Coronavirus - by dorcronica.blog.br

Eu sou enfermeira de uti. Estamos nos afogando.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Levará anos até que o impacto da pandemia sobre a saúde mental dos profissionais da saúde que a combateram na linha de frente seja totalmente avaliado, mas já se sabe que não será ameno. Um estudo publicado em 23 de março na revista médica JAMA descobriu que, entre 1.257 profissionais de saúde que trabalharam com pacientes com Covid-19 na China, 71,5% relataram sofrimento, 50,4% relataram sintomas de depressão, 44,6% sintomas de ansiedade e 34% insônia. Enfermeira(o)s e outros trabalhadores, puxavam a fila. Este post transcreve o relato dramático de uma enfermeira de UTI trabalhando no espaço reservado a pacientes com Covid-19.

Alerta: o relato em questão pode ser forte demais para pessoas muito sensíveis.

“Ser enfermeira significa segurar todas as suas próprias lágrimas e começar a desenhar sorrisos no rosto das pessoas.”

Dana Basem

Publicado no MEDPAGE TODAY’S – KevinMD.Com

Lauren Powers, RN, CCRN – 9 de junho 2020

Eu sou enfermeira de UTI. Eu amo o que eu faço. Não é apenas uma carreira: é quem eu sou. Nenhum outro trabalho poderia me oferecer a oportunidade íntima de apoiar e orientar um total estranho nos piores (e ocasionalmente melhores) dias de sua vida. Em nenhum outro lugar eu sairia do trabalho me sentindo tão humilde com o que faço todos os dias. Nada se compara a isso. Simplificando: você não encontra esse senso de propósito e amor pelo trabalho que realiza em outro lugar.

Embora se tenham passado 11 semanas desde o início da pandemia do COVID-19, parece que só se passou um dia, o dia mais longo e mais devastador da minha vida. As linhas da realidade ficam borradas enquanto eu continuo escrevendo a data. Meu único conceito de tempo eram os dias em que eu estava programada para trabalhar e os dias em que não estava. O sol nascendo e se pondo se tornou uma questão de coincidência quando comecei meus turnos noturnos de 12 horas. Não me lembro de como era minha UTI médica antes do COVID. Não consigo me relacionar com os sentimentos após turnos difíceis… Nada se compara com esta pandemia e com o que ela fez comigo, meus colegas de trabalho e essa profissão.

Meus colegas de trabalho fora da sala acenam-nos freneticamente enquanto inclinamos o homem para frente e colocamos a tabela atrás dele. Eu distantemente os ouvi gemer: “Ele é um ONR!” enquanto entrelaço meus dedos e coloco as palmas das mãos em seu esterno.

Nota do blog:
Uma ordem de não ressuscitar (ONR), também conhecida como sem código ou permitir a morte natural, é uma ordem legal, escrita ou oral, dependendo do país, indicando que uma pessoa não deseja receber ressuscitação cardiopulmonar se o seu coração para de bater. Geralmente, o pedido é feito por um médico com base em uma combinação de julgamento médico e desejos e valores do paciente.

Ainda sinto o frasco de morfina que eles me entregaram, rolar entre meus dedos enquanto eu estava diante desse homem como o anjo da morte. Um bandaid tão patético para tornar a dor “melhor” sabendo muito bem no meu coração que deveríamos estar fazendo mais. Um frasco pequeno e insignificante depois de 3 horas derramando cada grama do que eu tinha nesse homem. E tudo o que recebo é um tubo de morfina e uma seringa; isso é tudo que esse homem recebe de nós. Eu senti como se estivéssemos desistindo dele, e não queria. Eu não estava pronta para isso. Ele era alguém de alguém. Isso não significa nada durante uma pandemia?

Lembro-me da descrença que tomou conta de mim quando o supervisor nos disse que a esposa desse homem ali deitado não poderia estar com ele durante seus momentos finais. Sinto sua mão na minha, a outra na de Diane, pois prometemos que ele não morreria sozinho. Esperamos que o telefone do quarto toque com a esposa do outro lado. Sua pressão arterial está diminuindo, a frequência cardíaca diminuindo enquanto os que estão fora da sala tentam entrar em contato com sua esposa. Ela não está respondendo. Faço uma pausa antes de dar a morfina rezando para que possamos ouvir o telefone tocar por causa do alarmante alarme do monitor enquanto seus sinais vitais despencavam. Eu relutantemente empurro a morfina em suas veias depois de não ser capaz de suportar o pensamento de seus últimos momentos de dor. Sua pressão arterial é 46/20. Fica lá. Somos surpreendidos pelo som do telefone tocando e explicamos à esposa que ele não tem muito tempo. Dizemos a ela a insuportável verdade de que ele está morrendo ativamente. Quando o telefone fica ao lado do ouvido, uma voz distante é ouvida do outro lado por apenas alguns segundos e sua linha arterial fica plana. Sem pulso. Ele estava esperando por ela.

Lágrimas e suor afogam meu rosto enquanto tento arrancar meu EPI e sair da sala. Não queria deixá-lo, mas não aguentava mais um segundo nessa realidade. Um turbilhão de emoções cai sobre mim e meus joelhos enfraquecem. Pensei: ‘Se eu conseguir tirar esse vestido e disfarçar, poderei respirar novamente.’ Mesmo depois de tirar o N95 úmido do meu rosto, eu ainda estava sem fôlego, sem palavras e sem acreditar no que aconteceu naquela sala. Eu estava sufocando. Eu quase desmaiei ao atravessar a barreira do quarto dele com meus colegas de trabalho indo atrás para me pegar. Nunca na minha vida senti esse nível de histeria quando o COVID nos mostrou que o que estávamos temendo era realmente muito pior do que poderíamos imaginar. Este se tornou o novo padrão para a pior noite que já tive.

A melhor maneira de descrever as linhas de frente é gritando o mais alto que puder enquanto se estiver debaixo d’água. Estamos todos debaixo d’água, presos em nossas salas de vidro semelhantes a aquários a portas fechadas, rezando para que alguém nos ouça. Imagine ser a única coisa entre a vida e a morte para outros seres humanos, e tudo o que você faz para mantê-los vivos é olhar através de uma porta de vidro que você não pode abrir. Enquanto grita debaixo d’água. Estamos nos afogando.

LEMBRE-SE: use máscara
Cadastre-se E receba nosso newsletter

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

SAIBA TUDO SOBRE VACINAS COVID-19
CLIQUE AQUI
Preencha e acesse!
Coloque seu nome e e-mail para acessar.
Preencha e acesse!
Você pode baixar as imagens no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
ATENÇÃO!
Toda semana este blog publica dois artigos de cientistas e dois posts inéditos da nossa autoria sobre a dor e seu gerenciamento.
Quer se manter atualizado nesse tema? Não duvide.

Deixe aqui seu e-mail:
Preencha e acesse!
Você pode ver os vídeos no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas