Psicologia da Dor - by dorcronica.blog.br

O psicólogo da dor: mais uma bengala para o paciente com dor crônica?

A dor crônica costuma vir acompanhada de ansiedade, catastrofismo e sentimentos de solidão e abandono – entre outras pérolas. E a nova neurociência da dor não para de apresentar provas de que existe um cérebro emocional cada vez mais diversificado neuralmente, abrigando emoções e cognições que colaboram, junto com outras informações sensoriais e ambientais, a modular a dor. Assim as coisas, médicos e fisioterapeutas deveriam abrir espaço para psicólogos no mercado da dor?

“A dor é um fenômeno físico objetivo; o sofrimento é a nossa resistência psicológica ao que acontece. Os acontecimentos podem criar dor física, mas por si só não criam sofrimento. A resistência cria sofrimento.”

– Dan Millman

Uma pergunta retórica, claro. No Brasil Brasil, atualmente nenhuma profissão é dona do mercado da dor. Ou sequer manifesta interesse em sê-lo. Agora dividir espaço na carteira dos pacientes/clientes e, quem sabe, até no caixa das gestoras de planos de saúde, já é uma outra história capaz de dar crime de sangue. Mas não me interessa examinar aqui esse delicado ângulo da questão, e sim, focar no significado do psicólogo da dor para o paciente. Um otimista diria que, claro, este seria de uma grande ajuda, etcétera e etcétera, pelos motivos acima mencionados. Mas não percamos tempo com o óbvio.

O lado do pessimista é mais interessante. O seu receio é que o ingresso do psicólogo da dor como parte atuante – tanto quanto um médico e um fisioterapeuta – num tratamento de dor crônica pode vir a alienar o paciente mais do que ele já está. Alienar, no Aurélio, tem dois significados: “transferir para outrem o domínio ou a propriedade de algo, e tornar(-se) separado”. As duas acepções, juntas, se aplicam perfeitamente ao típico paciente com dor persistente: um bípede que, de mês em mês, de ano em ano, peregrina de consultório em consultório buscando a quem delegar a responsabilidade pelo seu tratamento. Ele quer transferir uma responsabilidade que é sua, e ao mesmo tempo, afastar-se da dura realidade – a de que ninguém estará mais interessado em livrá-lo da dor, do que ele mesmo.

Esse comportamento hedonista – a busca do prazer como valor vital – é milenar. O Prozac é um exemplo recente. Em 1988, o lançamento desse antidepressivo sufocou uma busca nascente por alívio da dor crônica via tratamentos não invasivos (ex.: ioga & Cia). Ele funcionou tão bem que em Nova Iorque muito psiquiatra teve que sair a batalhar a vida como taxista. Assim como também muito doente de dor crônica nas costas continuou desinteressado em se exercitar. Os resultados? Nas últimas três décadas o número de pessoas tratadas com antidepressivos nos Estados Unidos Estados Unidos, por exemplo, triplicou – hoje ao menos 1 em 10 americanos os toma, enquanto cresce também o número de admissões hospitalares por doenças ligadas à… depressão.

“Mais comumente, um psicólogo da dor faz parte de uma equipe multidisciplinar de tratamento da dor…”

A dor crônica nas costas, uma dor que muitos médicos consideram ser exclusivamente sensorial, não fica atrás. Mesmo após o surgimento de várias técnicas invasivas e não invasivas (…), continua disputando com o câncer o podium das doenças mais populares em todo o mundo. Assim, nos últimos anos virou uma praxe médica prescrever antidepressivos para tratá-la, com algum grau de sucesso, embora ninguém consiga explicar o mecanismo neural do alívio ou se este ocorre por conta do efeito placebo.

Os pessimistas receiam que o psicólogo da dor venha a ser o Prozac da vez no tratamento da dor crônica. Ou seja, uma bengala terapêutica que exima o paciente do desprazer de ter que aprender sobre dor (Onde? Como? Quando?); sair à rua buscar um médico especializado em dor crônica (Uma agulha num palheiro?); participar ativamente com um fisioterapeuta na montagem de um programa de exercícios graduado (Por que eu?), cumprir esse programa à risca (Arghhhh!!), e outras tantas atividades consumidoras de tempo, paciência e dinheiro. Todas elas, obrigações inescapáveis para quem padece de dor crônica, que, no entanto, na prática têm rara aceitação.

Os psicólogos são especialistas em ajudar as pessoas a lidar com os pensamentos, sentimentos e comportamentos que acompanham a dor crônica.

Por fim, tem-se o que o filósofo e neuropsicólogo escreve em Silent Land: Travels in Neuropsychology, Thought, um texto provocativo, cruel e honesto. Broks diz de forma bastante direta que neurologistas e psicólogos estão trabalhando com algo sobre o qual não sabemos uma fração das respostas. Os que trabalham como especialistas em uma área supõe-se que entendam exatamente o que estão fazendo. Se eles estão construindo um motor, eles conhecem todas as peças e suas conexões. Eles sabem o que acontecerá se deixarem algumas de fora ou se uma ou outra quebrar. É muito diferente, todavia, trabalhar com um órgão, o cérebro, que ainda pouco entendemos. É muito estranho – e temerário – tentar ser um especialista em algo que você não entende remotamente.

Eu não sou tão pessimista. O psicólogo da dor pode, sim, se adentrar com vantagens no território do manejo da dor por vários motivos.

O primeiro deles é que outros profissionais da saúde relutam em se habilitar a tanto – por motivos que não cabe aqui ventilar.

Em segundo lugar, a consulta do psicólogo é 3 ou 4 vezes mais demorada que a do médico, o que permite a ele dedicar tempo à terapia da fala ou coisa parecida, algo essencial para facilitar a interação entre as partes.

Terceiro, a intervenção do psicólogo não requer que, durante essa interação o paciente se distraia levantando pesos ou mantendo a boca aberta, o que é uma vantagem competitiva face a fisioterapeutas e dentistas.

Em quarto lugar, por definição mudar antigas crenças sobre a dor, desenvolver novas habilidades de enfrentamento e abordar qualquer ansiedade ou depressão que possa acompanhar sua dor, tem tudo a ver com o que os psicólogos aprendem e, eu suponho, também praticam.

Por fim, o psicólogo está habilitado – como outros profissionais da saúde, aliás, também o estão – a ajudar o paciente a assumir uma atitude fundamental para ele sair da situação em que está: aprender a desafiar quaisquer pensamentos inúteis que tenha sobre a dor. Numerosas crenças sobre a dor comprovadamente colocam os pacientes em maior risco de falhar na execução do tratamento, entre eles a catastrofização da dor (uma interpretação exagerada e negativa da dor), a evitação do medo (uma crença de que todas as atividades devem ser evitadas para reduzir a dor) e as baixas expectativas em relação à dor. Fazemos como pensamos, então é natural que essas crenças atrapalhem qualquer recuperação de um estado de dor crônica. Avaliar as crenças desses pacientes sobre a dor pode ser ainda mais importante do que chegar a um diagnóstico definitivo ou explicar que fatores contribuíram para o início da dor.

Em suma, nada contra o advento do psicólogo da dor, se este abraçar como principal objetivo o de convencer o paciente – via o meio que for, de TCC (Terapia Cognitiva Comportamental) a biofeedback, passando por hipnose – a tornar-se dono do seu problema, e por consequência, de seu tratamento, o que normalmente exige uma mudança de pensamento e de atitude perante a dor e a vida com dor. Caso contrário, a figura do psicólogo somente vai introduzir mais ruído num sistema de saúde já desafinado.

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