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Flexibilização. “eu já vi esse filme”

Flexibilização

Maio 2021. O Brasil começa a ser anestesiado pela flexibilização ilusória. De novo. O quadro é o mesmo de agosto-outubro do ano passado. Esse post é um contraponto inoportuno e incômodo – como todo contraponto, aliás – à sensação quase eufórica de que “está tudo voltando ao normal” que hoje anima, com alguma razão, boa parte dos brasileiros.

“Insanidade é repetir a mesma coisa e esperar resultados diferentes.”

Albert Einstein

Poxa, como eu queria estar feliz! Acreditar, acreditar… Igualzinho a todo o pessoal da vizinhança. Ora, os números dos novos casos e mortos pela Covid caindo, o comércio abrindo, as aulas começando… Melhor, impossível! E, no entanto, uma vozinha aqui, na parte de trás da cabeça, desanda a repetir: “Já vimos esse filme!”, “Já vimos esse filme!”, “Já vimos…”, e por aí vai. Que nem tictac de relógio vintage. Quem será que a plantou ali? A placenta? O infausto colégio católico onde estudei? A experiência colhida profissionalmente? Ou a vida contemplativa de agora? Sei lá, mas o fato é que aquela ladainha da flexibilização não cede, implacável e impiedosa.  “Já vi esse filme”, “Já vi esse filme”…

É uma maldição isso de ficar fuçando dados, ligando coisa com coisa, comparando passado com presente e especulando despudoradamente sobre o futuro. Uma conjura, praga ou profecia escatológica que alguém deve ter feito contra mim.

Eu me deparei com o fenômeno nessa semana, assistindo ao noticiário sobre à debacle na Índia. As UTIs cheias, a falta de oxigênio, os crematórios a céu aberto, por um lado, e um monte de nações (Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, Austrália…) doando equipamentos, remédios, etc., por outro lado. Que bom! Quanta solidariedade! Exclamavam em coro, admirados e contritos, os comentaristas nos noticiários das redes de TV a cabo.

Curioso que nenhum deles questionasse – e com a mesma admiração – a razão pela qual por aqui estamos numa m….  semelhante à da Índia e nenhuma ajuda recebemos de ninguém, exceto, desculpem, do Maduro. Sim, esse mesmo.

Detalhes, detalhes… Mas enfim, dava a impressão de no Brasil a coisa estar resolvida, ou a caminho de sê-lo. Se havia algo a lamentar, isso era na Índia. Por breves instantes, eu me senti na Nova Zelândia.

Não passou.

Dissociação chama isso em psicologia. Um estado de severa desconexão com experiências físicas ou emocionais presentes. No intuito de se evadir da própria realidade o sujeito põe o foco noutro evento ou coisa que chame a sua atenção. A tragédia na Índia, no caso.  Ela é uma válvula de escape para esse pessoal da TV falar noutra coisa e assim interromper o tédio de entrevistar professores universitários ou médicos extraídos de qualquer lugar, perguntando infindavelmente as mesmíssimas coisas para depois ouvir as mesmíssimas respostas.

Enquanto isso, a flexibilização está aí, gente na praia, nos bares, nas academias, em ritmo de por-aqui-o pior-já-passou e Buda lá na Índia que se vire porque Deus com certeza é brasileiro.

E ocorre que não passou. O pior da pandemia. Não passou. A situação atual do Brasil continua podre de ruim e o meu prognóstico é que ela não vai normalizar até 2023 – se isso. Eis o que eu tenciono demonstrar, com fatos, em dois posts. Esse é o primeiro deles.

Voltando à vozinha na minha cabeça. A bem da verdade, ela tem seus argumentos. Examine o gráfico seguinte:

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O período A corresponde à flexibilização ocorrida em 2020, e o período B, ao da flexibilização iniciada por esses dias. A justificativa em ambos os casos é semelhante: a pandemia cedendo, o comércio e os serviços abrindo o bico e a população com o saco na Lua.

