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O que os cientistas aprenderam com os lockdowns do Covid

O que os cientistas aprenderam com os lockdowns

Agora que as vacinas e tratamentos contra a Covid-19 para doenças graves estão amplamente disponíveis, é improvável que a maioria dos países que as aplicaram ao máximo voltem aos lockdowns. Então, o que os pesquisadores aprenderam para quando outra pandemia viral chegar? O tema pandemia/lockdowns/vacinas é encardido porque virou bandeira política (e eu quero ficar longe disso) e, também, nem sei se atualmente interessa – hoje ninguém quer sequer imaginar como e quando uma nova pandemia poderia chegar! Mesmo assim, eu decidi postar trechos de um artigo recentemente publicado na Nature, uma das três revistas mais prestigiosas do mundo, sobre o saldo dos lockdowns aplicados por muitos países em 2020 no intuito de impedir a propagação da Covid-19 e o subsequente colapso dos sistemas de saúde. Durante o período 2020-2021 este blog postou 250 matérias sobre a pandemia, no intuito de incentivar seus visitantes a se proteger. Sinceramente, hoje eu não sei se consegui muita coisa, mas ao menos fiz a minha parte enquanto responsável de um meio de comunicação aberto ao público. Com o presente post eu espero encerrar esse esforço e nunca mais ter que que escrever sobre o assunto Covid-19.

“Você realmente não precisa de muito para ser feliz. Uma boa janela, uma conexão com a Netflix, alguns bons livros e uma despensa cheia resolvem o problema”.

– Anindita Das

Em março de 2021, um médico no Brasil chamado Ricardo Savaris publicou um trabalho de pesquisa, agora desacreditado, que se tornou viral nas mídias sociais.1

Savaris, obstetra e ginecologista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e outros colegas compararam 87 locais ao redor do mundo, em pares, para concluir que uma taxa mais baixa de mortes por Covid-19 não se correlacionava com maior tempo gasto em casa. Ou seja, o lockdown não evitava mortes pela Covid 19. O artigo foi publicado na Scientific Reports e imediatamente recebeu fortes críticas.

Dentro de uma semana, a Scientific Reports adicionou uma ‘nota do editor’ ao jornal, alertando os leitores para as críticas. Nove meses depois, a revista publicou duas cartas23 que expunham os erros do artigo. Uma semana depois, retratou o trabalho, embora nem Savaris nem seus coautores concordassem com a retratação.

O artigo retratado não é o único a afirmar que os lockdowns não salvaram vidas. Mas a maioria dos cientistas concorda com o oposto, e que os governos tinham pouca opção a não ser restringir os contatos sociais das pessoas no início da pandemia, para conter a disseminação do SARS-CoV-2 e evitar o colapso dos sistemas de saúde.

Está claro, por outro lado, que os lockdowns tiveram custos enormes, e alguns efeitos deletérios. O fechamento de escolas e universidades interrompeu a educação. O fechamento de negócios contribuiu para dificuldades financeiras e sociais, problemas de saúde mental e desacelerações econômicas.

Atualmente, os cientistas estudam os efeitos dos lockdowns durante a pandemia na esperança de que suas descobertas possam informar a resposta a crises futuras. Eles chegaram a algumas conclusões: os países que agiram rapidamente para adotar medidas rigorosas se saíram melhor em preservar vidas e suas economias.

Mas os pesquisadores também encontraram dificuldades. A análise de danos e benefícios concorrentes muitas vezes não se resume a cálculos científicos, e sim a julgamentos de valor, como o de que os custos do lockdown recaem sobre alguns setores da sociedade mais do que outros. É isso que torna os lockdowns tão difíceis de estudar. 

Cálculo complicado

Há uma dificuldade fundamental em analisar os efeitos dos lockdowns da Covid-19: é difícil saber o que teria acontecido na ausência deles.

Os lockdowns reduzem a transmissão viral, como o fechamento de Wuhan, na China, mostrou quando o SARS-CoV-2 surgiu pela primeira vez. Mesmo em países que não imitaram a abordagem completa da China de fechar fronteiras, ordenar que os cidadãos fiquem em casa e isolam pessoas com Covid em instalações centrais, as medidas de lockdown ainda reduzem a propagação da doença. Em maio de 2020, por exemplo, Bhatt e outros analisaram lockdowns em 11 países europeus e extrapolaram que a partir da queda na transmissão viral essas medidas sozinhas salvaram mais de 3 milhões de vidas.4

Figura 1

Uma análise usou diversos testes estatísticos para desvendar quais das centenas de medidas governamentais, em 79 países ou territórios, foram as mais efetivas em reduzir a contaminação. Os cientistas classificaram as medidas de acordo com quantos dos testes concordaram que os efeitos eram significativos e, em seguida, em quanto reduziram o R, o número de pessoas com probabilidade de serem infectadas por uma pessoa com a doença. Aqui estão as oito principais intervenções.

Quão efetivas foram as intervenções Covid-19?

Fonte: Haug, N. et al. Nature Hum. Behav. 4, 1303–1312 (2020).

Outros estudos tentaram colocar números mais precisos sobre os efeitos das políticas de lockdown, mas suas descobertas diferem. Uma análise5 de 41 países na Europa e em outros lugares descobriu que os pedidos de permanência em casa tiveram um impacto relativamente pequeno na transmissão, reduzindo o R – o número médio de pessoas que uma pessoa com Covid-19 infectará – em apenas 13 % além do que poderia ser alcançado fechando escolas e universidades (38%) ou limitando as reuniões a 10 pessoas ou menos (42%). No entanto, a análise de Bhatt6 de 11 países sugeriu que os pedidos de permanência em casa cortam o R em 81%, com fechamento de escolas, proibição de eventos públicos e outras medidas sendo menos importantes. Klimek adverte contra generalizações sobre a eficácia das políticas de lockdown com base em números como esses. “A eficácia de cada intervenção é altamente dependente do contexto”, diz ele. O que várias análises sugerem é que nenhuma intervenção única pode reduzir R abaixo de 1 (significando que as infecções estão diminuindo): várias medidas conseguem isso trabalhando em conjunto.

