Terapias Alívio da Dor & Outros - by dorcronica.blog.br

O burnout é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde. E daí?

Burnout

O burnout, ou esgotamento no trabalho, acaba de ser incluído pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11). O que isso significa em termos práticos para os afetados pela síndrome, seja no ambiente da saúde ou em qualquer outro, aqui e agora? Esse artigo sugere que não convém ter grandes ilusões a respeito.

“Não há nada mais enganoso do que um fato óbvio.”

– Arthur Conan Doyle – Sherlock Holmes

Os médicos empregados da Prefeitura da Cidade de São Paulo ameaçam com entrar em greve. A Justiça do Trabalho não permite. Como os dois lados tem razão, a pendência tem chance de continuar indefinida, no Fórum, que dá na mesma. Nesse caso, a questão do burnout deverá vir à tona. Afinal, não há como negar que boa parte desses médicos esteja sofrendo com essa condição e a Organização Mundial da Saúde (OMS) acaba de oficializá-la como “fenômeno ocupacional” na 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11).

Caso você não saiba, isso pesa. Uma condição de saúde ser classificada como “doença” no CID equivale a um meliante tirar um doutourado na Harvard, mais ou menos. Promovida a “doença”, a própria passa a ser pesquisada cientificamente, entra na mira das faculdades de medicina, livros sérios são escritos sobre ela, influencers fazem lives a respeito e, acima de tudo, justifica pleitear a sua inclusão em planos de saúde, e processos trabalhistas.

Teoricamente, isso pode dar gás ao pleito dos médicos paulistanos. E aos médicos gaúchos, chilenos, franceses, etíopes e sul-coreanos, também. A pandemia exauriu todos os que trabalham na linha de frente.

Ah, mas você não é médico, por que isso deveria lhe interessar? Porque mesmo trabalhando para alguém, você pode se estressar nessa toada a ponto de ficar doente – eis o burnout.

(Apesar de inspirado no que ocorre na prestação de serviços de saúde, a OMS fala em “contexto ocupacional”, sem distinguir entre um hospital, uma fábrica de autopeças, ou uma academia. Por outro lado, esclarece também que o burnout refere-se especificamente a fenômenos no contexto ocupacional e não deve ser aplicado para descrever experiências em outras áreas da vida.)

Mas vamos por partes.

Eu já comentei aqui sobre o burnout em pelo menos 5 ocasiões, nos últimos dois anos. Respondi às perguntas de praxe:  O que é o burnout? A quem afeta? Por que agora se preocupar com isso? Quais são seus efeitos? O que fazer para evitá-lo? E confesso ter chamado a atenção de quase ninguém; nem sequer quando me referi ao burnout no setor da saúde, o das médicas inclusive – justamente a atual justificativa da OMS para incluir o burnout na CID-11.

Hoje entendo melhor o porquê. É que a celeuma sobre o burnout que a mídia festeja a cada certo tempo não passa de um “pum mediático”. Na prática, leva a nada – ou quase. Principalmente, para quem sofre com burnout, uma vez que “levar a algo” seria promover uma legislação trabalhista cobrindo plenamente o assunto, definindo métricas claras facilitando a medição e fiscalização do fenômeno, bem como compensações para os esgotados e penalidades para os provocadores etc.

Isso não vai acontecer. Não, no meu tempo de vida, ao menos. No momento, paradoxalmente é a Organização Mundial da Saúde que fornece os motivos.

Conceito do burnout indefinido

De cara, a OMS começa ambígua ao caracterizar o burnout como um “fenômeno ocupacional”, e não como uma “condição de saúde”. Estranhamente, ele seria causado por:

“… razões pelas quais as pessoas entram em contato com os serviços de saúde, mas que não são classificadas como doenças ou condições de saúde.”

De outro lado, a CID-11 define o burnout como:

“… uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso.”.

Mas o que é uma síndrome? A definição corriqueira é “… um conjunto de sinais e sintomas que define as manifestações clínicas de uma ou várias doenças ou condições clínicas, independentemente da etiologia que as diferencia.”

Então, o burnout não seria uma condição de saúde, embora seja ele causado por uma síndrome… que é uma condição de saúde! Freud explica.

Mensuração do burnout improvável

“… uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico…”, lembremos.

E o que é “estresse crônico”? Segundo o Yale Medicine’s Interdisciplinary Stress Center, da Yale School of Medicine, da – você adivinhou – Yale University, este seria:

“Uma sensação consistente de se sentir pressionado e sobrecarregado por um longo período de tempo.”

Mas como medir isso? Ora, a única maneira é aplicando aos funcionários (ex.: médico(a)s num hospital) um mesmo questionário sobre a sintomatologia do burnout, várias vezes durante meses. E mesmo assim, a subjetividade seria incontornável. Os indivíduos questionados contariam o esgotamento que sentem em momentos distintos das suas vidas dentro e fora do local de trabalho. Suponhamos que na primeira medição, Fulano é um feliz pai de família e na terceira está às voltas com o seu divórcio…O burnout dele? Piorou, seguramente. Porém, o que tem a ver o seu trabalho no hospital com isso?

Continuemos,

A CID-11 diz que o burnout é caracterizado por três dimensões:

  • Sentimentos de esgotamento ou exaustão de energia
  • Aumento da distância mental do trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho
  • Eficácia profissional reduzida

Não é por nada que a OMS está sediada na Suíça. Somente cientistas suíços, inspirados pela brisa alpina, eu suponho, estão capacitados para mensurar “sentimentos” ou “distância mental”. E quanto à “eficácia profissional”, a única característica passível de medição… uma queda nessa variável significaria reduzir o quê? Quanto? Em que período? Mesmo que houvesse respostas para essas questões, provavelmente nenhuma delas se sustentaria numa audiência de conciliação na Justiça do Trabalho.

Conclusão: enquanto o conceito do burnout permanecer vagamente definido e difícil de ser mensurado, mesmo na área em que ora está confinado – a do local de trabalho – quem reclamar vai por esse caminho – o trabalhista – eu suspeito que vai dar com os burros n´água.

Cadastre-se E receba nosso newsletter

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

CONHEÇA FIBRODOR, UM SITE EXCLUSIVO SOBRE FIBROMIALGIA
CLIQUE AQUI