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O efeito borboleta enquanto a quarentena agoniza

O efeito borboleta enquanto a quarentena agoniza

O isolamento social foi para o buraco no Brasil (em boa parte) por falta de uma estratégia de comunicação populacional de parte das “Otoridades”. Não é que essa estratégia foi equivocada, mentirosa demais ou inepta – ela simplesmente não existiu. Essa missão foi entregue à mídia, que fez o que pode. A missão da mídia, porém, é informar; ela é incapaz de criar consciência coletiva em prol de uma proposta – “Fique em Casa” – por demais ingrata. Cientista definitivamente nada entende de marketing.

“Hoje em dia, as pessoas querem aprender antes de comprar, ser educadas em vez de palavreadas”.

– Brian Clark, mercadólogo

Ontem lembrei de um século atrás (começo de abril, se não me engano) o ilustre Prefeito de Fortaleza especulando sobre o pouco caso dos moradores da cidade aos chamados oficiais para ficarem em casa. Na época, Fortaleza congregava 70% dos casos confirmados de coronavírus no estado, e o Ceará era o epicentro da epidemia no Nordeste.1

Ele apontava, perplexo, para a “falta de consciência” de seus conterrâneos.

Pano rápido.

Lembrei disso porque ontem assisti a um apresentador de notícias pela TV inquirir, também perplexo, um acadêmico da USP, sobre o fracasso do isolamento social no estado mais letal do Brasil, São Paulo. O erudito falou em “falta de educação”, e claro, aproveitou a deixa para elogiar o apresentador, uma vez que a TV teria um grande papel educador “no combate ao Covid 19”, etcétera.

Os dois episódios têm se repetido inúmeras vezes: gente sabida simplesmente não entende porque metade dos brasileiros insiste em arriscar morrer eles próprios ou sair por aí matando o próximo, apesar desse risco ser cientificamente inquestionável.

Essa perplexidade é curiosa. A pessoa é erudita, culta, viajada…e, no entanto, entende nada sobre a origem do comportamento humano. Aprendizado, chama isso. Todas as nações do mundo – dados da Unesco – investem nada menos que 15% dos seus orçamentos, em média, em educação. No Brasil, as famílias mais pobres comprometem cerca de 11% da renda familiar em educação.2 Se os pais quisessem que seus filhos só se informassem deixavam eles em casa assistindo televisão (se tiver). Não fazem isso porque o objetivo é que o(a) filho(a) aprenda a se comportar civicamente, comercialmente, culturalmente etcétera.

Em síntese, informar é uma coisa, educar é outra. Se você quer que a pessoa fique impressionada, ou entenda uma mensagem, informe-a. Porém, se a ideia é criar consciência para que ela se comporte de determinada maneira, então amigo, tem somente duas opções: educar ou coagir (“Olha aí, se você não fizer, vou baixar um lockdown, viu?”).

Pois bem, as “otoridades” oficiais, em geral, têm insistentemente se preocupado em informar e (absolutamente) não em educar. Saber que você precisa lavar as mãos e tudo mais, que haverá um lockdown “pero no mucho” a partir de certa data, que “todas as decisões do Governo são pautadas na ciência”, informa, mas não educa e, portanto, não cria consciência.

Não, não estou sendo injusto com os esforços do Governador e seus assessores científicos e médicos, que muito têm se esforçado por evitar a derrocada do isolamento social. Estou, sim, opinando que é inócuo recorrer à comunicação acadêmica, ou de negócios, ou até mediática… lançando mão da mesma linguagem usada nos seus ramos de negócio, quando a necessidade é fazer comunicação populacional.

Dê uma olhada no Plano de Retomada Consciente (???!!!) apresentado (27/05/20), pelo Governador Dória, derivado do Plano São Paulo, comentado por mim nessa semana. Uma apresentação em powerpoint.

Quem, quando mais na periferia de qualquer capital brasileira, vai ver nesse artefato – preciso e graficamente perfeito como um bom powerpoint deve ser, claro – algo minimamente capaz de gerar consciência suficiente para ficar em casa direto e lavando as mãos a cada meia hora?

Os assessores de comunicação do Governador – ou ele próprio, um grande comunicador televisivo – devem pensar que estão no décimo quinto andar de um prédio na Faria Lima apresentando um projeto para investidores do Abu Dahbi Fund for Development!

“Em termos populacionais, a mensagem precisa ser forte, precisa ser consistente e precisa ser repetida: precisamos exercitar o máximo distanciamento social”.

– Dr. Raphael Viscidi, professor de pediatria na Faculdade de Medicina Johns Hopkins

Em suma, no combate ao coronavírus, o Brasil perdeu a batalha da comunicação em massa da qual muito dependia conter o inimigo em tempo.

Nem precisa dizer que faltou:

  • o Grande Líder Comunicador – que sobrou na Alemanha e na Nova Zelândia; e
  • o uso dessa grande arma de comunicação em massa que é a internet – como fizeram os coreanos.

Porém, o que mais faltou foi pedagogia. Ou seja, explicar pedagogicamente o por que algo deve ser feito antes do como fazê-lo.

Precisa lavar as mãos com água e sabão? Então mostre antes:

  • com que facilidade o vírus chega nas mãos,
  • quantas vezes uma pessoa inadvertidamente leva as mãos à face em apenas uma hora (23 vezes), e
  • o que acontece nos pulmões, e depois no intestino, e no cérebro, e no sistema cardíaco… em apenas 2 ou 3 dias, após o vírus tomar conta.

Ah, ia me esquecendo. Você já ouviu falar no Efeito Borboleta? Isso de que o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo? 3

Pois bem, aqui e agora esse seu ato pode ter por contrapartida alguém entrando de maca num hospital, do qual tem 50% de chances de não sair vivo. Dito de outra forma, em duis ou três quadras, provavelmente você assassina alguém. Sim ou não?

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