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Pior do que a epidemia do Covid 19 é a ignorância que a alimenta

Pior do que a epidemia do Covid 19 é a ignorância que a alimenta

Até agora, a mídia em geral tem feito um bom trabalho informativo visando a mitigação dos efeitos da pandemia do novo coronavírus. Principalmente alertando a população para as patacoadas negacionistas dos que governam – haja visto Johnson, Trump & Cia. Contudo, às vezes, a mídia produz seu próprio besteirol. Em tempos normais, são coisas do ofício. No presente, beira o criminoso. Este post relata um caso desses.

“O Brasil é um dos países que melhor ‘performa’ no controle do Covid 19, no mundo.”

– Nelson Teich, Ministro da Saúde

O desatino integrou a primeira aparição em público do ministro, há duas semanas. E eu pensei que seria piedosamente esquecido. Não foi. Tem até quem acredita.

Hoje de manhã eu assistia um programa jornalístico dentre os vários oferecidos pela GloboNews quando a um dos habitués lhe foi perguntado, desde Nova York, se o isolamento social deveria ser reduzido nas capitais brasileiras.

“Na maioria delas, certamente”, foi a imediata resposta. “O número de reprodução básico, sabe? Ele é quase 1,0 no Paraná. E apenas um pouco maior em São Paulo… 1,3 ou algo assim”.

Hummmmmm, essa doeu. Eu explico… e vale a pena explicar porque o “número básico de reprodução (R0)” tem tudo a ver com o pico da curva de infectados. Quando ele está em 1,0 significa que a tal curva parou de crescer, estacionando num plateau. Não mais notícias fúnebres aumentando a cada dia. O pior já passou. Aleluia!

Não ficou claro? Então comecemos pelo começo: o que é o “número básico de reprodução”?

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Também chamado de Taxa Reprodutiva Básica (Ro), é uma indicação da transmissibilidade de um vírus, representando o número médio de novas infecções geradas por uma pessoa infecciosa em uma população totalmente susceptível (ou virgem, para ser mais claro). Ele corresponde ao número de infecções secundárias geradas a partir de um indivíduo infectado ou, dito de outra forma, o número esperado de susceptíveis que este vai infectar durante o curso de sua doença, numa população inteira de suscetíveis. A transmissibilidade é medida pelo número de reprodução – o número médio de casos que um indivíduo infectado provavelmente infectará.

O “número básico de reprodução” ideal é menor ou igual que 1,0. O número básico de reprodução real no mundo é entre 2,0 e 2,5. Atualmente a Alemanha apresenta 0,8 e o Brasil 3,0.1

No exemplo, esse número é compreendido entre 2 e 2,5 – que é o previsto pela Organização Mundial da Saúde. Superior ao da gripe, entretanto estimativas mais recentes apontam valores mais altos.

Agora vamos à patacoada do oráculo televisivo: alguns estados no Brasil deveriam abrir por ter atingido um “número básico de reprodução” de 1,0 ou algo próximo disso, certo?

Sim, existe uma chance em 1 trilhão disso estar certo.

Para começar, no Brasil hoje não se sabe ao certo sequer quantos morrem diariamente por causa do Covid 19. Ora, a subnotificação é calculada em dois dígitos! Fora isso, nem os cientistas que assessoram a Organização Mundial da Saúde sabem se o infectado com o coronavírus tem garantia de imunidade após curado e por quanto tempo. E ocorre que para se calcular o “número básico de reprodução” é necessária modelagem matemática e uma equação com muitos fatores dentre os quais está… a imunidade de rebanho. Como diabos alguém pode seriamente afirmar que o número básico de reprodução do Paraná é 1,0? Ou 5? Ou 12? Com que dados? Com quais cálculos?

Prossigamos, qual é o número básico de reprodução teoricamente considerado aceitável e por que?

Como eu disse antes, o R0 indica o grau de transmissibilidade de um vírus, qualquer vírus.

  • para R0 > 1, é provável que o número de infectados aumente,
  • se R0 = 1 significa que o número de novos casos se estabilizou,
  • enquanto uma taxa menor que 1 significa que a doença entrou em declínio e novos casos começarão a cair e a transmissão provavelmente desaparecerá.


