Coronavirus - by dorcronica.blog.br

Eu sou uma médica de emergência e cuidados intensivos. Tive Covid-19 duas vezes e estou cansada.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Tempo atrás eu li por aí que os depoimentos de gente que passou por uma experiência ruim sensibilizam quem ainda não a vivenciou e, então, levam a pessoa a se precaver etc. E como na época (julho/agosto) as praias começavam a encher e as medidas de flexibilização a ir para o espaço, eu pensei que o depoimento pungente de uma enfermeira da linha de frente faria o serviço. Não era qualquer depoimento, mas um de cortar o coração.

Não deu certo. Poucos visitantes do blog leram. Hoje minha teoria é a de que “O que os olhos não veem, o coração não sente”, ou algo assim.

Mas eu sou teimoso.

Não por ter fé no ser humano, acreditar no espírito comunitário, ou na generosidade do próximo… mas apenas porque sou teimoso. Então como nesse fim de semana haverá duas filas esperando em várias cidades litorâneas do Brasil, uma para entrar na praia e outra para conseguir cama na UTI, aqui vai outro depoimento direto da linha de frente, dessa vez o de uma médica. Quem sabe, alguém o lê e fica em casa.

“Muita gente nos diz: ‘Obrigado por estar na linha de frente’, e nos escrevem notas de agradecimento. Não precisamos de nada disso. O que precisamos é que parem de nos expor.”

Sara Anderson, médica

Nota do blog:
Os profissionais da saúde na linha de frente se infectam 4 vezes mais que a população em geral. Nos Estados Unidos, mais de 800 já morreram. E muitos mais estão sofrendo de outras maneiras –mais de 40% dos médicos no Reino Unido relatam agravamento dos (seus) problemas de saúde mental, de acordo com uma pesquisa de outubro da British Medical Association. No Brasil, a pandemia deu um pulo nas últimas semanas e a pergunta é: será que a linha de frente aguenta?

Por KARA WARD, Médica
22 DE NOVEMBRO DE 2020

RESUMO

Minha primeira infecção foi no início da pandemia. Tive de entubar um jovem que estava morrendo de sangramento maciço de cirrose. Não sabia então que o paciente era positivo para COVID, pois não apresentava nenhum sintoma “típico”. Coloquei o tubo e fiz com que ele fosse transferido para outro serviço, e tenho orgulho de dizer que esse paciente sobreviveu. No entanto, 5 dias depois, descobri estar com COVID. Foi terrível. Minhas juntas doíam mais do que eu já havia experimentado antes. Era como se alguém estivesse tentando quebrá-las de dentro para fora. Tive dificuldade para respirar e realmente podia sentir minha garganta e minhas vias respiratórias inchadas. O cansaço e as terríveis dores de cabeça me dominaram por dias. Normalmente tenho enxaquecas, mas era algo muito diferente. Minha comida não tinha o cheiro ou o gosto de normalmente. Minhas decisões diárias consistiam em avaliar o quão importante era levantar para ir ao banheiro, pois isso consumia muita energia para fazê-lo. Tarefas simples obrigavam a tirar uma soneca. Felizmente, me recuperei e, por estar em quarentena, longe de minha família, minha filha e meu marido foram poupados.

Eu tinha tomado todas as precauções. Achei que estava fazendo tudo certo. Eu uso uma máscara dentro e fora do trabalho. Assim que chego em casa, tiro minha “roupa suja” e vou direto para o chuveiro, mesmo que minha filha esteja gritando para ser pega no colo. Meus sapatos de trabalho não entram em casa. Uso EPI completo para qualquer procedimento que realizo no hospital. Peguei turnos extras para ajudar, o que é exaustivo, mas necessário. Eu avisei outros para serem cautelosos. Por muitos meses, esse sistema complexo parecia estar funcionando. Então, 7 meses depois, fui diagnosticada com COVID-19 novamente.

