pois bem, a essa altura, eu tenho duas opções para continuar escrevendo sobre a baixa adesão aos tratamentos médicos por parte dos pacientes com dor crônica: avaliar os prejuízos disso ou examinar suas causas.

Avaliar os prejuízos é fácil e rápido. A julgar pelo custo total da dor persistente nos Estados Unidos Estados Unidos – US$ 650 bilhões, somando o custo da saúde e a perda em produtividade – e pela diferença populacional – 331 milhões versus 212 milhões – no Brasil Brasil o prejuízo deveria somar 2/3 disso, ou US$ 425 bilhões.12

Ok, são contas de português, mas novamente, você já entendeu a mensagem: quanto desse monte de dinheiro gasto na dor crônica se deve a tratamentos médicos pífios? Câmbio e fora.

O segundo caminho – identificar as causas da alta taxa de distância entre “o comportamento dos pacientes e as recomendações dos seus médicos” – já é mais acidentado e desconhecido.

E é por aí que eu vou nessa postagem.

Fatores que explicam a baixa adesão ao tratamento dos pacientes com dor crônica

O jeito mais confortável de explicar a desistência de um tratamento para a dor crônica é apontando para suas limitações ambientais. Levantamentos feitos em 4 cidades europeias (Amsterdam, London, Leipzig e Verona), por exemplo, culpam a gama e custo de medicamentos, barreiras geográficas, faixa etária, a cultura local, a etnicidade (diversidade) e o poder aquisitivo da população atendida.13

Parece-me, porém, que essas causas epidemiológicas interessam mais a administradores públicos e políticos, do que aos pacientes com dor crônica.

A meu ver, entre os fatores que leva um desses pacientes a desistir do tratamento, ou a cumpri-lo pela metade, estão:

  1. a avaliação que ele faz do Sistema de Saúde e do acolhimento que recebe deste; e
  2. a sua compreensão do que é uma Dor Crônica.14

Na próxima semana, o segundo post da série, sobre como o Sistema de Saúde colabora à baixa taxa de adesão ao tratamento dos pacientes com dor crônica, abordará os temas:

  • A medicina da dor ainda é uma comodity escassa
  • Despreparo do Sistema Médico
  • Comunicação oficial sobre saúde ineficiente
  • Diagnóstico errado

Na semana seguinte, a terceira e última postagem. O tema é a escassa compreensão, por parte dos pacientes, do que é a Dor Crônica, e como isso os faz abandonar o tratamento médico prescrito.

  • A dor crônica é uma dor de alta complexidade
  • Expectativas equivocadas
  • Crença na infalibilidade da medicina

Por que seu tratamento para a dor crônica está falhando?
(Des)conhecimento da dor crônica
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