Os vikings e a dor lombar crônica? Tudo a ver.

Os vikings e a dor lombar crônica? Tudo a ver.

Pergunte a uma pessoa que diz padecer de dor crônica sobre qual poderia ser a causa. Provavelmente ela dirá algo assim como: “Deve ser aquele acidente que eu tive quando criança”; ou “Eu deveria ter levado uma vida mais regrada”; ou “Foi aquela gripe da qual nunca mais me recuperei…”. Causas físicas, todas elas. E se eu disser que são outros os tipos de causa que mais contam nessa história? Veja nesse post quais podem ser.

“Nós não tememos o desconhecido; tememos que o conhecido chegue ao fim.”

Krishnamurti

Vejamos, você padece de dor lombar (dor na parte inferior das costas). E já consultou “n” profissionais da saúde, se entupiu de remédios, fez numerosas promessas a seus deuses… e nada.

Então, me acompanhe.

A dor é controlada pelo cérebro. Nele habitam tribos distintas e todas tem algo a dizer sobre a sua dor. Ela é o produto dessa modelagem – ou modulação.

Até aqui, tudo bem?

Noutras palavras, se você está estressado, triste ou eufórico; se você tem personalidade autoritária ou não acredita em Deus; se você foi criado num ambiente machista; se é Agosto, faz frio e você anda gripado… tudo isso, plenamente TUDO isso e sabe-se lá quantas outras informações mantidas no seu consciente e subconsciente, vão determinar quanta dor você irá sentir antes, durante e depois de… tomar a vacina contra o sarampo, ou de… quebrar quatro costelas após ser atropelado por uma vaca.

É claro que a picada e a batida irão contar muito mais do que aquelas outras coisas, no momento da agressão! Porém, o ponto dos neurocientistas especializados em dor é de que a dor sentida por conta dessa agressão não pode ser explicada apenas pelos efeitos sensoriais da mesma.

Faz sentido, não é mesmo?

Faz, mas ninguém acredita. Todo mundo já teve dor e a sensação é tão contundente e localizada etc. Diante de uma agressão aguda, como é que fatores psicológicos podem influenciar a dor? Difícil de imaginar.

Bem, ponha-se no lugar de um viking, lá pelos anos 800 AC, sentado num rochedo da costa da Jutlândia, hipnotizado pela linha do horizonte na sua frente. Será que daria para pegar um bote e remar até lá? E depois, o que haveria depois? Um abismo? Terra? Huuuuumm… difícil de imaginar.

Aquele viking não tinha provas de que a Terra fosse esférica, redondinha. Ao médico nos dias de hoje, em câmbio, sobram provas de que a dor que seus pacientes dizem sentir não é causada apenas por falhas estruturais no organismo, e sim por distúrbios mentais, psicológicos, emocionais… entre outras coisas.

Pois bem, o viking dos 800 AC zarpou, e 166 anos depois um de seus descendentes, Guilherme, O Conquistador, assumia como Rei da Inglaterra. O médico dos 2020 DC, por sua vez, ainda está sentado.

Mas o que diabos tem a ver um viking com a sua dor lombar? Explico. E que eu falei em “provas”, provas da influência de fatores não fisiológicos sobre a dor. E esse post comenta uma delas, dentre as tantas que vem se acumulando nos últimos 50 anos.

Há pouco, pesquisadores do Orthopaedic Spine Center de Stanford investigaram o que poderia predizer melhor quem teria mais propensão a sofrer de dor nas costas no futuro.

O resultado, eles pensavam, daria pistas aos médicos sobre a causa física específica dessa condição, a qual é muito difícil de descobrir. (E essa dificuldade, suspeita-se, é aproveitada para prescrever como solução cirurgias dispendiosas amiúde inúteis.)

Alguns dados, para o leitor se situar. A prevalência (em tempo de vida) da dor lombar chega a 84% e a da dor lombar crônica, a 23%. A prevalência da dor lombar crônica não específica é de 15%.

A investigação acompanhou 46 pacientes com problemas nos discos espinhais e 49 sem esse problema servindo de grupo de controle, durante 4 anos. Nenhum deles tinha dor lombar no início do estudo.

As espinhas dorsais dos pacientes foram examinadas usando dois estímulos invasivos (injeção de disco e ressonância magnética), de um lado, e avaliações psicológicas, de outro lado.

No final da pesquisa, descobriu-se que os fatores psicológicos previam com mais precisão quem desenvolveria a dor lombar do que as duas técnicas de diagnóstico. Os pacientes com poucas habilidades de enfrentamento ou com dor crônica tinham quase três vezes mais chances de desenvolver dor nas costas em comparação com aqueles carentes dessas duas características.

Em suma:

“Os problemas estruturais foram realmente sobrecarregados pelos fatores psicossociais”, concluiu o Dr Eugene Carragee, líder da equipe de pesquisa.

Agora eu lhe pergunto:

Se fatores psicológicos ocorridos há vinte anos atrás predizem a dor lombar crônica que você sente agora, não seria válido você examiná-los, antes de ir (de novo!) atrás de um analgésico? Ou de fisioterapia? Ou de choquinhos elétricos? Ou de cirurgia? Ou de…

Sentar num parque, respirar fundo, e revisar seus pensamentos tóxicos, os estressores ambientais que você admite (porque simplesmente admite) na sua vida, as relações interpessoais na família ou no trabalho que lhe comem o fígado em silêncio… não é mais barato e possivelmente contributivo à sua busca por alívio da dor que sente? Não precisa voltar atrás 20 anos, essas coisas estão aí, na sua frente, inundando suas vias neurais de eletricidade dolorosa, todo dia.

E se você pensa que eu tirei isso do último best seller de autoajuda, errou. Ele chama “Back in Control: a Surgeon´s Map out of Chronic Pain”, de David Hanscom, um neurocirurgião americano que parou para pensar.

Pense nisso.

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