Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Homens com Dor Crônica nas costas, uni-vos! Como fazer sexo sem doer.

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Um cardápio de posições coitais distinguindo as mais adequadas das menos adequadas para pacientes homens que sejam mais ou menos tolerantes à extensão ou flexão, é um guia valioso para o médico interessado em proteger seus pacientes com dor lombar crônica. Ou para o casal inteligente. Afinal, quando as endorfinas tomam conta não há cabeça para pensar em acomodações terapêuticas, então convém ter uma conversa a dois antes. Este post fornece material para se fazer isso.

“Não sei a pergunta, mas sexo é definitivamente a resposta.”

Woody Allen

Autor: JULIO TRONCOSO

Em junho eu publiquei um post sobre as recomendações de várias autoridades sanitárias (ex.: a Prefeitura de Nova York) e acadêmicas (ex.: cientistas da Harvard University). A recomendação de todos era a de que fazer sexo em tempo de Covid-19 é muito arriscado, e que então é melhor evitá-lo. E se for inevitável – uma concessão da ciência à vida real, suponho – que o sexo oral e o beijo fosse totalmente evitados, pois a transmissão do vírus seria garantida nesses casos.

Instituições de caridade relacionadas a educação sexual no Reino Unido também recomendavam não beijar, usar a máscara e escolher posições que evitassem ficar cara-a-cara com o(a) parceiro(a) antes, durante e depois do ato, do coito ou do ato sexual… acho que você me entende.

Ao que parece, nada mudou desde então. Quem leu, claro, fez de conta que não leu ou que aquilo fora escrito por alienígenas assexuados. E até que os japoneses não aperfeiçoem as bonecas de silicone deles, eu duvido que algo tenha mudado ou vai mudar no comportamento sexual dos brasileiros que não pertencem a grupos de risco.

A interação entre dor crônica lombar e atividade sexual é importante? Certamente. Em um post anterior, eu mostrei como e quanto a dor crônica pode interferir na sexualidade de muita, muita gente por causa da própria dor ou de outros fatores associados a ela, incluindo transtornos de humor, diminuição do desejo sexual (libido), efeitos de medicamentos ou estresse crônico. E quem leu deve ter ficado com a sensação, correta, de que que esse problema, apesar de endêmico, permanece latente, pouco pesquisado e nada resolvido na linha de frente da medicina.

“De acordo com Statistics Canada, até 84 por cento dos homens com dor lombar relatam uma diminuição significativa na frequência das relações sexuais quando sofrem de dor nas costas.”

University of Waterloo, Canadá

Vira e mexe, teorias à parte, tudo converge na cama – ou coisa que o valha. E é justamente nesse perímetro, where the action is, que o conhecimento do que um paciente com dor crônica deve fazer para se proteger, é menor.

Ou quase. Uma dupla de pesquisadores conseguiu sair da caixa e colocar algo de valor em cima da mesa.

Um deles, o mundialmente renomado especialista em cinesiologia e biomecânica da coluna vertebral da Universidade de Waterloo, no Canadá, Dr. Stuart McGill, é conhecido por ter sido o criador da trinca de exercícios – The McGill Big 3 For Core Stability – que visam “estabilizar a coluna”, e assim, proteger contra a dor lombar.

Eu, que não sou fisioterapeuta, fiquei sabendo do Prof. McGill, ao ler o livro de Cathryn Jakobson Ramin,”Crooked: Outwitting the Back Pain Industry and Getting on the Road to Recovery”, um best seller sobre o quanto a dor crônica nas costas hoje é uma indústria muito proveitosa para muitos, exceto para os pacientes.

A outra parte da dupla, a investigadora clínica, Natalie Sidorkewicz, na época era guiada pelo Dr. McGill no seu doutorado.

Em um esforço para compreender a mecânica da relação sexual, ao longo de vários anos, a dupla usou a análise biomecânica para estudar o que McGill discretamente se referiu como “o movimento da meia-noite”.1 Ele percebera a necessidade, porque muitos dos seus pacientes com dor lombar crônica até que conseguiam fazer sexo decente, mas depois fatalmente reduziam muito a sua frequência.

