Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

O burnout do médico? Não, o burnout do paciente

O burnout do paciente

Em tempos de pandemia é natural associar a palavra “médico” com a palavra “esgotamento”. Nada mais apropriado. Porém isso inadvertidamente ofusca, ou até oculta, a situação do paciente que carrega uma doença ou uma dor crônica. Esse indivíduo também vive esgotado. É o burnout. Essa condição de esgotamento se agrega à doença e/ou à dor que ele ou ela já tem – pior ainda, provavelmente a agrava – e, no entanto, a medicina clínica a vê como um detalhe subjacente, sem significância por si mesma.

Contudo, há evidências de pesquisa apontando reduções importantes na memória não verbal e atenção auditiva e visual em pacientes com burnout crônico. Estes apresentam comprometimentos cognitivos específicos, que devem ser enfatizados na avaliação dos sintomas e nos regimes de tratamento desse transtorno. Esse é apenas um exemplo da necessidade de os profissionais da saúde passarem a considerar o paciente crônico com burnout, como uma entidade única, diferenciada.

“A causa nº 1 do esgotamento é fazer a mesma coisa repetidamente e não ver resultados”.

Steve Kaczmarski

“Subi as escadas para meu apartamento depois de minha terceira consulta médica naquela semana, sentindo-me física e emocionalmente exausta.

Uma injeção e meu punhado de pílulas da tarde esperavam por mim na cozinha. Antes que eu pudesse preparar a seringa, meu telefone tocou com uma ligação da farmácia local. A medicação encomendada estava em falta. Uma hora depois, um pequeno surto. A dor que deveria estar no pescoço surgiu no antebraço. Mesmo assim, eu fui atrás de outra farmácia.

Quando chegou as 18 horas, eu estava cansada demais para preparar a refeição leve, a única que meu estômago tolerava no jantar. Eu só queria rastejar para a cama, tomar a minha medicação para dormir e… não pensar no dia de amanhã.”

Eis um relato típico dos que visitantes do blog remetem toda semana. A tendência de quem o lê é se perguntar: que doença crônica essa mulher tem? Ou, que dor crônica ela sente?

Certo? Foi o que você pensou? Bem, eu vou convidá-lo a pensar diferente, a examinar outro ângulo: o do que significa carregar uma doença e/ou uma dor crônica o dia todo, todos os dias.

O nome disso é burnout.

Você estranhou, claro. Já ouviu esse termo relacionado a médicos: esgotamento extremo por causa do trabalho. Do exercício da medicina clínica, mais precisamente. Eu já postei duas matérias sobre isso.1

Porém, como não sou médico, de repente comecei a pensar que o burnout não tem por que ser monopólio de médico(a)s e enfermeiro(a)s.2

E pensando como paciente crônico, que eu sou, conclui que essa forma de exaustão perfeitamente poderia me alcançar também.

Ao invés do burnout do médico, então, eu postulo o burnout do paciente. Mais precisamente, do paciente portador de uma doença crônica, ou de uma dor crônica, ou de ambas as condições juntas, muito juntas.

Nesse post eu vou apresentar os meus argumentos.

O que é o burnout?

O burnout, esgotamento profissional ou estresse crônico no trabalho é, antes de mais nada, um distúrbio psíquico de caráter depressivo. Ele foi definido pela primeira vez pelo psicoanalista Herbert J. Freudenberger no Journal of Social Issues em 1974 como decorrente de “(…) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional”.3

A OMS cuidou de circunscrever o burnout “… especificamente a fenômenos relativos ao contexto profissional e não deve ser utilizado para descrever experiências em outros âmbitos da vida”.

Psicólogos portugueses, autores de um bom artigo sobre o fenômeno, vão mais fundo. O burnout seria “… uma resposta prolongada a estressores interpessoais crônicos no trabalho”, e resultaria “… da percepção por parte do sujeito de uma discrepância entre os esforços realizados e os alcançados no seu trabalho”.4

Eu prefiro uma definição ainda mais rasteira:

“Burnout é o que acontece quando você tenta evitar ser humano durante tempo demais”

Michael Gungor, autor de The Crowd, The Critic And The Muse: A Book For Creators.

O esgotamento médico é frequentemente discutido apenas no contexto de profissionais da saúde, como médicos, enfermeiras e assistentes sociais – profissionais que parecem particularmente investidos na tentativa de atender às necessidades de seus clientes, apesar das altas cargas de trabalho e recursos limitados.

