Dor Crônica - by dorcronica.blog.br

“Ora, está tudo na sua cabeça, minha senhora”

Está tudo na sua cabeça, minha senhora

Possivelmente, a coisa mais ofensiva que você pode dizer a alguém que sofre de dor crônica é que ela, a dor, “…está apenas na sua cabeça”. Ainda mais se esse “alguém” é uma mulher reclamando de dores crônicas e “você” for seu médico. Em 2020, esse tema foi apresentado (ou melhor, denunciado) com luxo de detalhes no ebook “O Paradoxo de EVA”, da minha autoria.  Imaginei que alguém do lado feminino iria bater palmas, xingar, me processar, enfim, alguma reação vital. Nada. Um ano depois voltei à carga reportando os resultados de uma pesquisa abrangendo mais de 1 mil – repetindo, 1 mil mulheres no Brasil todo – que eu realizei em parceria com uma faculdade de medicina paulista. A metade das mulheres amostradas (498 em 1022) reclamava da (pouca ou nenhuma valorização) que o médico de turno dava às suas queixas de dor. Bingo! A me-ta-de, nada menos! Aquilo moveu a agulha da indignação das visitantes do blog? Nem um milímetro. Enfim, como eu sou teimoso, mas não suicida, agora optei por revisitar o tema do descaso com que a mulher é tratada na frente clínica de um outro ângulo: as consequências que a frase “Está tudo na sua cabeça, minha senhora”, se proferida na consulta médica, têm para ambos os envolvidos: a mulher e seu médico.

“Está tudo na tua cabeça, Alice”.

– Lewis Carroll em “Alice no País das Maravilhas”.

A cena acima ilustrada você deve conhecer, por ouvir falar ou por tê-la vivenciado. O médico reportando que os exames de imagem da paciente deram em nada, e que, portanto, essa sua dor persistente não tem presença material. Ela existe, sim, mas somente na sua cabeça onde, sabe-se, eflúvios mentais como emoções, sentimentos transitam sem consequência para o corpo. Um profissional da saúde dizer para um(a) paciente que reclama de dor persistente “Ora, está tudo na sua cabeça…” equivale a dizer a ela que está imaginando algo que não é lógico ou válido. Em outras palavras, que está deixando sua imaginação fora de controle.

O Contrato Médico-Paciente

Segundo Thom et.al., e vários outros pesquisadores, a confiança do paciente é conquistada pelo médico através de uma amalgama de atitudes demonstradas com clareza durante o contato clínico – contato este que, vale a pena lembrar, baseado num “contrato” entre partes com valores e interesses diferentes.

A delicadeza da situação fora denunciada por Samuel Bloom, pioneiro da sociologia médica, há 60 anos.

A responsabilidade de harmonizar esses interesses e valores em prol de um “acordo” envolvendo diagnóstico e tratamento, recai sobre a parte dominante na interação social, a do médico. Cabe a ele ou ela, entender o que fora contratado do ponto de vista do paciente, e se adaptar ao exigido sem se afastar do objetivo clínico. A base sobre a qual posicionar qualquer estratégia nesse sentido é inspirar confiança no paciente. Algo difícil de se atingir, se parecer menosprezar as queixas de dor deste último.

Ao ingressar na consulta, a paciente pressupõe “contratar” com o médico ao menos quatro comportamentos: escuta ativa, compreensão manifesta, fornecimento de informações claras e honestas, e a manifestação de que quem cuida da sua saúde “se importa”.

A negação da dor reportada pela paciente, pelo médico, põe todos esses aspectos em dúvida.

A atitude pode ser sinalizada sutilmente por via de um mal desempenho desses comportamentos, ou por meio de descartes claros e diretos, do tipo “Não há razão para sua dor. Está tudo na sua cabeça, minha senhora”. O importante é que, dependendo de variáveis como a personalidade, a intensidade da dor, o desânimo com a persistência da dor etc. da paciente, qualquer desvio em relação ao comportamento esperado do médico pode ser percebido como significando desrespeito, preconceito, indolência etc., e até contaminar a sua avaliação profissional do médico, na sua dimensão instrumental (técnica).