Desta vez, meu marido provavelmente trouxe a infecção para mim. Ele perdeu o sentido do paladar e do olfato e, por excesso de cautela, ambos fizemos o teste e tínhamos resultado positivo. Graças a Deus, minha mãe e minha filha de 14 meses foram novamente poupadas da infecção e até fizeram o teste por precaução. Mais uma vez, tive cansaço e dores de cabeça. Desta vez, também tive uma “névoa cerebral”. Meu cérebro, que normalmente é capaz de funcionar de maneira rápida, estava lento, muito lento. Eu sabia que não estava processando as coisas corretamente e tinha dificuldade em lembrar palavras e nomes. Foi uma sensação horrível. Eu estava mais uma vez em quarentena; desta vez, em vez de ficar sozinha, estava na companhia de meu marido. Sou grato por nós dois nos recuperarmos. Já cuidei de muitos, que não foram tão afortunados.

Alguns podem dizer que ficar sem trabalho e em quarentena “não é tão ruim”, mas eu discordo. Perdi mais de um mês da vida de minha filha, eu tive que ficar longe dela. Entrar em quarentena também significou que meus colegas médicos tiveram que me ajudar e me proteger. Esta foi uma época em que eu não estava disponível para ajudar a equipe médica e cuidar de tantas mães, pais, avós e filhos de outras pessoas em um momento crítico. Este vírus me afastou do meu trabalho, e da minha capacidade de ajudar e cuidar dos outros. Colocou pressão adicional em um sistema médico já tenso. O vírus não se importou que eu fosse uma médica.

Eu sou uma médica de cuidados intensivos e medicina de emergência e estou cansada. Estou cansada da COVID-19, mas não pelos mesmos motivos que ouço outras pessoas dizerem. Não é o uso de máscaras, o distanciamento social, a falta de viagens e o fato de eu usar rotineiramente EPI completo para trabalhar. Não, é muito mais. Estou cansada de ouvir a negação e as declarações de que COVID é “inventado”. Estou emocionalmente exausta com todas as mortes, mortes de pessoas que conversam comigo em um minuto e sofrem uma parada cardiorrespiratória ou respiratória no minuto seguinte. Estou cansada da morte daqueles cujos entes queridos não podem estar ao seu lado, e sei que não estou sozinha na comunidade médica com esse pensamento. É de partir o coração saber que meu rosto mascarado ou o de uma enfermeira é o último rosto que um paciente vê antes de morrer. Gostaria que as famílias estivessem presentes e cuidassem de seus entes queridos, mas o risco é muito alto. Muitas vezes eu já fiquei com EPI completo em um quarto enquanto um paciente morria, para que ele não morresse sozinho. Eu segurei sua mão. Pedi desculpas porque a família deles não pôde estar lá. Pedi desculpas por não podermos salvá-los. Já chorei por trás daquele EPI muitas vezes. Cada morte ainda me afeta, mesmo meses depois. Estou cansada dessas perdas dolorosas.

Estou cansada da falta de espírito comunitário no mundo. Gostemos ou não, estamos todos juntos nisso. Precisamos cuidar uns dos outros, proteger uns aos outros. Eu entendo que há muitas pessoas que se recuperam da COVID-19; eu sou uma delas, duas vezes. No entanto, trabalho diariamente com pacientes que requerem cuidados de UTI. Eles costumam ficar hospitalizados por semanas a meses. E sofrem mais do que apenas tosse ou dificuldade para respirar, ou fadiga e confusão mental. Já vi derrames, ataques cardíacos, insuficiência renal terminando em diálise, fraqueza profunda devido ao ciclo constante de drogas paralisantes e colocação de pacientes de bruços para melhorar sua oxigenação. Tratei pacientes que passaram da caminhada e conversação normais do dia-a-dia para a necessidade de cuidados completos com um tubo de respiração e sonda de alimentação por meses depois de “se recuperarem”.