O estudo pioneiro recebeu autorização do Escritório de Ética em Pesquisa da universidade e rígidas normas de privacidade. McGill e Sidorkewicz recrutaram pessoalmente os participantes do projeto: somente casais que estivessem em relacionamento monogâmico por no mínimo um ano e não tivessem vínculo com a Universidade de Waterloo.2

O que McGill e Sidorkewicz visavam era avaliar os movimentos e posturas que provocavam a dor lombar crônica em homens e mulheres. A ideia era obter dados que guiassem um médico a fazer recomendações claras aos seus pacientes, incluindo posições coitais específicas e estratégias de movimentação, capazes de eliminar a ameaça.

“Prometo estar sempre ao seu lado.
Ou sob você. Ou por cima.”
Anônimo

O resultado foi o primeiro estudo a documentar de fato como a coluna vertebral se move durante o sexo. E a partir daí, propor posições coitais mais seguras para homens e mulheres.

A Pesquisa

No laboratório de biomecânica da coluna, na universidade, McGill e Sidorkewicz recrutaram inicialmente dez casais heterossexuais com coluna vertebral saudáveis e pediram-lhes que fizessem sexo in situ, usando cinco posições sexuais atribuídas aleatoriamente, para ver como os impulsos pélvicos afetavam a coluna masculina. Ninguém foi filmado; todos os pesquisadores viram em seus computadores apenas espaço escuro e os pequenos marcadores reflexivos movendo-se naquela escuridão.

Os participantes tinham os marcadores eletromagnéticos colados em seus corpos em três grupos para transmitir dados sobre o movimento da coluna vertebral e estavam em um quarto com uma cama adequada “padrão de hotel”. “Desligamos as luzes fluorescentes”, disse Sidorkewicz. “Tentamos torná-lo o mais confortável possível, considerando o ambiente do laboratório.” Os participantes também receberam um vale-presente para um jantar fora.

Oito câmeras infravermelhas de captura de movimento monitoraram o movimento dos pontos reflexivos, estrategicamente posicionados nos corpos dos participantes.

De fato, foram dois estudos, um para o homem (o entregador) e outro para a mulher (a receptora).

Teoricamente, os pacientes estariam divididos em três grupos:

Pacientes com dor lombar intolerantes à flexão
A dor geralmente piora durante os movimentos de inclinação para a frente, como pegar uma caneta do chão, amarrar os sapatos, ou ficar sentado por longos períodos.
Pacientes com dor lombar intolerantes à extensão
Para esses pacientes, movimentos ou atividades de flexão para trás causam dor. Exercícios que requerem arquear as costas são problemáticas, assim como deitar de bruços e tentar se levantar.
Pacientes com dor lombar intolerantes a movimentos
Qualquer movimento da coluna para longe de uma posição neutra, em pé ou deitado pode incomodar as costas.

Do anterior se deduz que a posição sexual certa para quem tem dor lombar varia dependendo do tipo de movimento que causa problemas.

O Cardápio Masculino

O primeiro estudo revisou a mecânica espinhal do homem durante três posições sexuais comuns: o missionário (papai e mamãe), o quadrúpede (cachorrinho), e a colher (deitada de lado).

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Entre as variações estavam

  • duas abordagens da posição do “missionário”: 10 com o homem em cima da mulher e de frente para ela;
  • duas abordagens para a posição “quadrúpede” ou “cachorrinho”: 11 com o homem situado atrás da mulher de quatro;
  • e a “colher”, ou “posição deitada de lado”, em que o homem e a mulher descansam de lado, com as costas da mulher contra o peito do homem. (Parece que aqui acabou a criatividade porque não há registro de variações).

Achados

De cara, o óbvio: em todos os casos a maior parte do movimento da coluna, exigia entusiástica flexão e extensão lombar a partir do impulso pélvico.

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Em seguida, as observações caracterizaram dois tipos de paciente: os intolerantes à flexão, e os intolerantes à extensão.

As imagens ilustram os dois movimentos. A da esquerda, a flexão ocorre quando o corpo se projeta a frente, e a extensão, quando ele se endireita. A da direita é um close da biomecânica da região (lombar, sacro, quadril) recrutada em ambos os movimentos.

Para os portadores de lombalgia discogênica (com ou sem sintomas radiculares), a dor piora com a flexão.

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Consequentemente, a postura deitada de lado (ou da colher) mostrou ser a pior.

