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Junk Food, o cérebro e a retórica raivosa

Junk Food, o cérebro e a retórica raivosa

Nos últimos anos nos acostumamos a definir como “normal” que autoridades usem palavras chulas para se referirem a qualquer coisa, que parlamentares ameacem o próximo de arma em punho na via pública ou de assistir pela TV professores do ensino secundário se queixando de que os alunos os insultam ou até agridem. Às vezes até parece que o meu mundo – não sei o seu – virou de ponta a cabeça. Observações emocionais, não racionais e até mesmo explosivas no discurso público, enfim, aumentaram nos últimos anos. O que está acontecendo? Essa escalada na retórica raivosa é às vezes atribuída às mídias sociais, pandemia, qualidade cultural e moral dos políticos etcétera. E estão certos, claro. Mas existem outras influências que alteram os estilos de comunicação. Uma delas é o efeito da má alimentação no cérebro, que prejudica a função cognitiva e regulação emocional. O que, por tabela, deixa a pessoa sujeita ao risco de fluidamente transformar uma simples dor aguda em crônica. Eis a razão porque eu resolvi comentar o tema, me baseando numa matéria publicada no Neuroscience News, um bom site americano.

“Ninguém nunca me disse que junk food era ruim para mim. Quatro anos de faculdade de medicina e quatro anos de internato e residência, e nunca pensei que houvesse algo de errado em comer pãezinhos doces e rosquinhas, batatas, pão e doces.”

– Dr. Robert Atkins, criador da Dieta Atkins

Não é necessariamente por falta de macronutrientes (proteínas, gorduras e carboidratos), mas pelo volume e má qualidade dos micronutrientes (minerais e vitaminas), principalmente aqueles embutidos em produtos ultraprocessados (refrigerantes, salgadinhos embalados, cereais matinais açucarados e nuggets de frango). Eles geralmente contêm apenas quantidades triviais de alguns micronutrientes, mas mesmo assim, apenas alguns em quantidades maiores.

No Canadá Canadá, em 2004, 48% da ingestão calórica em todas as idades veio de produtos ultraprocessados; nos Estados Unidos Estados Unidos 67% do consumo de crianças de dois a 19 anos e 57% do consumo de adultos em 2018 eram produtos ultraprocessados.12 No Brasil Brasil, 1/3 de tudo o que o brasileiro se alimenta vem de dentro de uma embalagem.3

Ingestão diária superior a 20% de alimentos ultraprocessados por idosos e adultos de meia-idade foi associada ao aumento do risco de declínio cognitivo acentuado. Foi o que mostrou uma pesquisa realizada com cerca de 11 mil pessoas, recrutadas em seis cidades brasileiras Brasil (Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Vitória) e acompanhadas por um período médio de oito anos. Ultraprocessados são aqueles alimentos industrializados, carregados de açúcares, gorduras, sal e substâncias sintetizantes (emulsificantes, conservantes) que, embora tenham alto teor calórico, possuem pouco valor nutricional. A pesquisa foi realizada por Natália Gomes Gonçalves, do Laboratório de Patologia Cardiovascular do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP.4

A maioria de nós está ciente de que a ingestão alimentar é um grande problema de saúde física porque a qualidade da dieta está associada a condições crônicas de saúde, como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares. Porém, o público em geral nem imagina que o maior impacto da nutrição é na saúde do cérebro.

Micronutrientes e sintomas de saúde mental

Dado que as escolhas alimentares de nossa sociedade mudaram fortemente para produtos ultraprocessados, precisamos aprender sobre as evidências científicas substanciais que provam que a ingestão de micronutrientes influencia os sintomas de saúde mental, especialmente irritabilidade, raiva explosiva e humor instável. A base de evidências científicas para esta afirmação é agora vasta, embora seja tão raramente mencionada na mídia que poucos no público estão familiarizados com ela.

Uma dúzia de estudos de países como Canadá Reino Unido, Espanha Espanha, Japão Japão e Austrália Reino Unido mostraram que pessoas que comem uma dieta saudável e com alimentos integrais apresentam menos sintomas de depressão e ansiedade do que pessoas que comem uma dieta pobre (principalmente produtos ultraprocessados).

Alguns dos resultados foram surpreendentes. Em um estudo com cerca de 89.000 pessoas no Japão com 10 a 15 anos de acompanhamento, a taxa de suicídio naqueles que consumiam uma dieta de alimentos integrais era metade daquela nos que comiam dietas menos saudáveis, destacando uma importante nova direção ainda não abordada nos atuais programas de prevenção do suicídio.5

No Canadá Reino Unido, descobertas igualmente poderosas mostram como os padrões alimentares das crianças, além de seguir outras diretrizes de saúde sobre exercícios e tempo de tela, previram quais crianças de 10 a 11 anos seriam encaminhadas para diagnóstico de transtorno mental nos dois anos subsequentes.6

A pesquisa revela ligações entre a irritabilidade, a raiva explosiva e o humor instável que se tornaram mais comuns nos últimos anos e a falta de micronutrientes importantes para a função cerebral. Em um desses estudos, cerca de um terço das pessoas que mudaram para uma dieta de alimentos integrais, além de seu tratamento regular, descobriram que sua depressão estava em remissão após 12 semanas. A taxa de remissão no grupo de controle usando tratamento regular, mas sem mudanças na dieta, foi inferior a uma em 10. O grupo de dieta de alimentos integrais também relatou uma economia de custos de cerca de 20% em seu orçamento alimentar semanal. Esse último ponto ajuda a desfazer o mito de que uma dieta de produtos ultraprocessados é uma forma de economizar.

Evidências importantes de que irritabilidade, raiva explosiva e humor instável podem ser resolvidos com uma melhor ingestão de micronutrientes vêm de estudos avaliando suplementos de micronutrientes para tratar problemas de saúde mental. A maior parte da conscientização pública está restrita à busca malfadada de balas mágicas: estudos de um único nutriente por vez. Essa é uma maneira comum de pensar sobre causalidade (para o problema X, você precisa de medicação Y), mas não é assim que nosso cérebro funciona. Para apoiar o metabolismo cerebral, nossos cérebros requerem pelo menos 30 micronutrientes para garantir a produção de neurotransmissores como serotonina e dopamina, além de quebrar e remover subprodutos metabólicos.7

Muitos estudos de tratamentos multinutrientes encontraram melhor regulação do humor e redução da irritabilidade e raiva explosiva, inclusive em ensaios randomizados controlados por placebo de crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e desregulação do humor.8

A evidência é clara: uma população bem nutrida é mais capaz de suportar o estresse. A fome oculta do cérebro é um fator modificável que contribui para explosões emocionais, agressão e até mesmo a perda de civilidade no discurso público.

Em síntese: pode haver uma ligação entre uma dieta pouco saudável e o controle da raiva.

Baseado livremente em: “Junk Food and the Brain: How Modern Diets Lacking in Micronutrients May Contribute to Angry Rhetoric”. The Conversation. Neurosciencenews.com. Outras fontes: Timesofindia

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