Estou cansada, mas a cada dia que vou para o trabalho, continuo a derramar meu coração, alma e mente em meus pacientes. Ser médica em cuidados intensivos e medicina de emergência é um trabalho que adoro. Quero ajudar as pessoas e continuarei a fazê-lo até que meus serviços não sejam mais necessários ou eu não possa mais. Eu te prometo isso: vou continuar a lutar por você. Esta médica cansada pede, por favor, lute por nós também. Use sua máscara. Cuide de seus vizinhos. Estamos todos juntos nisso e só juntos sobreviveremos.

LEMBRE-SE: use máscara
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16 respostas

  1. Boa tarde chorei lendo o depoimento dessa querida medica , quantas vezes ainda vamos ver pessoas morrendo por causa desse vírus que muitos nem sequer dão importância a tamanha seriedade, fico triste que esses governantes principalmente o presidente não usa máscara e põe em risco as pessoas que veem nele um exemplo.
    Oro muito por vcs médicos enfermeiros e todos de área da saúde.
    Fiquem com Deus e se cuidem

    1. Sou grupo de risco, tenho procurado seguir os cuidados necessário. Meus familiares tem respeitado as normas orientadas. Peço a Deus proteção e bençãos pra tds os profissionais na linha de frente. O depoimento da Dr nos consientiza cada vez mais da nossa responsabilidade a vida humana. Gratidão Dr que nosso mestre Jesus acompanhe sua vida e de seus familiares

  2. Fico triste de ver o negacionismo e a falta de senso coletivo. É de cortar o coração o relato de profissionais da área de saúde. Eu saí raras vezes desde março, saio correndo, volto correndo, năo permito que ninguém fique perto de mim! Graças a Deus moro numa casa ampla onde as crianças conseguem brincar, mas elas sentem falta das aulas, dos colegas, sair para dar uma volta de carro, para que vejam que ainda existe vida lá fora. É doloroso sabermos que a maioria da população é tăo egoísta e que temos um desgoverno que só atrapalha. Força e saúde para vcs!

  3. É triste admitir isso, mas que esse tipo de apelo à conscientização efetivamente possa vir a se apresentar eficiente, a mudança de seu formato é determinante, pois o relato é extenso, e, infelizmente, a nossa sociedade brasileira (de um modo geral) não é afeita à leitura – quanto mais a de um relato veiculado através de um texto longo. Assim sendo, acredito que um ponto de partida seria o relato feito através de um vídeo, pois esse veículo (o vídeo) além de não exigir os recursos léxicos (Sim! Não podemos nos esquecer dos disléxicos… olha só!) do principal público alvo, possui os recursos adicionais de um maior convencimento da verdade de seu autor, e de uma maior probabilidade probabilidade de êxito desse em sensibilizar o público a aderir ou continuar mantendo as medidas sanitárias normatizadas para essa pandemia. Apesar de que, infelizmente, estou cada vez mais convencido do individualismo das pessoas. – enfim, o que eu mais temia.

    1. Douglas, grato pelo seu comentário. Você tem toda a razão: as minhas postagens são extensas e afugentam muita gente. Mas eu preciso ter prazer em tocar o blog e faço isso o dia todo, 7 dias por semana. E como não sou jornalista, tenho que me virar com o que sai da minha cabeça, do jeito que sai. Enfim, dito isso, gostaria de comentar que o blog conta com um canal no Youtube, que abriga uma centena de vídeos curtos, sobre os mais diversos temas relacionados à dor crônica, a maioria deles feitos em casa. Talvez você aprecie visitar o canal. Desejo um bom 2021 para você e família. Não vai ser fácil…

      1. Parabéns, Dra amei o relato sou da área da Saúde e fico indignada com a falta de interesse por informações e cuidados com este vírus maligno. Mas continue postando pois o saber só, enriquece a quem tem interesse e se ama