O burnout seria uma resposta psicológica a estressores crônicos relacionados ao trabalho, como dias de trabalho excessivamente longos, altas cargas de trabalho e recursos insuficientes para realizar o trabalho.5 Com o tempo, essas demandas de trabalho tornam-se opressivas, esgotando os recursos emocionais e físicos dos indivíduos. Consequentemente, o burnout é caracterizado por sentimentos de exaustão emocional, distanciamento dos outros e percepções diminuídas de realização pessoal.6

Ok, eu entendi tudo, mas tudo isso também acontecia comigo nos piores momentos da minha existência como paciente crônico!  A meu ver, um paciente com condição crônica “em tempo integral”, também pode sofrer de esgotamento… pelo fato de levar uma vida de paciente crônico.

Esgotamento este, derivado de:

  • Impedimentos físicos devido a problemas de mobilidade
  • Medicamentos nem sempre disponíveis, que precisam ser tomados religiosamente e nos momentos certos
  • Estigmatização
  • Sentimento de culpa em relação a outros
  • Estresse causado pelo medo da dor

Pois bem, essas vicissitudes todas não passam batidas, elas cobram um preço ao organismo. Veja o estresse, por exemplo. Sabe-se que ele faz o eixo hipotalâmico-pituitária-adrenal, de cuja paz e tranquilidade depende o equilíbrio saudável de nosso organismo, sair do prumo. E como ele faz isso? Ativando fatores psicológicos como incerteza, conflito, perda do controle, falta de informação… todos eles condizentes ao que os psiquiatras denominam “comportamento não consumatório”. Ou seja, comportamento que leva a nada, a lugar nenhum, consistentemente.

E você estranha que o paciente que carrega essa cruz ande de mal humor o dia inteiro, irritando vizinhos e aterrorizando crianças?

O meu primeiro ponto aqui é o de que o burnout do paciente crônico, se não é uma patologia específica, passa muito perto disso. Quem sofre de artrite reumatoide deve enfrentar uma doença autoimune, uma dor crônica e ainda por cima um burnout crônico. E isso precisa ser levado em conta, como um todo, ao examinar, diagnosticar e tratar o paciente.

Um segundo ponto é que esse burnout atualmente não tem cabida na nomenclatura médica. Tal como a Covid Longa, oficialmente ele não existe.

Isso é terrível. Eu explico.

Quando uma condição de saúde afeta a vida do ser humano, o primeiro que a medicina faz é reconhecê-la ou não. Ela faz isso oficialmente incluindo-a em anais usados pelos médicos para diagnosticar, tratar etc., e até pela Justiça autorizar o seu pagamento por planos de saúde etc.

A Organização Mundial da Saúde, por exemplo, mantém uma fundação, a International Classification of Diseases, que publica uma base de 55.000 códigos exclusivos para lesões, doenças e causas de morte, para identificação de tendências e estatísticas de saúde em todo o mundo. Uma linguagem comum, enfim, que permite aos profissionais de saúde compartilhar informações sobre saúde em todo o mundo.

Nos países existe algo parecido. Nos Estados Unidos, The AMA Guides to the Evaluation of Permanent Impairment permite classificar deficiências permanentes em pacientes que sofrem de problemas pessoais ou relacionados ao trabalho. No Brasil, isso também requer legislação. Por exemplo, a lei já reconhece a fibromialgia como doença crônica e assegura a seus portadores acesso a medicamentos e terapias pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Contudo, a fibromialgia ainda não figura no rol das doenças dispensadas de carência para o recebimento de auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez, benefícios pagos aos segurados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). (A proposta, já aprovada no Senado, tramita agora na Câmara dos Deputados.)

O burnout do paciente crônico: a mais órfã de todas as doenças

Eu suponho que o caro leitor já percebeu onde eu quero chegar. Se uma condição de saúde não for reconhecida oficialmente por quem deve, é como se não existisse. E assim ficará privada de SUS, INSS… e pior ainda, de conhecimento. Isso, porque não haverá interesse de cientistas em pesquisá-la, nem de médicos em dedicar tempo e neurônios para entendê-la e tratá-la, nem de planos de saúde em subsidiá-la.

Eis o caso do burnout do paciente crônico.

Gráfico 1

No eixo horizontal da ilustração, o “volume de atenção” brindada pela medicina a uma doença (em termos de protocolos de atendimento clínico, exames laboratoriais, medicamentos etc. e, também pesquisa, publicações, congressos etc.).  À esquerda, doenças crônicas conhecidas. Na rabeira, à direita, o burnout, totalmente desatendido.

