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O que eu aprendi sobre dor crônica jogando rúgbi

O que eu aprendi sobre dor crônica jogando rúgbi

Todo esporte coletivo oferece aos que o praticam a oportunidade de aprender lições de vida em campo. Poucos esportes oferecem lições de vida tão influentes quanto as que aprendi jogando rúgbi. São ensinamentos doídos, difíceis de assimilar, porém muito úteis para progredir profissionalmente, criar filho(a)s, enfrentar tragédias pessoais… e também para lidar com a dor crônica. Especialmente quando o portador, embrutecido pela sua condição e sem ver possibilidade de cura, pensa no que nesse momento de desânimo parece mais fácil: desistir.

“Você pode ser a única pessoa que ainda acredita em você, mas é o suficiente.”

– Anônimo

Autor: Julio Troncoso

Eu joguei rúgbi até os 30 e tantos anos. Nos 4 países em que morei até essa idade. O Brasil foi o último. Devo ter ganho a minha dor crônica cervical numa batida recebida nessas andanças. Ou não. Nunca saberemos. Uma vez e outra eu jogo a culpa no rúgbi já que é um esporte de contato, razoavelmente violento, embora muito leal. Não é difícil apanhar feio praticando-o, e eu apanhei várias vezes. Eu e mais os outros 14 jogadores que integram um time.

Por que eu estou relatando essa estória aqui? Ela tem algo a ver com dor crônica? Pois tem, muito a ver. Como os portadores dessa dor, mais precisamente. Apenas me conceda um par de minutos para eu chegar lá.

Eu apanhei legal, eu estava dizendo. Lembro de um dia invernal muito frio, enfrentando um time francês. Exatamente onde e quando, isso não sei. O que importa é que foi uma dessas ocasiões em que os astros se acertam entre si para sacanear você e os seus, ao máximo. Nada deu certo, a chuva, o campo pesado, os outros eram muito grandes e batiam muito, o juiz não parava o jogo para permitir um respiro, e tome pancada. Pois é.

Já bem no meio do segundo tempo, deu um branco. Primeiro, nas pernas, que ficaram feito lã, ou alguma outra substância mole, muito mole. Depois, na barriga, que encolheu. Os braços em seguida, que pareceram abandonar o corpo, de tão inertes. E finalmente no cérebro, onde ressonava apenas uma consigna: “Desiste!”. Ou “Cai fora!”, “Sai daí!”, ou algo assim.

Nesse momento, na minha imaginação, eu me vi, não, eu me senti levitar. Flutuar, deitado numa nuvem acolchoada…o u numa tina de água quente… assistido efusivamente pelas 40 huríes, as virgens prometidas aos homens islâmicos bem-aventurados pelo Corán… e tudo isso apenas por pensar em jogar a toalha.

Não a joguei. O pouco que de mim restava continuou em campo, apanhando, até o último apito. Eu não desisti. Por que o fiz? Até hoje me pergunto isso. Era um jogo amador, nada de contrato, luvas etc. – até a minha camiseta eu mesmo lavava. Se eu tivesse desistido não ia preso, nem pagava multa, nada…

Por que o fiz? Mistério. Talvez por uma questão de lealdade, por pensar que ia deixar meus companheiros na mão. (Simbolicamente, claro, porque as minhas pernas já não davam para algo mais concreto.) Ou porque eles, e suas famílias, e até seus animais de estimação com certeza repudiariam o meu ato falho. Por medo do escárnio social, enfim. Ou porque as regras do rúgbi prescrevem 15 jogadores por time, durante 2 períodos de 40 minutos, nem mais nem menos. Ou seja, havia regras prescritas que deviam ser seguidas. Ou foi porque, quem diria!, havia mesmo algo de valor, de dignidade, e de autorrespeito em mim, parecido com o que eu (fora do campo) me gabava diante dos outros de possuir? Enfim, talvez fosse por ter intuído que nesse momento era um teste para eu mostrar de que matéria estava feito. Eu não lembro.

Porém, o fato é que nesse momento de extrema, absurda fraqueza, a minha mente achou argumentos para não obedecer o que o corpo queria, e desistir.  Mais importante, esses argumentos eram válidos, tanto assim que me mantiveram em campo – ou ao menos a parte de mim que ainda ficava na vertical.

Lembrei daquele episódio respondendo aos visitantes do blog Dor Crônica e do Fibrodor, que reagem às matérias postadas em ambos. Relatos de todo tipo, a maioria comoventes, sobre dores terríveis, tratamentos inúteis e, na maioria dos casos, a ideia de desistir.

Desistir. O ultimo refúgio de quem pensou que encontraria – refúgio, quero dizer – na orientação segura de médicos sabidos, na infalibilidade dos fármacos, nas injeções de corticoides, nas sessões de acupuntura, nas Flores de Bach… e nada. Desistir. Desistir para poder desfrutar de uma espécie de calmaria pré-morte; da paz de quem se sabe derrotado e não tem o que mais defender.

