Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Os profissionais da saúde da linha de frente e o medo da Covid 19

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No começo de junho, nos Estados Unidos, onde há estatísticas, quase 600 profissionais de saúde da linha de frente nos Estados Unidos tinham morrido por conta do Covid-19. Eu procurei dados no Brasil, e achei… nada. Enfim, na linha de frente no combate ao novo coronavírus estão médicos, enfermeiros e paramédicos, bem como funcionários cruciais de apoio à saúde, como maqueiros e zeladores de hospitais. De longe, a gente os vê se esforçar, adoecer, morrer, agradece e segue em frente. Mas o que será que sentem a respeito da situação que enfrentam todo dia? Um estudo tratou disso num país qualquer, talvez parecido com o Brasil. Este artigo resume o que foi averiguado.

“Agora é só olho no olho. E quando estão sedados e intubados, eu converso no ouvido porque sei que a audição é o único sentido que eles não perdem.”

Jessica Lisla, enfermeira intensivista, Manaus (AM)

O artigo “The psychology of coronavirus fear: Are healthcare professionals suffering from corona-phobia?”, de autoria de Saqib Amin, foi publicado no International Journal of Healthcare Management, em meados de abril 2020, quando o coronavírus ainda tinha pela frente as três Américas. Ele não está sendo reproduzido na íntegra. Somente os trechos que me pareceram mais importantes. Cometi também o sacrilégio acadêmico de manter em sigilo o nome da localidade onde o estudo foi feito. Pode ser em Londrina, Manaus ou Presidente Prudente. Ou em Fontainebleau, Niagara Falls ou Manchester. Ou na cidade onde você mora. Aguente o suspense até o fim do artigo.

Autor: Saqib Amin

Objetivo

Este estudo utilizou uma abordagem qualitativa e quantitativa para medir o impacto do Covid-19 pandêmico no bem-estar psicológico dos profissionais de saúde que tratam diretamente pacientes em quarentena no hospital. Fizemos perguntas a 250 profissionais de saúde (incluindo médicos, enfermeiros e funcionários paramédicos) que estão tratando pacientes em quarentena em diferentes hospitais de…

Resultados

Demografia e descrição das pessoas em quarentena

Os questionários foram preenchidos por 250 profissionais de saúde (através da entrevista), incluindo médicos, enfermeiros e equipe paramédica, 159 do sexo masculino (63,6%) e 91 do sexo feminino (36,4%) que estavam atendendo na ala de quarentena.

  • Cinquenta e cinco por cento dos entrevistados em equipes paramédicas sentem que não receberam o equipamento médico/de segurança adequado para a segurança pessoal dos profissionais de saúde, porque a ala de quarentena era apenas um meio de isolamento.
  • Aproximadamente mais da metade dos profissionais de saúde não tem as informações corretas sobre as medidas de controle de infecção, e se declaram frustradas, decepcionadas, preocupadas com o modo de transmissão e com o prognóstico do coronavírus1.

Impacto psicológico da quarentena

O impacto psicológico da ala de quarentena nos profissionais de saúde foi identificado através de seis dimensões da Psychological General Well-Being Index (PGWB), ou seja, efeito da psicologia, depressão, bem-estar negativo, falta de autocontrole, saúde geral e vitalidade. Os entrevistados que garantiram o escore PGWB ≥30 foram 72,4%, o que evidentemente indicou a presença de distúrbio psicológico.

Os profissionais de saúde também determinaram que a falta de contato social e físico com os membros da família foi identificada como particularmente depressiva. O confinamento dentro de casa ou entre o trabalho e o lar, não poder ver os amigos, não poder comprar as necessidades básicas da vida cotidiana aumentavam o sentimento de distância do mundo exterior.

