Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Mulheres com dor crônica e a percepção de “não serem levadas a sério”

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A atenção que a mulher com dor crônica recebe da medicina é assimétrica em relação a do homem, e isso é um tema candente em países mais desenvolvidos. Seja no ambulatório ou nos ensaios clínicos, nos consultórios privados ou nos congressos médicos, o pouco caso brindado às doenças tidas como femininas (“Ora, é coisa da sua cabeça”) e a mulher como pessoa (ignorando o impacto psicológico que causa a ela não ser levada a sério) é notório. Principalmente quando a mulher é pobre e etc. Eu tenho insistido muito nesse tema, e vou continuar a fazê-lo apesar de sentir que no Brasil, ele não interessa a quem deveria interessar. Desde que comecei a postar sobre o tema, todavia, uma única coisa mudou nesse quadro: eu consegui dados vastos e sólidos para fundamentar o que foi dito no começo desse texto.

Autor: Julio Troncoso

Há pouco postei o principal resultado da pesquisa que fiz em parceria com a Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP), abrangendo as opiniões de 1.022 mulheres com dor crônica.

O foco do estudo foi justamente a percepção, por parte das mulheres, de ter suas queixas de dor valorizadas pelo médico e sua equipe.

Em síntese:

  • A metade das mulheres amostradas (498 em 1022) reclama da valorização que o médico dá às suas queixas de dor.
  • Uma proporção ainda maior (756 em 1022), reconhece que este se preocupa com a doença, mas dá pouca atenção às queixas de dor.
  • Quase dois quintos das mulheres amostradas (376 em 1022) reclamam da atenção recebida dos médicos as suas queixas de dor, seja quanto a valorização delas ou a atenção que recebem, enquanto apenas um décimo (102 em 1022) não tem o que reclamar.

Bem, se você leu o postado na época, deve ter se perguntado de onde eu tirei a ideia de pesquisar esse tema, sabidamente desconhecido no Brasil.

Resposta: por isso mesmo. Por ser um assunto sobre o qual pouco ou nada se fala e, no entanto, como os números da pesquisa atestam, está plenamente vigente. Ou latente, se preferir.

Eu entendo o questionamento do tema, todavia. E começo a comentá-lo dizendo que ele, o tema, há tempo vem sendo debatido abertamente pela academia, pela mídia e pelo mercado literário em vários países:  América do Norte, Reino Unido, União Europeia, países nórdicos e Austrália.

A literatura indica que nesses países a manifestação do médico, no sentido de mostrar descrédito em relação as queixas de dor do paciente, é uma das mais salientes no caso de mulheres com dor crônica.

No Brasil, o tema em pauta tem sido pobremente pesquisado – apenas para dizer que o foi em alguma medida.

Pesquisa publicada em 2008, pelo IBRC (Instituto Brasileiro de Relações com o Cliente) fez referências as queixas mais frequentes de pacientes com respeito ao atendimento médico em consultórios, com destaque especial justamente para comportamentos tidos como pouco afetivos: “desatenção” (36,3%), “falta de acolhimento” (30,0%) e “demora em ser atendido” (27,5%).

Narrativas de 20 mulheres com endometriose entrevistadas sobre a sua experiência com essa dor crônica, e publicadas em 2017, destacaram a “trivialização” dos seus discursos por parte dos médicos, e tensões resultantes do fato de o saber laico eventualmente demonstrado por elas parecer um insulto ao saber biomédico oficial.

Um pequeno estudo abrangendo 15 mulheres fibromiálgicas, admitiu que “na maioria das vezes elas sofrem caladas, enfrentam discriminação, preconceitos e exclusão. Nesse caso, possuem vulnerabilidade física e social aumentada.” Contudo, elas atribuem aquilo a causas vagas como “opressão” ou “violência simbólica”, e a falta de apoio familiar, sem mencionar o papel do médico no acompanhamento terapêutico, para bem ou para mal.

No exterior, a informação sobre queixas femininas quanto ao tratamento recebido dos profissionais de saúde é abundante.

