Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

O que é dor e o que está acontecendo quando a sentimos?

O que é dor e o que está acontecendo quando a sentimos?

A dor é talvez a sensação mais frequente e democrática a existir entre os humanos. No entanto, até defini-la é difícil! Talvez por isso, ela não é ensinada nas faculdades de medicina, e consequentemente, os médicos em geral a consideram apenas um sintoma de uma doença qualquer, tratável unicamente via fármacos ou cirurgia. Para a maioria dos pacientes com dor, porém, remédios e faca não resolvem, e até podem piorar a situação. Nessa rua sem saída, o que eles podem fazer? Informar-se por conta própria sobre a dor e o processo doloroso, de maneira a procurar pelo médico certo, firmar expectativas realistas sobre o que se pode conseguir com tal ou qual terapia e, acima de tudo, assumir plena responsabilidade pelo próprio tratamento. Para tanto, o primeiro passo é saber o que é dor e como a processamos via mente-corpo. Eis o tema desse post.

O que é Dor?

Pode parecer uma pergunta fácil. Não é. A resposta, depende de quanto a pessoa conhece sobre a neurociência relacionada à dor. Se ela pouco ou nada sabe, vai dizer que ela vem do local onde ocorre uma injúria; onde o tecido foi danificado, enfim. A dor seria então um sinal de alerta de que algo está danificado, e que convém se proteger porque a situação pode piorar.

Parece óbvio, certo? Mas, e o grande trauma sem dor?

Às vezes, após um acidente de carro, há pessoas que se sentem completamente bem, mesmo feridas. Elas deveriam estar se queixando a mil, no entanto, reagem como se nada tivesse acontecido. É que a reação de nosso corpo ao trauma pode ser essa. Logo após um acidente, começamos a produzir adrenalina para lidar com quaisquer ferimentos que possamos ter sofrido. Em parte, é por isso que há histórias notáveis ​​de soldados na frente de batalha que não ligaram para a dor enquanto gravemente feridos.

A noção de que a dor não depende exclusivamente do que sentimos “na pele” após sofrer uma agressão é 99% contraintuitiva, claro.  A melhor maneira de desmenti-la é se dar uma martelada num dedo, por exemplo. Dessa forma, num milissegundo você conclui que a dor é a maneira do corpo dizer que algo está errado, certo? Mais ou menos. Foi pesquisando um tipo de dor – a chamada “dor fantasma” – que os neurocientistas concluíram que a explicação era bem mais complicada.

A dor fantasma

A dor fantasma, ou “dor do membro fantasma”, para sermos mais exatos, é a dor que o amputado sente na perna que não está mais aí. Eu já postei sobre isso, e até fiz um vídeo a respeito, portanto não vou me estender no tema agora.

Qual é a explicação? Ao menos três. De um lado, que a sensação resulta de uma disfunção do Sistema Nervoso Central, que reúne medula espinhal e cérebro. De outro lado, que ela seria um fenômeno puramente psicológico. Uma terceira hipótese, por fim, é a de que a explicação da dor no membro fantasma não é nem uma coisa nem outra, mas tudo isso junto.

A última explicação, gostemos ou não, serve para qualquer tipo de dor. Os que hoje a sustentam não são apenas os neurocientistas, mas profissionais oriundos de diversas disciplinas – medicina, psicologia, fisioterapia, enfermagem, biomedicina… – que concordam no seguinte: a dor não se origina no local, mas é criada pelo cérebro, no intuito de protegermos mente e corpo. O que, noutras palavras, quer dizer que a dor animal é um mecanismo de proteção complexo e altamente sofisticado sobre o qual hoje não se sabe o suficiente.

Como funciona a dor?

Nosso corpo contém nervos especializados que detectam mudanças potencialmente perigosas na temperatura, equilíbrio químico ou pressão. Esses “detectores de perigo” (ou “nociceptores”) enviam alertas para o cérebro, mas não podem enviar dor ao cérebro porque toda dor é feita pelo cérebro.

Quando você está ferido, o cérebro faz um palpite educado sobre qual parte do corpo está em perigo e produz a dor lá.

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A dor não vem automaticamente após a picada que você leva no dedão, ou do tornozelo que você torceu. A dor é o resultado da avaliação do cérebro de informações, incluindo dados de perigo do sistema de detecção de perigos, dados cognitivos como expectativas, exposição prévia, normas e crenças culturais e sociais, e outros dados sensoriais, como o que você vê, ouve e sente.

O cérebro produz dor. Onde no corpo o cérebro produz a dor é um “melhor cenário de palpites”, baseado em todos os dados recebidos e informações armazenadas. Normalmente o cérebro acerta, mas às vezes não. Um exemplo é a dor na perna quando é suas costas que podem precisar da proteção.