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A posição quadrúpede com a(o) parceira(o) receptora apoiando a parte superior do corpo nos cotovelos foi considerada a melhor – para o homem, lembremos.

Esta posição limita a flexão da coluna vertebral, reduzindo assim as chances de agravar a dor lombar de um paciente masculino com intolerância à flexão.

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Inversamente, para aqueles pacientes com intolerância à extensão, a posição deitada de lado ou “de colher” foi identificada como a melhor. Isso porque ela promove a maior flexão lombar na coluna de ambos, entregador e receptor(a). Essa posição permite ao entregador agarrar os quadris ou a cintura da(o) parceira(o) e criar movimento penetrante sem que ambos precisem fazer muito esforço.

Sexo sem amor é apenas um exercício saudável.
Mas um bom exercício, convenhamos.

Como subproduto, a pesquisa desmascarou a crença comum de que a “colher” é a melhor posição sexual para qualquer pessoa com dor nas costas.3 Em vez disso, ficou claro que posições diferentes eram melhores para homens e mulheres, e para diferentes tipos de dor nas costas.

Mudanças sutis na postura do paciente alterava significativamente o perfil cinemático da coluna. No caso de quem tinha intolerância à flexão, sustentar a parte superior do corpo se apoiando nas mãos durante diferentes variações do “missionário”, protegia mais a lombar do que fazê-lo com os cotovelos.

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Por outro lado, mesmo um ligeiro ajuste na postura da receptora – por exemplo, ela apoiando a parte superior do corpo com os cotovelos ou as mãos durante diferentes variações da posição do cachorrinho também afetava o perfil cinemático da coluna masculina. A maior extensão alcançada quando apoiada nas mãos ao invés de nos cotovelos, facilitava o ângulo de penetração e o contato preferencial do pênis, sem forçar a coluna do parceiro.4

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Figura 1. Recomendações iniciais sobre as posições coitais que os pacientes cuja dor lombar crônica é exacerbada por movimentos/posturas específicas (ex.: flexão, extensão, intolerancia ao movimento). As posições a EVITAR (AVOID) são as que apresentam o maior risco de exposição à variável biomecânica provocadora da dor, assim exacerbando a dor lombar.

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Note que a escala de posições/movimentos recomendados a quem é sensível à flexão é a inversa de quem é sensível à extensão.

Sob risco de parecer redundante, mas para que fique bem claro:

Para homens com intolerância à flexão, normalmente aquelas cujas dores nas costas pioram ao tocar os dedos dos pés ou sentados por longos períodos de tempo, a posição recomendada é (preferencialmente) a do Quadrúpede, com a mulher apoiando a parte superior do corpo com os cotovelos, seguida da posição do Missionário 1.

Para quem tem problemas na FLEXÃO

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Homens com intolerância à extensão, ou seja, aqueles cujas dores nas costas pioram arqueando as costas, deveriam favorecer a posição da Colher (preferencialmente) e a posição de Missionário 2.

Para quem tem problemas na EXTENSÃO

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Por fim, lembre-se que essas recomendações são mais pertinentes a pacientes com lombalgia exacerbada por movimentos ou posturas. Elas são limitadas a essas intolerâncias de movimento e posições específicas centradas no homem. Os pesquisadores também não levaram em conta a cinética, nem incluíram indivíduos experimentando dor.

Ok, pode ser que muitos, em ambos os grupos de pacientes, considerem que 3 posições não fazem jus à vasta criatividade do Kama-Sutra, ou que tenham chegado às mesmas conclusões do estudo por tentativa-e-erro. Felizes eles. Mas também pode ser que não, e nesse caso adeus vida sexual prazerosa… o que equivale a dizer, bem, adeus vida sexual por completo.

As descobertas de McGill e Sidorkewicz são inovadoras, pois, pela primeira vez, a biomecânica espinhal foi medida durante o ato sexual. Graças ao trabalho da dupla, os profissionais de saúde podem agora abordar com alguma segurança – e escasso constrangimento, uma vez que baseados num estudo científico – uma preocupação comum de muitos pacientes com lombalgia.

Obs. Este post focou no que os pesquisadores descobriram sobre o HOMEM. Em um próximo post irei me concentrar na MULHER.

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