Ou seja, quanto maior o R0, maior a porcentagem da população que precisará ser imune para alcançar a imunidade do rebanho. Com um R0 de 2 ou 2,5 – o limite inferior das estimativas da OMS de R0 para Covid 19 – a imunidade do rebanho seria alcançada quando entre 40 e 60% da população estiver infectada – ou 50% estiver imune.2  No caso do Covid 19, haverá garantia de que a pandemia chegou ao fim quando dois terços da sociedade atingirem a imunidade.

Na atualidade, no contexto do novo coronavírus, que número reprodutivo parece mais real?

A resposta à essa questão eu fui encontrar em duas pesquisas chinesas muito recentes e uma revisão de 12 estudos realizados na China e no exterior.

  • A primeira pesquisa “… constatou que a estimativa média R0 para Covid 19 é de cerca de 3,28, com uma mediana de 2,79… o que é consideravelmente mais elevada do que a OMS estima em 1,95”.
  • A segunda pesquisa usou dois modelos matemáticos para inferir a dinâmica do surto em Wuhan usando dados domésticos de alta resolução sobre viagens e infecções. Os resultados “…sugeriram um tempo de duplicação do número de pessoas infectadas de 6 a 7 dias e um número reprodutivo básico (R0) de 2,2 a 2,7. Os resultados mostram que o tempo de duplicação no início da epidemia em Wuhan foi de 2,3 a 3,3 dias.”
  • A revisão dos 12 estudos que estimaram recentemente o número reprodutivo básico para Covid 19 da China e do exterior, mostrou que “…as estimativas de número de reprodução do Covid 19 variaram em diferentes localidades, variando de 1,4 a 3,9, com tempo de duplicação da epidemia estimado em 6,4 dias e 7,4 dias.”


Por fim, os cientistas epidemiologistas do Imperial College London calculam semanalmente as mortes e a transmissibilidade por coronavírus em 42 países, o Brasil inclusive. (É uma joint venture de gente pesada: Centro Colaborador da OMS para Modelagem de Doenças Infecciosas; o Centro MRC de Análise Global de Doenças Infecciosas e o Instituto Jameel (J-IDEA) da Imperial; e a Universidade de Sussex).

Resumo da Ópera: estimar o “número básico de reprodução” de uma epidemia viral requer uma infinidade de dados em tempo real, que muito duvido qualquer estado brasileiro hoje possa produzir, quando mais confiavelmente. Depois, as estimativas de R0 dependem do método de estimação utilizado, bem como da validade dos pressupostos subjacentes. E pressupostos sobre o quê? Sobre a eventual conscientização das populações locais, as medidas de prevenção na vigilância do surto e o efeito de intervenções de isolamento social. No Brasil dos 210 milhões de habitantes, todavia, essas três variáveis são incertas.

E levando em conta todo o anterior, o “número básico de reprodução” em São Paulo (1,3) atualmente seria quase duas vezes melhor que o previsto pela Organização Mundial da Saúde (2,0/2,5) – e portanto o isolamento social ali deveria ser flexibilizado? Ora, ora…

Enfim, nada tenho contra os que opinam, sobretudo o relacionado com o Covid 19, seja pelo meio de comunicação que for. Todos tem direito a seus 15 minutos de fama, porém o momento é delicado demais. Há milhões de pessoas, hoje ainda semiconfinadas, à espreita de argumentos que justifiquem sair dessa condição – não importa a qualificação ou a categoria da fonte influenciadora. Se isso acontecer haverá mortes extras. (Um modelo americano projeta 75 mil mortes nos EUA até Setembro, se o isolamento social por lá afrouxar, 15% a mais das 67 mil projetadas se ele for mantido.)

Não duvide, cada ponto de queda do isolamento social, há de se pagar com vidas ceifadas, em qualquer país. É temerário, senão irresponsável, empurrar os indecisos para a rua com comentários extravagantes sobre a segurança oferecida pelas capitais brasileiras em relação ao contágio com o novo coronavírus.

Alô, alô Manaus… tem alguém aí?

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