  4. Os orgãos de informação nomeadamente a televisão, deveriam passar informações e imagens reais da gravidade da situação, para prevenir a população. Mas não o fazem e, com isso, estão dando uma falsa ideia de que a pandemia está no seu “finalzinho”. Na falta de seriedade para com a dramática situação que se vive, o que se vê é um desrespeito frontal da população para com a pandemia, para com os que sofrem, e sobretudo, para com aqueles que, nesta guerra, estão expostos na linha da frente, batalhando e já exaustos. Cansados de tanto atender os que estão no leito da morte, agonizando dolorosamente e morrendo de covid 19.
    Que ausência de responsabilidade é esse , em que vivemos! Até onde isso pode nos levar?
    Minha gratidão e solidariedade aos profissionais de saúde que, não obstante exaustos e seriamente expostos, não nos negam a sua assistência. Como especialistas conscientes da sua missão, estão aí presentes, prestando seu melhor, socorrendo os aflitos, ainda que correndo risco da sua própria vida. É Deus quem vos proteja. Meu abraço de reconhecimento ao vosso alto profissionalismo.
    Deus vos proteja!

    1. Grato pelos comentários. Isso anima a continuar postando matérias sobre aspectos da pandemia que, se não a espantam, ao menos induzem a refletir sobre a condição humana.

  5. Gostaria de verdade que muitas pessoas vissem o depoimento dessa médica e se colocassem no lugar dessas pessoas , os médicos, enfermeiros, técnicos, limpeza, transporte, estão exaustos.
    Eles precisam de fôlego para poder trabalhar, não é só necessário leitos, é necessário dar aos trabalhadores da área médica condições de trabalho!

  6. Me emocionei com seu depoimento é tão triste ver as pessoas vivendo uma vida como se estivesse tudo normal que Deus abençoe vcs que estão na linha de frente

  7. É muito triste tudo isso que está acontecendo no mundo todo, e mais triste ainda é vê a população brincando como se ñ soubesse a gravidade da doença.

  8. Deixo aqui meu muito obrigada por esse desabafo
    Infelizmente muitas pessoas ainda não se conscientizaram da gravidade dessa doença
    Rezo todos os dias e peço a Deus que dê muita saúde a todos as pessoas que trabalham com e para os doentes e que Ele dê a todos muita força saúde e coragem para que possam continuar a cuidar dos doentes.
    Muito obrigada por tudo que vocês estão fazendo pelos doentes

  9. Perdi meu esposo para a covid 19 foram 10 dias de luta pela vida mais infelizmente a covid 19 venceu.meu amado esposo se foi fiquei só com meu filho Arthur de 2 aninhos . fazem 6 meses que ele partiu era mais que um esposo era amigo ,ótimo pai.ficou internado 10 dias tudo que eu mais queria era estar ao lado dele antes do momento da intubação mais ele se foi sem um a Deus ,sem o último abraço ,sem um eu te amo.se cuidem ,cuidem dos seus.

  10. As vezes é preciso passar pela dor e sofrimento para crer verdadeiramente no que esta acontecendo. Muitas pessoas aproveitam o tempo sem trabalho ou trabalho online, escolas fechadas, filhos em casa para curtirem.
    Va a qualquer praia ou shopping, a qualquer momento e verá que existe um outro mundo dentro do nosso infelizmente.

  11. Seu depoimento de médica intensivista me tocou. Isso é muito amor, compaixão das pessoas infectadas, e seu cuidado dos doentes, até à exaustão. Deus a proteja e dê forcas. Sou pessoa religiosa e de fé e oro pelos doentes e seus cuidadores, e por todo pessoal de frente, tambem dos higienizadores e higienizadoras. Tomo todos os cuidados e peço aos outros que não exponham sua saude e a dos outros. E que tomem a vacina, logo que der. É o pouco que posso fazer…

  12. Olá! Muito comovida ao ler esse relato! Eu tento imaginar como deve ser a luta desses profissionais heróis na corrida pela vida! Cobrança, atenção, cuidado, e responsabilidade! Vale ressaltar o mais importante. Que a vida á um todo tem seu valor…
    Tanto médicos como pacientes em geral.

    Parabéns á todos os profissionais e sua equipe médica!!! ??

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