As medidas de controle de infecção impuseram não apenas o desconforto físico de ter que usar uma máscara, mas também contribuíram significativamente para a sensação de isolamento.2 Médicos, enfermeiros e funcionários paramédicos têm uma situação semelhante nas dimensões pessoal e relacionada ao trabalho, mas médicos e enfermeiros têm mais gravidade de transtorno mental do que os funcionários paramédicos. Este estudo constata que nos profissionais de saúde que ficam na enfermaria de quarentena há um impacto significativo em seu bem-estar psicológico. Os resultados indicam que permanecer na quarentena afeta a saúde física dos profissionais de saúde, e também a saúde mental.

Discussão

Um escore ≥30 no PGWB foi utilizado para estimar a prevalência do distúrbio psicológico na população estudada. Embora outros pontos de corte possam ter sido usados ​​para estimar a prevalência do índice psicológico de bem-estar em nossa população, os fatores de risco que identificamos para um aumento do distúrbio psicológico, em vez da prevalência absoluta do problema psicológico nos participantes do estudo, são os achados importantes deste estudo. Isso também se aplica aos fatores de risco que identificamos para aumento dos sintomas depressivos nos entrevistados3. Os profissionais de saúde da enfermaria em quarentena, com fatores de risco para o índice psicológico de bem-estar ou sintomas depressivos, podem se beneficiar de um maior apoio vindo das autoridades de saúde pública.

A própria quarentena, independente de familiaridade ou exposição a alguém com Covid-19, pode ser percebida como um trauma personalizado. A presença de mais sintomas psicológicos em pessoas com conhecimento ou exposição a alguém com diagnóstico de Covid-19 em comparação com pessoas que não tiveram essa conexão pessoal, pode indicar um maior risco percebido4.

Este estudo também observa o aumento dos sintomas de desordem psicológica e depressão entre os profissionais de saúde por não ter recebido nenhuma remuneração/prêmio por desempenharem funções na ala de quarentena/UTI.

De particular interesse, a adesão estrita às medidas de controle de infecção, incluindo o uso de máscaras com mais frequência do que o recomendado, foi associada ao aumento dos níveis de sofrimento.5 Se as pessoas com níveis basais mais altos de angústia tinham maior probabilidade de aderir estritamente às medidas de controle de infecção ou se a adesão às estratégias recomendadas de controle de infecção resultou no desenvolvimento de níveis mais altos de angústia não pode ser esclarecido sem entrevistar os participantes (o que não foi possível). Independentemente da causa, essa angústia poderia ter sido diminuída com o aprimoramento da educação e o reforço contínuo da lógica dessas medidas e esforços de divulgação para otimizar o enfrentamento do evento estressante6.

Uma combinação de falta de conhecimento do pessoal paramédico, um entendimento incompleto da lógica dessas medidas e uma falta de reforço de um sistema de saúde pública sobrecarregado provavelmente contribuíram para esse problema7.

Mais informações sobre o Covid-19 também aumentaram o nível de estresse nos profissionais de saúde. Como o novo coronavírus está se espalhando rapidamente, atualmente não há vacina ou tratamento preventivo para ele, e não sabemos o quanto isso é mortal. Uma psicóloga consultora de saúde clínica no Reino Unido, chamada Dorothy Frizelle, disse que as pessoas que percebem mais, ouvem mais e, por sua vez, leem mais, o que pode ser interpretado de maneira ameaçadora. As pessoas não estão em pânico por causa da rápida disseminação do vírus em todo o mundo, mas porque estão ligadas ao medo do desconhecido. Há muita informação e desinformação e o medo é mais contagioso do que o próprio vírus. Estes são tempos confusos e estressantes para todos nós. Como a pandemia de coronavírus afeta inúmeras facetas de nossa sociedade, ela também afeta cada pessoa de maneiras diferente. E para aqueles com depressão, falta de engajamento social e interrupção nas rotinas podem aumentar os sintomas.

Implicações e recomendações

Os profissionais de saúde delegados às enfermarias de quarentena estão sob condições altamente estressantes. Suas respostas emocionais e comportamentais são naturalmente resilientes diante de uma tensão severa (imprevisível e incerta); portanto, o tratamento e a psicoterapia focados no paradigma tensão-adaptação podem servir como intervenção precoce e oportuna. Os problemas de saúde mental dos trabalhadores médicos também são críticos para melhorar a prevenção e o gerenciamento da pandemia.