Até entendo o impulso. O mesmo que quase tomou conta de mim naquele jogo de rúgbi. O grau de esgotamento de quem passa anos lutando contra uma dor persistente que, amiúde, nem explicação tem, é exponencial. Às vezes, a família, os amigos, o trabalho e a própria vida saem pela janela no ensejo e não há mais nada a perder. Para que lutar?

Quando visamos metas inatingíveis, temos que nos afastar e aceitar que nossas energias são melhor gastas em outro lugar. Desistir não é fracasso, mas um reconhecimento de que há melhores usos para nosso tempo e recursos. Certo?

Talvez, quando há margem para isso. Para desistir. Não é o caso de quem sofre com dor crônica, mesmo severa. Esse sintoma pode até estar relacionado a uma doença ou síndrome, como a artrite reumatoide ou a fibromialgia,  porém ainda não é uma doença terminal. Uma que justifique morte assistida ou suicídio. Considerações religiosas a parte, não é. E isso condena o paciente a continuar vivendo. Mesmo com dores severas. Paciência.

Mesmo com dor, é preciso insistir nisso de respirar, comer, escovar os dentes etc. E o diabo é que se você se dispõe a fazer apenas isso, vai arrumar piores problemas para si. Render-se à dor vai enfraquecer você, fazê-lo(a) perder imunidade e consequentemente atrair outras doenças crônicas. O que, fatalmente, irá agravar a sua situação – a sua dor, inclusive. Cá entre nós, um péssimo negócio. Não é uma opção.

Então, o que fazer? Lutar.

E se você está esperando eu pregar o que venho pregando há 4 anos, que isso significa estudar seriamente sua dor e seus sintomas, traçar um plano de recuperação (de preferência com ajuda médica, mas não obrigatoriamente), aprender técnicas de relaxamento e práticas para lidar com surtos de dor, mudar a ergonomia e adotar hábitos saudáveis… está enganado.

Eu pensava que era esse o primeiro passo. Errado, de novo.

O primeiro passo é descobrir por que lutar. O motivo, ou os motivos, que conduzem à ação motivada. O paciente crônico precisa enfrentar a dor, saber conviver com ela sem se deixar dominar por ela, e isso requer compromisso. Sem compromisso, não há comportamento que se sustente enquanto a dor crônica perdurar… e essa dor perdura pelo resto da vida.

Eu, louco por fugir dos “franchutes” naquela tarde cinzenta, optei por ficar em campo. Naquela hora, nem saberia dizer por quê. O fiz inconscientemente, claro. O que não quer dizer que razões não existissem na minha mente: lealdade com os meus companheiros, vergonha de me sentir tão covarde, desejo de impedir a realidade revelar o fake que eu talvez fosse… sei lá. Hoje eu sei que muito do nosso comportamento vem de coisas que guardamos no inconsciente, e que nem sabemos que ali estão. O fato é que razões escondidas lá no fundo do meu cansaço, me mantiveram em campo.

O paciente com dor crônica está em situação semelhante: impedido de desistir porque essa não é uma opção a seu dispor, eu já disse. Porém, se for só por isso que ele ou ela vier encarar a sua dor e os sintomas coadjuvantes de praxe, o meu prognóstico não é bom. Corre o risco de perder o ânimo no primeiro surto de dor que pegar pela frente. É necessário achar dentro de si combustível motivacional de alta octanagem.  Descobrir argumentos fortes para, enfim, seguir à risca o tratamento medicamentoso, praticar atividade física consistentemente, mudar hábitos de alimentação e a postura física, eliminar pela raiz relações interpessoais tóxicas e sair da cama todo dia na mesma hora faça chuva, faça sol, etcétera.

Que argumentos seriam esses? Nem ideia. Hoje eu sei dos meus, os seus cada qual descobre pela própria conta. Eis o primeiro passo a ser dado por quem é portador de uma dor crônica não maligna, para assumir o controle do próprio destino.

TRÊS LIÇÕES DE VIDA QUE O RÚGBI ENSINA A QUEM VIVE COM DOR
Você tem que jogar mesmo com dor Assim como no resto da vida, choramingar no campo de rúgbi não leva a lugar nenhum. O rúgbi ensina aos jogadores que a melhor maneira de lidar com a dor é ficar de pé e tentar novamente.
A vida não vem com um manual de segurança No rúgbi, os jogadores têm pouca ou nenhuma proteção, apesar de participarem de algumas das competições mais físicas do mundo esportivo. Assim como na vida, não há almofada para protegê-lo de golpes pesados, em vez disso, você depende de sua própria resiliência para passar.
Paixão e Compromisso são tudo Qualquer um que faça algo na vida, como no rúgbi, nunca alcançará o melhor de suas habilidades, a menos que mergulhe com o coração e a alma. Como na vida, com o rúgbi, se você fizer uma corrida ou tentar um tackle sem se comprometer totalmente, você nunca vai sair tão bem quanto se você colocar tudo nisso.
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