A essa altura, um purista da Medicina Baseada em Evidências certamente diria que, nada demais, que isso ocorre por… carecer de evidência científica. O que é verdade. O diabo é que a carência se deve justamente a que ninguém até hoje se propôs a descobri-la! O que, por sinal, não seria tão difícil uma vez que a população de doentes crônicos no Brasil está estimada entre 30% e 40%. (Ok, eu também acho que esses números são exagerados, então vamos cortá-los pela metade: o que dá (15% de 215 milhões) 32,25 milhões de bípedes, por baixo.) Existe mais evidência do que isso?

Um médico, no entanto, também protestaria. “Ora, como eu vou saber se o paciente está com esse tal de burnout crônico?”, seria a sua dúvida.

Pois bem, o esgotamento de que estamos falando tem alguns sinais comuns.

Atitude frente a vida

O paciente crônico que se esforça por enfrentar a sua condição de forma ativa não tem a garantia de que vai dar certo. Aliás, “dar certo” aqui não significa cura, mas alívio, recuperação de qualidade de vida… E quando os esforços sequer produzem os resultados imaginados (melhora na saúde, controle da dor e capacidade de funcionar), é muito fácil perder a motivação e sucumbir à sensação de esgotamento.

Exaustão emocional (sentir-se negativo sobre se sua condição vai melhorar um dia) também entra em jogo.7 Você pode notar a exaustão emocional entrando em ação em sua vida se desabar por causa de coisas aparentemente pequenas ou se sentir que deseja desistir de buscar tratamento.

Comportamento

Doctor shopping e medicamentos

O portador de dor crônica acometido de burnout seguramente é assíduo praticante do esporte da “procura-de-consulta-médica-para-ver-no-que-dá”.8

Conhece também quase tudo de analgésicos, antidepressivos, ansiolíticos e opioides. O tipo de pessoa que chega na farmácia do bairro, cumprimenta todo mundo pelo nome e depois pergunta “Quais são as novidades?”

Problemas Familiares

Preciso fundamentar?

Traços Psicológicos9

Cinismo

Incorrer frequentemente em catastrofismo (“Eu nunca vou melhorar”) e não mais se importar com a possibilidade de melhora.

Apatia

Definida como falta de interesse, entusiasmo ou preocupação. A pessoa não mais se importa em fazer o que deve para se aliviar. Ela detesta ir à fisioterapia, tomar seus remédios ou levar uma vida saudável.

Autoeficácia diminuída

Autoeficácia refere-se à crença de um indivíduo em sua capacidade de executar comportamentos necessários para produzir realizações de desempenho específicas.10 É comum que o paciente com burnout crônico projete o fracasso em se livrar da condição crônica a outras áreas da sua vida (ex.: trabalho, atenção à família, empreitadas…).

Estratégias para combater e prevenir o burnout

As estratégias para tanto são óbvias e não diferem – e por que haveriam de diferir? – das aconselhadas costumeiramente aos portadores de dores crônicas:

  • Ter um plano para enfrentar com serenidade os surtos de dor.
  • Criar tempo e espaço para fazer coisas não médicas. Tirar a vista, ao menos temporariamente, de consultas e procedimentos do gênero.
  • Caprichar no autocuidado, sem sentir culpa por desfrutar de descanso físico e mental.
  • Ser gentil consigo mesmo e mover-se lentamente, até para se manter em movimento.
  • Exercitar-se, mas sem se esforçar demais para não se exaurir.
  • Cercar-se de uma comunidade online, formada por pessoas que vivem com uma condição crônica.
  • E o mais importante: abordar o esgotamento o mais rápido possível, assim que notar os sinais.

O que representaria reconhecer o burnout em pacientes crônicos como uma doença em si mesma?

Eu vejo vantagens para ambas as partes, o médico e o paciente.

O médico pode completar diagnóstico e tratamento. Por que “completar”? Porque, convenhamos, deixar o burnout de fora ao examinar um paciente crônico, com tudo o que esse estado representa física e psicologicamente, é como escrever um artigo científico e omitir as referências. Nem Einstein faria isso.

E o paciente? Este ganharia em se sentir perguntado e ouvido sobre o que o aflige, o que o faz sofrer, e não apenas a respeito do que dói. Dor e sofrimento são coisas distintas e, para alguns de nós, ambas as sensações interessam.

Resumo da Ópera

A minha tese, baseada na minha experiência como paciente crônico, é a de que, falando fisiologicamente, o burnout crônico é uma carga pesada demais (para o paciente) e elucidativa demais (para o médico). “Aquilo” não pode ser confundido com a doença crônica e/ou a dor crônica associadas. É uma condição médica em si mesma, e isto precisa ser reconhecido por pesquisadores e médicos – especialmente os que prestam atenção primária.

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