Uma exaustiva revisão de artigos publicada em 2001, confirmou que as mulheres eram menos propensas a receber tratamento agressivo quando diagnosticadas e mais propensas a ter sua dor dispensada pelos médicos.

Provas obtidas em pesquisas cobrindo um amplo espectro da população também não faltam. Das mais de 2.400 mulheres americanas com dor crônica entrevistadas online pelo National Pain Report em 2014, 65% achavam que os médicos levavam a sua dor menos a sério por serem mulheres; e 84% se sentiam tratadas de forma diferente pelos médicos por causa de seu sexo. Aproximadamente a metade ouvira dos médicos as suas dores “estarem apenas nas suas cabeças”.

Em um estudo canadense, clínicos gerais e especialistas consideraram pacientes com fibromialgia, na sua maioria mulheres, como “simuladoras e frustrantes”, e alguns médicos até as responsabilizaram pela dor que sentiam.

Uma revisão de estudos demonstrou que quanto mais “inexplicáveis do ponto de vista médico” as condições de saúde apresentadas pelas pacientes, menor o crédito concedido pelos médicos a seus relatos de dor, e por tabela, às próprias relatoras enquanto pessoas. Revisões semelhantes mostraram que mulheres com dor podem ser percebidas pelos profissionais da saúde como histéricas, emocionais, queixosas, ou não querendo melhorar, falsificando ou fabricando a dor.

Num estudo baseado em entrevistas de 509 pacientes num centro médico universitário de cuidados primários americano, apontou que, em geral, os médicos não confirmavam os relatos de dor das pacientes em 25% dos casos. A confirmação dependia do estilo de prática clínica adotada pelo médico. Quanto mais tecnicamente ele agia, maior era a taxa de confirmação da dor no diagnóstico. Por outro lado, o grau de severidade da dor reportada também pesava na decisão do médico: quanto mais severa a dor, maior o grau de confirmação. Segundo os pesquisadores isso devia-se a que a expressão verbal e corporal da mulher, e a sua propensão a perguntar mais sobre diagnóstico e terapias para seu desconforto, exaltavam a severidade da dor sentida por elas, o suficiente para obter do médico mais atenção no diagnóstico de dor.

Por fim, em um estudo finlandês, 30 mulheres escreveram narrativas sobre o seu processo de diagnóstico de dor nas costas. Os resultados mostraram que em geral elas não se sentiam levadas a sério pelos médicos. As pacientes relataram ter lutado ferrenhamente para serem ouvidas com atenção e respeito e, no entanto, só depois de anos é que obtiveram um diagnóstico. Segundo os pesquisadores, com essas atitudes, os próprios médicos se tornaram parte do problema clínico das suas pacientes.

O que parece passar desapercebido aos médicos por mulheres com dor crônica é que o fato dessas mulheres sentirem suas queixas de dor ser pouco valorizadas nas consultas não passa impune pela vida delas. Acurada ou não, essa percepção ataca a autoestima, causa sofrimento emocional e pode agravar uma dor crônica já existente. É fato também que as mulheres são mais frequentemente encaminhadas para psicólogos ou psiquiatras, amiúde sem maiores explicações. (Na mesma situação, aos homens são prescritos testes para descartar as condições orgânicas reais.) Em muitas sociedades, desenvolvidas e subdesenvolvidas, tal encaminhamento sinaliza “doença mental”, e funciona como estigma.

Quase todas as informações antes mencionadas se referem a observações empíricas ou pesquisas de campo realizadas no exterior. O debate sobre a mulher ainda não estar representada na medicina em geral, ou mais especificamente, o de ela perceber suas queixas de dor sendo pouco valorizadas pelos médicos e suas equipes, progressivamente agrega cientistas e pesquisadores nas melhores universidades do mundo, ativistas e autores de best sellers, ao tempo que ganha presença em revistas científicas de prestígio e até na mídia popular. No entanto, estranhamente, nada parecido se observa no Brasil.

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