As Consequências

Cabe agora inquirir sobre as implicações, para o médico e para a paciente, de dar a impressão à paciente de desestimar suas queixas de dor, e com isso, de haver uma “quebra de contrato”.

Para a mulher:

Falta de entendimento do diagnóstico, adesão defeituosa e provável abandono do tratamento, com o consequente deterioro do nível de qualidade de vida.

Impacto socioeconômico negativo na família e na sociedade como um todo.

Hoje a mulher é o ganha-pão ou um dos principais provedores da família, sem deixar de cumprir com o seu papel de cuidadora do lar. O advento da pandemia do coronavírus, sabe-se, contribuiu a tornar ainda mais pesada essa carga, seja por falta de emprego e trabalho, ou por ter que conviver diuturnamente com filhos e marido num regime anormal (confinamento).

Piora de doenças e dores devido a erros de diagnóstico e posterior subtratamento.

Várias pesquisas de campo realizadas recentemente nos Estados Unidos Estados Unidos mostram que uma importante proporção (35%) de médicos e pacientes reportam erros de diagnóstico com relativa frequência, e muitos destes últimos (55%) se declaram preocupados com isso ao se consultar com médicos, seja no consultório ou no Pronto Socorro.

Reportam erros de diagnóstico
35%
Preocupados
55%

Não obtive dados sobre o impacto eventualmente diferenciado de erros de diagnóstico em função do sexo no Brasil Brasil. Contudo, considerando que dos 20 milhões de hospitalizados ao ano no país – 1/3 é mulher – 1,3 milhão sofre pelo menos um efeito colateral “causado por negligência ou imprudência durante o tratamento médico”, e que quase 55 mil morrem ao ano por causa de erros médicos, é possível imaginar a envergadura do dano causado por esses erros à mulher.

Distúrbios psicológicos.

As associações entre rejeição social e sentimento de culpa e vergonha, e entre rejeição social e dor física, têm sido bem pesquisadas e comprovadas – em mulheres, inclusive. A falta de atenção às queixas de dor da paciente pelo médico, real ou não, é uma forma de rejeição social, e consequentemente pode prolongar o sofrimento, gerar sequelas psicológicas e, dependendo do caso, até colocar a saúde da mulher em sério risco. No caso da relação médico-paciente, dois fatores potencialmente amplificam essas possibilidades: o respeito atávico, quase religioso, evocado em muita gente pela figura do médico, e o papel legitimador de uma doença, ou da sua gravidade, conferido a este pela sociedade.

Obter “oficialmente” legitimidade para uma doença crônica via médico é importante para a paciente, não só por reduzir a incerteza que naturalmente a atormenta, mas também para dissipar as dúvidas que pairam no entorno social sobre a sua condição, e a dor que provoca.

Um estudo de 2006 publicado no British Journal of Obstetrics & Gynecology entrevistou mulheres com dor pélvica crônica e concluiu que “a maioria sentia que sua dor e sofrimento não haviam sido legitimados por pelo menos um médico que haviam consultado”.

Mais especificamente: as mulheres desejavam cuidados pessoais; sentir-se compreendidas e levadas a sério; explicação tanto quanto cura; e ser tranquilizadas – o que em geral não acontecia.

Por fim, a negação de uma doença que a mulher instintivamente identifica como sendo ginecológica, por exemplo, ou de uma dor que ela sente, desestabiliza a visão que ela tem de si mesma, afetando a sua autoestima. A reação costuma ser a de se culpar e se atribuir responsabilidade pelo fato de não estar melhorando.

Esse efeito deletério sobre o self da mulher foi constatado numa pesquisa qualitativa de 22 mulheres recrutadas em um centro de atenção primária à saúde urbana no norte da Suécia Suécia.

A persistência da dor, a falta de controle sobre ela e o impasse (em obter da medicina uma resposta em linha com o sugerido pelo próprio instinto) atentavam contra o self das mulheres e desvalorizavam a sua autopercepção como “mulheres capazes”. Como, em geral, as causas aventadas por elas para as dores que sentiam não eram reconhecidas pelos médicos, muitas delas exibiam “ideias autoculpáveis”.