Vá com força, vá rápido

O período pré-vacinação da pandemia mostra que os países que agiram com severidade e rapidez – a abordagem “vá com força, vá rápido” – muitas vezes se saíram melhor do que aqueles que esperaram para implementar políticas de lockdown. Os severos lockdowns da China eliminaram a Covid-19 localmente, por um tempo. Islândia, Austrália e Nova Zelândia, que também se beneficiaram de poder fechar suas fronteiras e agir antes que muitas pessoas com o vírus chegassem.

Outros ecoaram isso. O epidemiologista Edward Knock e outros membros da equipe de resposta à Covid-19 do Imperial College concluíram que o lockdown nacional foi a única medida que consistentemente levou o R abaixo de 1 na Inglaterra. E quanto mais cedo forem impostas medidas rigorosas, melhor. Knock estimou que se a Inglaterra tivesse introduzido um lockdown nacional uma semana antes de março de 2020, teria reduzido pela metade as mortes durante a primeira onda.7 Um estudo8 de respostas governamentais na Ásia também sugeriu que uma abordagem ‘vá com força, vá rápido’ era a melhor.

Mas lockdowns mais severos nem sempre são mais eficazes por si só, especialmente em países onde é difícil para as pessoas ficarem em casa. O Peru é um exemplo. Ele impôs medidas de lockdown antecipadas e rigorosas, mas experimentou uma taxa de mortalidade excessiva muito maior do que outros países da região que usaram medidas menos draconianas. O país tem uma grande força de trabalho informal, combinada com infraestrutura de saúde cara e inadequada. Apesar dos lockdowns, muitos peruanos continuaram a se aventurar para fazer compras e trabalhar, e assim a transmissão permaneceu teimosamente alta.

Benefícios versus danos

Woolhouse diz que houve pouco esforço para debater a escala de possíveis danos causados ​​por lockdowns, o que significa que os formuladores de políticas não conseguiram avaliar custos e benefícios adequadamente. De fato, desde o início, muitos países adotaram uma abordagem de ‘salvar vidas a qualquer custo’, diz ele.

E as políticas de lockdown trouxeram custos. Embora tenham atrasado surtos, salvando vidas ao permitir que os países se apegassem a vacinas e medicamentos, também trouxeram isolamento social significativo e problemas de saúde mental associados, taxas crescentes de violência doméstica e violência contra mulheres, consultas médicas canceladas e interrupção da educação para crianças e estudantes universitários. E eles foram muitas vezes (embora nem sempre) acompanhados por crises econômicas.

O refrão comum de que os lockdowns envolvem uma escolha – salvar vidas versus meios de subsistência, ou vidas versus economia – é uma falsa dicotomia, diz Stuart McDonald, atuário e fundador do Covid-19 Actuaries Response Group, uma comunidade de especialistas do Reino Unido que realizaram análises regulares de mortalidade durante a pandemia. Se o governo do Reino Unido não tivesse imposto lockdowns tardios em 2020, os sistemas hospitalares teriam sido superados, as taxas de mortalidade para todos os tipos de doenças teriam disparado e as economias e meios de subsistência entrariam em colapso de qualquer maneira, diz ele. Uma análise9 até novembro de 2021 estimou que os Estados Unidos perderam US$ 65,3 bilhões por mês durante os lockdowns. Mas outros10 estimaram que os lockdowns nos EUA do início de março até o final de julho de 2020 adicionaram entre US$ 632,5 bilhões e US$ 765 bilhões à economia, em comparação com a alternativa de não lockdowns. Sem surpresa, os países que se saíram melhor em termos de salvar vidas e proteger a economia foram aqueles que agiram rápido com lockdowns rigorosos.

A próxima pandemia

Uma lição que se tira dos estudos de lockdown é que havia uma janela inicial de oportunidade em que o vírus poderia ter sido eliminado – como foi, de fato, em países como China, Austrália e Nova Zelândia. Se medidas mais duras tivessem sido adotadas mais cedo e mais amplamente, a pandemia poderia ter sido muito diferente. “Acho que esse é o grande aprendizado que precisamos levar”, diz ele.

É claro que uma ameaça futura também pode se espalhar de maneira completamente diferente da Covid-19. As escolhas éticas podem parecer muito diferentes se a próxima pandemia for causada por um vírus da gripe que afeta predominantemente e é disseminado por crianças pequenas.

Os lockdowns trazem outra lição clara: eles exacerbam as desigualdades que já existem na sociedade. Aqueles que já vivem na pobreza e na insegurança são os mais atingidos. A proteção contra esses impactos desiguais exige um melhor acesso à saúde e salvaguardas financeiras quando os tempos são bons.

E a transparência também é fundamental: o público precisa saber mais sobre como as políticas de controle de pandemia são decididas, diz Tsai. “Isso faz com que a formulação de políticas de saúde pública pareça menos caprichosa”, diz ele, “porque é reativa tanto à ciência quanto aos valores”.

Tradução livre de “What scientists have learnt from COVID lockdowns”, por Dyani Lewis. Nature 609, 236-239 (2022).

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