Há diferenças entre A e B, claro. O humor dos cientistas, médicos etc., por exemplo, mudou bastante. Na época A, estes recomendavam timidamente “um pouco” menos de liberalidade na abertura que, aliás corria solta, sem fiscalização. Agora, no desespero, todos – excetuando os integrantes do Centro de Contingência Covid-19 do Governo de São Paulo – denunciam em alto e bom tom que a única solução no que resta de 2021 é um lockdown severo, draconiano, “aqui e agora”, de não menos de 3 semanas abrangendo todo o país.

Outra diferença é numérica. No começo do período, a média dos últimos 7 dias de novos casos era de 50 mil e a dos mortos, em torno de 1 mil; agora esses números são 80 mil e 3 mil, respectivamente. E o meu ponto é que a Lei de Newton não funciona no ambiente epidêmico.

Explico. Se você joga um tijolo 30 cm acima da sua cabeça, ao cair na mesma ele vai fazer algum dano. Agora, se a distância atingida for de 3 metros e você não sair de perto, nem doer vai, provavelmente porque você morreu antes.

Bem, isso é no mundo da física. No biológico é diferente. O pico da curva dos novos infectados em 2021 não ocorreu por acaso. Ela foi impulsionada até lá por muitos fatores que ainda ali estão, eles não sumiram. Eu vou comentá-los num segundo post; por enquanto fiquemos com a noção de que esse backlog tóxico, ainda vigente, vai dificultar em grande medida a queda dessa curva.

Um parêntese. Não fique com raiva de mim. É inútil me xingar. A minha mãe, que Deus a tenha, nada tem a ver com o que eu escrevo. Vamos, continue comigo.

Inércia epidêmica

Inércia é a resistência que a matéria oferece à aceleração. Ela não é propriedade apenas da matéria, mas também do comportamento humano. Por exemplo, você é profundamente infeliz no seu matrimônio, mas continua casado(a) sem saber por quê. Isso é inércia conjugal. Ou você continua torcendo pelo Cruzeiro, já na Série C. Inércia desportiva deve ser isso. Ou ver que as promessas feitas por um político em tempo de eleição são todas mentiras e insistir em apoiá-lo. Bem, desculpe, isso não é inércia, é estupidez, mas deixa para lá.

No caso da epidemia da Covid-19 no Brasil, falemos em “inércia epidêmica”.

Mesmo que a Fada Madrinha aplicasse uma vacina 100% eficaz nos 180 milhões de brasileiros que ainda falta por vacinar, a pandemia não sumiria de vez e de imediato. A formação de anticorpos precisaria de até 3 meses (no caso de gente vacinada com a Oxford-AstraZeneca, por exemplo) para se completar. Na vida real, nada de Fada Madrinha, nem de vacina 100% eficaz, e muito menos de vacinação massiva; portanto, a tendência das curvas de novos infectados e de mortos é a de não ceder facilmente, mesmo após 3 meses.

A Lei de Newton não funciona no ambiente epidêmico.

Ok, como a minha amiga Nádia, você está achando que eu sou um pessimista contumaz. Posso até ser, porém a opinião acima não é apenas minha. Ela é também a dos cientistas do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), um centro de pesquisa da saúde global independente, ligado à University of Washington.

Atualmente, o IHME e o seu diretor, o Dr. Christopher J.L. Murray, são ambos uma referência mundial em saúde mundial e pública.

As projeções traçadas para o Brasil pelo IHME são as de se atingir a estratosférica quantidade 575,833 mortos pela Covid-19 até o 01 de agosto próximo.

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Somente 21 dias depois, a taxa de mortalidade diária cairia a níveis de novembro 2020 (400 mortos, aproximadamente), e tudo bem. Porém, a essa altura Inês já é morta. Infelizmente, junto com mais 575,832 conterrâneos.

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Esses números resultam de um modelo matemático baseado em dados passados e pressupostos presentes e futuros.  Nada escrito em pedra, inventos do gênero não são infalíveis. Além disso, eu não sou epidemiologista, ninguém é perfeito, etcétera. Mas como você, amigo leitor, eu ainda estou lúcido – ou algo parecido com isso. E os fatos da vida e da pandemia não me escapam. Uma mínima capacidade de análise basta e sobra para traçar perspectivas realistas sobre o combate à Covid 19, nos próximos 18 a 24 meses.

Eis o que apresento graficamente num outro post.

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