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O que eu desaprendi nesse ano de Covid-19

O que eu desaprendi nesse ano de Covid-19

Retrospectivas de fim de ano eu sempre achei entediantes. Elas repetem o sabido, e já à altura de abril, ainda mais junho, o meu cérebro diz “tchau”. Mas não dessa vez, após eu substituir a leitura do relato do que houve fora, pelo que aconteceu dentro de mim. Na minha cabeça, mente, consciência… Uma leitura, então, das percepções e sentimentos trazidos à tona pela pandemia da Covid-19 que, por incrível que pareça, já virou 20! Um ano inteiro, quem diria? E no final dessa viagem íntima, uma pergunta dura, implacável: afinal, eu aprendi alguma coisa?

“Eu permiti que você me pintasse como um idiota, e enquanto você ria como se eu fosse o idiota, a verdadeira piada foi você.”

– Mireya Rios

Todo fim do ano é tempo de balanço. Para uns é uma questão de números, cifrões, lucros e perdas… Outros calculam o quanto subiram (ou caíram) na escala social, casa na praia, carro zero, ingresso no clube etcétera. Os que se acham famosos (coitados!) somam os likes, e por aí vai.

Agora é a vez das reminiscências inspiradas pela pandemia. Em todas as redações de jornais e canais de TV, sumários estão sendo montados ou já começam a ser divulgados. A BBC saiu na frente com uma matéria cliché: “Covid death figures: 10 things we’ve learned”. O elenco vai do arquiconhecido – “The age profile of those dying with Covid was significantly older than that for deaths in general” – ao surpreendente – “More women than men have died of Covid, however, males are 1.4 times as likely to die than females.”

Apenas por esporte, eu tentei fazer o mesmo e logo, logo, desisti. Achei pouca graça. Ora, eu estou firmemente posicionado num grupo de risco, pensei. Nesse blog, postei – digo “postei” porque eu sou o único que toca o circo por aqui – 150 matérias sobre esse vírus infame e suas circunstâncias. Centenas, não milhares de horas-homem investidas, não, gastas, vigiando tudo que foi publicado, no Brasil e pelo mundo afora… e eu vou me furtar a resumir, para mim mesmo, o quanto aprendi com a experiência?

Posto à tarefa, porém, logo fui travando, travando… Isso, porque de fato, eu desaprendi. (Desaprendi, de desaprender: ou seja, esquecer algo que se tenha aprendido ou que já se soube. Oxford Languages.)

Antes de especificar os objetos do meu “aprendizado-em-marcha-ré” antecipo que os acontecimentos ocorridos nesse ano infeccioso e infernal são de conhecimento público, sujeitos a interpretação livre de cada qual. Longe de mim aspirar a que a interpretação alheia coincida com a minha.

Fora isso, leve você em conta que nós dois somos produtos epigenéticos, que é uma forma meio pedante de dizer que o que ocorre em nós não é tudo resultante de uma sequência de DNA pessoal e intransferível. A maneira em que fomos criados, o que aprendemos nos primeiros 12 anos de vida, forjaram valores e princípios que pouco mudaram depois. Assim sendo, alguns aprendemos a ver as coisas preto no branco, outros foram levados por uma via mais cinzenta e ainda sobraram os que raramente veem coisa alguma. O que vem a seguir, então, está inspirado em valores e princípios que obviamente não são universais. Quem sabe, talvez sejam apenas meus.

O que eu desaprendi?

O significado de LIDERANÇA, para começar. Eu nunca fui, nem quis ser líder de ninguém. Muita responsabilidade. A de afetar a vida de outros. Mas isso não me impediu de admirar o conceito (de liderança) e os (muito poucos) bons líderes que conheci. O líder deve funcionar em prol do bem-estar dos que o mantém nessa posição. Bem-estar, me parece, está relacionado a saúde. Se o líder fala e age contra a saúde coletiva então não é um bom líder e precisa ser cobrado por isso. Os atenienses sancionavam seus líderes fajutos embarcando-os num navio rumo a qualquer outro lugar do mundo que não fosse Atenas. Algo equivalente não ocorreu, porém, no Reino Unido, nem no Cazaquistão, no México, nos EUA, no Brasil… países em que milhares de vidas foram perdidas pela miopia, teimosia ou estupidez de quem liderava. (Sem desmerecer a catalepsia dos sobreviventes.) É a época do líder-100%-impune. Aquele que enquanto alguns dos seguidores se matam remando (ou se contaminando em UTIs), acha genial girar o leme ao contrário.  O que se aprende com isso? Ou pior, o que você pode ensinar a seus filhos a partir disso?

O culto à VERDADE foi outra das coisas que ruíram no meu conceito. Os meus pais, assim como os de Fulano e Sicrano, antigamente pregavam – na hora do jantar; ou no carro, indo para o colégio; ou na piscina, nas férias – “dizer a verdade”, mesmo quando isso significasse levar na cabeça. Eu, claro, nem sempre acatei, mas ao menos sabia muito bem que estava mentindo. A tirada: “Fatos não cessam de existir apenas por serem ignorados”, nunca deixou qualquer dúvida. Mas eu estava errado. Ou mal aconselhado.