Um programa abrangente de gerenciamento de trauma psicológico deve ser desenvolvido através de uma rede profissional de resposta em saúde mental destinada a:

  • oferecer aulas educacionais que facilitem a compreensão dos efeitos psicológicos de situações que são traumáticas para a equipe de saúde e
  • assistência psiquiátrica por telefone para resolver seus problemas psicológicos com ajuda de uma equipe de saúde mental especializada.

Os hospitais devem conceber e elaborar programas em termos de garantia de alimentação, recursos de vida e fornecimento de instruções a pacientes em quarentena, suas famílias e os próprios funcionários para gerar conscientização e responder a problemas psicológicos. Os consultores psicológicos também devem conhecer periodicamente as catarses da equipe de serviço, ouvir suas experiências e oferecer incentivo.

Para resolver os problemas secundários de saúde mental associados à pandemia do Covid-19, uma intervenção urgente de crise psicológica deve ser desenvolvida e aplicada usando a plataforma de tecnologia da Internet. Uma série de intervenções aplicadas em vários ambientes de assistência médica facilitaria o diagnóstico precoce, a prevenção e a recuperação subsequente de maneira rápida, contínua e saudável. Para enfrentar esses obstáculos, evidências epidemiológicas sobre efeitos na saúde mental, efeitos clínicos, morbidade médica e problemas psicossociais com o advento do Covid-19 e sua triagem, diagnóstico, monitoramento, planos de recuperação, supervisão, notas de sucesso, análises do estado de saúde, prevenção, e intervenção ainda precisam ser abordadas.

Limitações e pesquisas futuras

  • O número real de entrevistados é baixo em comparação com o número total de equipes de saúde que foram colocadas nas alas de quarentena e, portanto, pode não ser representativo de todo o grupo de profissionais de saúde.
  • Em caso de futuros surtos, um grupo de controle pareado de trabalhadores da saúde que não estavam em quarentena deve ser considerado, pois permitiria uma avaliação do sofrimento pela comunidade em geral.
  • Também nos concentramos nos sintomas do índice psicológico de bem-estar. Estudos futuros devem avaliar as pessoas quanto a outras respostas psicológicas, incluindo medo, raiva, culpa e estigmatização. Um instrumento padronizado de pesquisa que considere todo o espectro de respostas psicológicas à quarentena deve ser desenvolvido. Estudos futuros devem avaliar as pessoas quanto a outras respostas psicológicas, incluindo medo, raiva, culpa e estigmatização.

Em suma:

Nossos dados mostram que a quarentena pode resultar em considerável sofrimento psicológico nas formas do índice psicológico de bem-estar e sintomas depressivos e sugere que autoridades de saúde pública, médicos de doenças infecciosas e psiquiatras e psicólogos precisam estar cientes desse problema. Eles devem trabalhar para definir os fatores que influenciam o sucesso das práticas de quarentena e controle de infecção, tanto para a contenção da doença quanto para a recuperação da comunidade, e devem estar preparados para oferecer apoio adicional a pessoas com maior risco de consequências psicológicas e sociais adversas da quarentena.

Nota do blog: O estudo foi feito em hospitais de Lahore, capital da província do Panjabe, no Paquistão. Cerca de 7 milhões de habitantes, pouco mais que a população do Rio de Janeiro.

As conclusões são muito parecidas às de outro estudo publicado dois meses depois, em 26 de junho pela The Lancet. Ele abrangeu pouco mais de 2 mil enfermeiros, entre 13 a 24 de fevereiro de 2020, em hospitais de Wuhan (China). Os participantes apresentaram um nível moderado de burnout e um alto nível de medo. Cerca da metade relatou exaustão emocional (n = 1.218, 60,5%) e despersonalização (n = 853, 42,3%). Apesar desse nível de estresse psicológico, 1.950 (96,8%) enfermeiros ainda manifestaram vontade de participar do trabalho de linha de frente.

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