É a dor que nos diz para não fazer as coisas – por exemplo, não levantar a mão machucada, ou não andar com um pé machucado. É a dor, também, que nos diz para fazer as coisas – ver um fisioterapeuta, visitar um médico, sentar e descansar.

A dor não depende exclusivamente do que sentimos “na pele” após sofrer uma agressão.

Agora sabemos que a dor pode ser “ligada” ou “apareceu” por qualquer coisa que forneça ao cérebro evidências críveis de que o corpo está em perigo e precisa de proteção.

Tudo na cabeça?

Então, a dor é tudo sobre o cérebro e não tudo sobre o corpo? Não, esses “detectores de perigo” estão distribuídos em quase todos os nossos tecidos corporais e agem como os olhos do cérebro.

Quando há uma mudança repentina no ambiente tecidual – por exemplo, ele aquece, fica ácido (a queimadura de ácido láctico no final de uma corrida), é esmagado, espremido, puxado ou beliscado – esses detectores de perigo são nossa primeira linha de defesa.

Eles alertam o cérebro e mobilizam mecanismos inflamatórios que aumentam o fluxo sanguíneo e causam a liberação de moléculas curativas de tecidos próximos, desencadeando assim o processo de reparação.

O anestésico local torna esses detectores de perigo inúteis, então as mensagens de perigo não são acionadas. Como tal, podemos ser livres de dor apesar de grandes traumas teciduais, como ser cortado numa cirurgia.

Só porque a dor vem do cérebro, não significa que “está tudo na sua cabeça”.

A inflamação, por outro lado, torna esses detectores de perigo mais sensíveis, de modo que eles respondem a situações que não são realmente perigosas. Por exemplo, quando você move uma articulação inflamada, dói muito antes que os tecidos da articulação sejam realmente estressados.

Mensagens de perigo viajam para o cérebro e são altamente processadas ao longo do caminho, com o próprio cérebro participando do processamento. Os neurônios de transmissão de perigo que correm até a medula espinhal até o cérebro estão sob controle em tempo real do cérebro, aumentando e diminuindo sua sensibilidade de acordo com o que o cérebro sugere que seria útil.

Assim, se a avaliação do cérebro de todas as informações disponíveis leva-o a concluir que as coisas são realmente perigosas, então o sistema de transmissão de perigo torna-se mais sensível (chamado facilitação descendente). Se o cérebro conclui que as coisas não são realmente perigosas, então o sistema de transmissão de perigo torna-se menos sensível (chamado inibição descendente).

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A avaliação do perigo no cérebro é extremamente complexa. Muitas regiões cerebrais estão envolvidas, algumas mais comumente que outras, mas a mistura exata de regiões cerebrais varia entre indivíduos e, de fato, entre momentos dentro dos indivíduos.

Entender como a dor emerge na consciência requer que entendamos como a própria consciência emerge, e isso é muito complicado.

Para entender como a dor funciona na vida real, podemos aplicar um princípio razoavelmente fácil: qualquer evidência crível de que o corpo está em perigo aumenta a probabilidade e intensidade da dor. Qualquer evidência crível de que o corpo está seguro a diminui. É tão simples e difícil como isso. 

Implicações para a dor crônica

Na dor crônica, a nossa sensibilidade à dor aumenta por conta de uma falha no Sistema Nervoso Central. Dentre várias teorias explanatórias, atualmente essa parece ser a mais plausível.  Cabe a esse sistema preservar um delicado equilíbrio entre as mensagens de perigo enviadas ao cérebro e o que este interpreta e faz para decretar dor e proteção condizente. Por algum motivo, ainda pouco claro, essa relação entre a dor e a verdadeira necessidade de proteção se distorce: ficamos superprotegidos pela dor. Grosso modo, o cérebro é enganado e decreta dor desproporcional em relação ao estímulo nocivo recebido.

Esta é uma razão significativa para que não haja correção rápida para quase todas as dores persistentes, crônicas. A recuperação requer uma jornada de paciência, persistência, coragem e bom treinamento. As melhores intervenções se concentram em treinar lentamente nosso corpo e cérebro para não serem exageradamente protetores.

Para tanto, precisamos reduzir evidências críveis de perigo e aumentar evidências críveis de segurança.

O primeiro requer se informar direito sobre a dor, sem acreditar piamente na explicação biomédica, superconfortável para quem a dá, para quem a ouve e para quem lucra com isso.

O segundo, especialmente em se tratando de dor crônica, consiste em usar o aprendido sobre dor para estimular as próprias vias e mecanismos de redução de perigo do corpo. Isso é facilitado pela segurança resultante de compreender como a dor funciona, as terapias para enfrentá-la e as expectativas realistas que se deve ter sobre os resultados.

Baseado no post “Explainer: what is pain and what is happening when we feel it?”, publicado em 18/11/2015, de autoria do Dr. Lorimer Moseley.

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