Hoje a MENTIRA está institucionalizada. Você vê preto, porém o outro – pode ser o presidente de qualquer coisa, um padre ou um juiz – diz que é branco, e tudo bem. Principalmente, se for comunicado pela mídia, que legitima qualquer bobagem. O pior é que quando alguém mente para você dia sim, dia não, e você se acostuma, uma vozinha lá no fundo da consciência diz que, bem, você não merecia outra coisa.

E o que me diz da CIÊNCIA? Ora, acreditando nela, no seu poder de convicção em momentos de suprema ignorância coletiva, como é numa pandemia, eu errei novamente. Por coisas do destino a vida me fez cientista, com doutorado e tudo. Não digo isso para esnobar, afinal, hoje chovem doutores na TV, mas para destacar que fui treinado numa maneira de pensar, numa lógica pautada por evidências, ou ao menos por observações criteriosas da realidade. Nesse ambiente, o que não é comprovado, medido ou racionalmente deduzido, não existe, é mentira. A lei da Gravidade, por exemplo. Você pode até duvidar do sexo do Issac Newton, o seu autor, mas não disso que “tudo o que sobe e pesa mais do que o ar, vai cair” – ou algo assim. Experimente jogar um tijolo reto para cima de sua cabeça e vai ver. Pois bem, para o meu espanto, a coisa não funciona assim. Megatons de ciência valem um vintém quando se trata de justificar o que dá votos, pouco importa se isto vem embrulhado em papel de estrume, lá do interior de onde o gato perdeu as botas. A ciência? No segundo semestre desse ano, eleições em aberto, enquanto os lojistas prevaleciam sobre os epidemiologistas e infectologistas, alguns governantes se passavam a dito cuja pela bissetriz, e outros se especializavam em pronunciar o seu nome em vão.

Uma quarta implosão afetou um dos princípios básicos na minha vida profissional, o da PREVISIBILIDADE. O que é isso? Ora, é o primeiro que ensinam numa faculdade de negócios: planejamento. Por quê? Simples: porque, se você não sabe para onde está indo, vai acabar em outro lugar onde provavelmente você vai se ferrar. Todo o resto vem depois. Precaver-se de desastres, especialmente. Por exemplo, se você olha para o fim de um túnel e vê uma luz se aproximando velozmente em sua direção, você prevê que vai ser atropelado e, muito provavelmente, morrer no ensejo. Então faz alguma coisa para se salvar.

Óbvio? Óbvio pode ser para você, para mim não é mais. Para a maioria da população na maioria dos países, se precaver de surtos virais que fatalmente se seguem a festas, feriados e lockdowns meia-boca, não tem graça. Apostar na sorte, na própria e na dos outros, é cool. Os que perambulam por aí sem máscara, ou usando-a como tapa-boca, ou almoçam num restaurante podendo se alimentar em casa, ou não conseguem se manter distantes 2 metros de outros ou se esquecem de encurtar esses contatos ao máximo, passados 10 meses e milhões de pessoas que morreram porque não fizeram aquilo, decidiram viver um dia de cada vez. Nada de prever e se prevenir. Admirável. São muitos. Eu que não previ isso.

Por fim, vou focar na MORALIDADE. Nem tanto no tecido normativo – “moralidade” vem de mores ou costumes, sabia? – que mantém uma sociedade em pé (ou mais ou menos isso), e sim do seu objetivo final, que é a preservação da vida humana. Ou do seu reverso, a evitação da morte. Até uns dias estava claro para mim que os enormes investimentos feitos pelos humanos desde os tempos dos sumérios, na medicina (entre 4 mil anos a.C. e 1950 anos a.C.), e de Hamurabi (1760 a.C), em leis, seriam uma prova de quanto a sociedade apreciava isso de ficar vivo. A imagem começou a ruir, no entanto, com a queda do primeiro Boeing 137 no Brasil, ainda em março. Um Boeing 137 transporta 138 passageiros muito bem acomodados. Depois foram caindo mais de 1300. Boeings, quero dizer. Nessa semana, em um único dia (17/12), mais sete, lotadinhos. (Nos EUA foram 22.) E tudo bem. Pela TV Globo uma menina quase-sorridente recita estatísticas dos novos casos de infectados com a Covid-19, todo dia. (Evita-se incluir a cifra dos mortos por aquilo ser na hora do almoço, imagino). E tudo bem. De novo.

Ou seja, trivializamos a morte. Trocamos conversas de bar por enfermeiras se matando em UTIs. As cifras fúnebres atribuídas à Covid-19 hoje tranquilamente se confundem com as da inflação e da bolsa. Não nos chutam no estômago, nem geram urgência, indignação ou cobrança dos que deveriam tê-las evitado. Interrompem o nosso almoço um milissegundo, e são polidamente esquecidas no próximo. Depois tudo volta a um “novo normal”, caracterizado por letargia e indolência.

A lei da utilidade marginal explica isso. Da mesma forma que o primeiro pão de queijo é devorado, o décimo quinto é rejeitado… a preocupação com a desgraça, a morte – desde que seja a alheia, claro – diminui com a sua repetição e abundância.

Em um estudo de 2014, Paul Slovic, um psicólogo, descobriu que a preocupação das pessoas com aqueles em perigo não aumenta tanto quanto o número de casos. Uma pessoa próxima morre e você se sente mal. Mas se 5 ou 6 morrem, você não se sente 5 ou 6 vezes mal. Imagine, quando os mortos são mais de 185 mil!

Slovic chamou isso de “entorpecimento psíquico”. Foi elegante. Como você o chamaria?

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