Para o médico:

Baixa adesão ao tratamento

Segundo a Organização Mundial da Saúde, em países desenvolvidos a adesão a tratamentos prescrevendo medicação entre pacientes que sofrem de doenças crônicas é em média de apenas 50%. Nos Estados Unidos Estados Unidos, por exemplo, apenas 51% dos pacientes tratados por hipertensão aderem ao tratamento médico prescrito. Nos países em desenvolvimento o problema da adesão é ainda maior.

Doctor shopping

Uma revisão sistemática de 43 artigos sobre doctor shopping – a prática do(a) paciente visitar vários médicos para obter várias prescrições de drogas ou a opinião médica que se deseja ouvir – mostrou aquilo ser um fenômeno corriqueiro.  A taxa desse fenômeno varia entre as populações de pacientes com diferentes problemas de saúde. No entanto, o estudo trouxe à tona as características dos praticantes: educação (baixa), classe econômica (baixa), idade (jovem) e sexo (feminino). Entre os fatores que reduzem o doctor shopping, também foram apontados: um diagnóstico adequado, alta satisfação do paciente e uma boa relação médico-paciente.

Baixa Autoeficácia Percebida do Médico

A autoeficácia do médico depende da sua confiança quanto a conseguir se comportar de maneira que o paciente perceba a sua intenção subjacente. Por exemplo, se a intenção é comunicar X ao paciente, que este não entenda Y, e muito menos que se sinta desconfortável por conta disso.

Experiências bem-sucedidas, como por exemplo, um paciente aderir ao tratamento, conseguir alívio e tornar a consultar o médico no futuro, aumentam as crenças de autoeficácia no médico, enquanto as mal sucedidas, as reduzem. Há ganhos ou perdas psicológicas relacionadas a isso. Pesquisadores paquistaneses coletaram dados de 80 médicos (40 homens e 40 mulheres) lotados em 3 hospitais, e descobriram uma relação negativa entre autoeficácia e burnout. Além disso, a autoeficácia também se mostrou correlacionada negativamente com exaustão emocional e despersonalização no trabalho, e positivamente, com a realização pessoal.

Em síntese, afrontar inadvertidamente pacientes mulheres ao parecer não valorizar suas queixas de dor tem um custo para o médico. Seja porque as pacientes desistem do tratamento ou do vínculo com ele, ou pela sensação de fracasso numa profissão onde a cura ou o alívio de cada paciente é um objetivo a ser atingido.

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4 respostas

  1. Sobre a matéria que está tudo na sua cabeça, parabéns aos responsáveis pela matéria. Tenho fibromialgia e dor miofacial, sofro muito de dores e infelizmente já ouvi esta famigerada frase e sai chorando do consultório. Mas hoje, sei o que tenho, já passei por diversos profissionais médicos bons e outros péssimos . Caso hoje, um médico me fale está frase que as dores são da minha cabeça, eu vou perguntar se ele realmente é médico, pois se for, que ele vá se atualizar, estudando um pouco mais.
    Nos portadores de dores crônicas somos muito humilhados por profissionais de saúde que duvidam do que estamos sentindo.

    1. Concordo plenamente com seu comentário. Quando eu era jovem, manifestei fibromialgia aos 21 anos, ouvi muito isso. É da sua cabeça. Hoje o médico que ousar dizer isso, vai ouvir que ele deve se atualizar e que assim como qualquer outro profissional a formação dele necessariamente precisa ser continuada.

    2. Grato pelo seu sincero comentário. Nisso de: ”Está tudo na sua cabeça”, convergem preconceito (“A mulher é neurótica etc.”) e ignorância (“A dor precisa de uma ferida à vista para merecer crédito”. Seja bem-vinda a continuar navegando pelo blog e pelo site Fibrodor, que é justamente sobre fibromialgia. Vai encontrar muita coisa interessante, que pode inspirar a busca de alívio para sua condição, fora de consultórios e farmácias.

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