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Fibromialgia e Neuroinflamação: as duas devem se encontrar?

Fibromialgia e Neuroinflamação

Os mecanismos fisiopatológicos subjacentes à fibromialgia são pouco compreendidos. Não há marcador biológico aceito, e os resultados dos estudos radiográficos e laboratoriais tendem a ser normais. Vários mecanismos periféricos e centrais diferentes foram propostos, que podem não ser mutuamente exclusivos. Isso significa que, na prática da medicina clínica, a fibromialgia ainda não é vista como uma condição médica clara. Tecnicamente então, ela é uma síndrome, “grupo de sintomas”, não uma doença. O que, por sinal, em nada diminui a sua importância para a vida do paciente. Até o momento, a fibromialgia é vista por muitos médicos como uma dor crônica originária da mente do (a) paciente. O mérito deste artigo é o de apresentar sucintamente um contraponto a essa crença. Uma explicação biológica das mais sérias para a fibromialgia (enquanto doença): a sua relação com sensibilização central e neuroinflamação.

Autores: John Quintner e Melanie Galbraith

O que é fibromialgia?

Fibromialgia (dor nos músculos e tecidos fibrosos) é o nome dado a um conjunto de sintomas, alguns dos quais são comumente encontrados na comunidade em geral.1

Metáfora: Aglomerados de estrelas aparecem no céu noturno, onde nossos ancestrais desenhavam linhas em torno de grupos deles e deram a essas constelações vários nomes (por exemplo, Andrômeda, “a donzela acorrentada”; Aquário, “o portador da água”). Mas agora sabemos que as estrelas que compõem uma constelação podem estar a anos-luz de distância e não estão conectadas de outra forma.

Os reumatologistas fizeram a mesma coisa quando agruparam uma série de sintomas que não necessariamente têm qualquer relação causal conhecida entre si e, em seguida, chamaram a condição de “fibromialgia”.

Os sintomas individuais no cluster da fibromialgia diferem em sua gravidade, do muito leve ao mais grave, e resultam em vários graus de incapacidade física e mental. Eles incluem: dor e sensibilidade generalizada; fadiga; sono perturbado; humor baixo; problemas com memória e processos de pensamento.

A busca por uma explicação plausível

Há uma semelhança impressionante entre o conjunto de sintomas da fibromialgia e o comportamento de doença em animais.2 O comportamento de doença pode ser induzido em animais injetando-os com substâncias chamadas citocinas (mensageiras celulares). Portanto, é razoável supor que deve haver explicações biológicas para os sintomas da fibromialgia.

Neste artigo, exploramos algumas explicações possíveis.

Conceitos importantes

Os termos “sensibilização central da nocicepção” e “neuroinflamação” são processos neurofisiológicos que se acredita estarem envolvidos em pacientes diagnosticados com fibromialgia.

Sensibilização central da nocicepção

Nocicepção significa “detecção de danos”. A sensibilização central da nocicepção implica que as células nervosas da medula espinhal se tornaram sensíveis pela ação de citocinas liberadas pelas células vizinhas do sistema imunológico. Isso significa que eles podem disparar mais facilmente e podem gerar rajadas de impulsos que viajam pela medula espinhal até o cérebro, produzindo a sensação que chamamos de “dor”. Essas alterações na função das células nervosas da medula espinhal demonstraram ocorrer em estudos experimentais com animais.

As citocinas são usadas para ajudar as células do sistema nervoso a se comunicarem umas com as outras e com outras células do corpo.3 Níveis séricos significativamente aumentados de citocinas (e outras moléculas importantes) foram encontrados em pacientes com fibromialgia em comparação com controles saudáveis.4

Os nervos que geralmente respondem ao toque leve na pele podem agora excitar as células nervosas sensibilizadas na medula espinhal, resultando em dor (o fenômeno é chamado de “alodinia”). Quando isso acontece, os tecidos não inflamados ao redor de uma área de dano tecidual também podem se tornar sensíveis e dar a mesma resposta a vários estímulos não prejudiciais (como toque leve, frio ou calor moderado e vibração).56

A sensibilização central da nocicepção significa que o circuito nervoso da medula espinhal pode alterar, distorcer ou amplificar os muitos sinais que recebe, não apenas de quaisquer tecidos corporais danificados, mas também de outras fontes normais.7

Embora existam algumas pistas clínicas de que o sistema nervoso central de uma pessoa está sensibilizado, não é possível medir objetivamente o processo. As pistas incluem uma resposta aumentada (incluindo dor) a um estímulo não tissular aplicado à pele na área da queixa de dor, o relato de dor em resposta a um movimento passivo suave da parte relevante do corpo e uma resposta dolorosa à pressão profunda aplicada na área da dor (sensibilidade).

Neuroinflamação

A neuroinflamação é um tipo de inflamação que se refere a reações que ocorrem no sistema nervoso central (cérebro e/ou medula espinhal) caracterizadas pela liberação de citocinas de células imunes residentes, bem como de outras células residentes (incluindo mastócitos que geram mediadores de inflamação, células que revestem os vasos sanguíneos do cérebro) e de células imunes que residem fora do sistema nervoso central.8

Existem vários graus de neuroinflamação, alguns dos quais são benéficos e outros que podem ser prejudiciais ao sistema nervoso.

Quando a neuroinflamação não é controlada, pode ser prejudicial às células nervosas, como ocorre em uma ampla variedade de condições médicas nas quais ocorrem anormalidades da nocicepção (incluindo dor). Estes incluem: infecções do sistema nervoso central, transtorno depressivo maior, acidente vascular cerebral, lesão cerebral traumática, lesão medular, doenças autoimunes, após grandes procedimentos cirúrgicos, autismo e em doenças neurológicas, como esclerose múltipla e doença de Alzheimer.9

Parece que a neuroinflamação pode alterar as vias nervosas de maneira que lhes permita contribuir para a geração, amplificação e disseminação imprevisível da dor.10 Portanto, a neuroinflamação pode desempenhar um papel decisivo em muitas condições dolorosas crônicas, mesmo quando não há evidência de dano tecidual.

Como a neuroinflamação é detectada?

A evidência de neuroinflamação pode ser visualizada indiretamente usando uma técnica de varredura conhecida como Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET)*. Através do uso de um traçador radioativo, a molécula de proteína TSPO, ou Translocator Protein (que se desloca para outro lugar) foi identificada dentro das células, onde fica na membrana de estruturas especializadas conhecidas como mitocôndrias, que desempenham um papel importante na produção de células de energia servindo como “baterias” que alimentam várias funções celulares.11

O TSPO está sempre presente em baixas concentrações no cérebro saudável, mas as células gliais produzem quantidades aumentadas após lesão cerebral, em condições neurodegenerativas, como esclerose múltipla e infecção.12 TSPO tem, portanto, sido usado como um marcador biológico para lesão cerebral e infecção.

Evidências adicionais de neuroinflamação incluem anormalidades bioquímicas objetivas no conteúdo do líquido cefalorraquidiano.13* e aumento dos níveis de lactato (que parece atuar como molécula sinalizadora) no ventrículo cerebral.14*

Sensibilização central da nocicepção e fibromialgia

De acordo com o principal neurobiologista Clifford Woolf:15 “Os dados gerais parecem apoiar um papel importante para a sensibilização central na geração dos sintomas da fibromialgia”.

É, portanto, decepcionante que os recentes critérios de classificação para fibromialgia (usando o Índice de Dor Amplo e a Escala de Severidade dos Sintomas1617) não incluam quaisquer achados do exame físico que possam alertar o médico para a possibilidade de sensibilização central.

Qual é, se houver, a relação entre fibromialgia, sensibilização central da nocicepção e neuroinflamação?

Um estudo recente de escaneamento via PET por Albrecht et al.18 forneceu a primeira evidência in vivo (em pessoas vivas) apoiando um possível papel da neuroinflamação na fisiopatologia da fibromialgia. No entanto, eles não rastrearam os 31 indivíduos buscando especificamente evidência clínica de sensibilização central. Os investigadores simplesmente assumiram que ela estaria presente em todos os indivíduos.

Para abordar adequadamente esta questão de pesquisa, seria necessário realizar um estudo em que todos os indivíduos com fibromialgia tivessem uma ou mais características clínicas atribuíveis à sensibilização central da nocicepção.

Para onde vamos a partir daqui?

O avanço na técnica de imagem provavelmente melhorará muito nossa compreensão de muitas condições dolorosas crônicas e pode eventualmente levar a terapias destinadas a “acalmar” as células gliais ativadas, consideradas responsáveis ​​​​pela neuroinflamação.

Conclusão

A neuroinflamação tem sido implicada na fisiopatologia de muitos estados de dor crônica, incluindo a fibromialgia. A crença comum de que essas condições são causadas por fatores de personalidade predisponentes é agora insustentável. No entanto, fatores psicológicos e sociais são importantes para determinar como um paciente se apresenta aos seus profissionais de saúde, familiares e outros na comunidade em geral.

*Nota: As várias investigações mencionadas neste artigo ainda não são levadas em conta pela medicina clínica. E com razão, porque faltam evidências mais robustas. A ideia aqui foi fornecer evidências científicas credíveis de um processo biológico subjacente naqueles que foram diagnosticados como portadores de fibromialgia.

Tradução livre de “Fibromyalgia and Neuroinflammation: shall the twain ever meet?”, por John Quintner e Melanie Galbraith, publicado por The Fibromyalgia Perplex

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