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Então o corona se transmite pelo ar. Como é isso? Quais as consequências?

Então o corona se transmite pelo ar

Durante meses, a OMS insistiu que o novo coronavírus era transmitido por gotículas emitidas quando as pessoas tossem ou espirram. Gotas que não permanecem no ar, mas caem em superfícies – é por isso que a lavagem das mãos foi identificada como uma medida essencial de prevenção. Mas 239 cientistas de 32 países não concordam: eles dizem que também há fortes evidências para sugerir que o vírus também pode se espalhar no ar: através de partículas muito menores que flutuam por horas depois que as pessoas falam ou espirram.

Semana passada, a OMS admitiu que havia evidências para sugerir que isso era possível em contextos específicos, como espaços fechados e lotados. Nesse post eu comento esse debate, apresento um vídeo descrevendo 4 experimentos afins e aponto as sérias consequências do achado, se verdadeiro, para o combate da Covid-19 em todo o mundo.

“Não há provas incontestáveis de que o SARS-CoV-2 viaja ou é transmitido significativamente por aerossóis, mas não há absolutamente nenhuma evidência de que não seja”.

– Dra Trish Greenhalgh, University of Oxford, Great Britain

Semana passada, a OMS finalmente reconheceu que há evidências de que o novo coronavírus é transmitido também pelo ar. Isso foi devido a pressão de nada menos que duas centenas de cientistas em geral baseados em estudos pequenos e não randomizados, mas não por isso descartáveis.

Até agora, a OMS afirmou que a principal via de transmissão do novo coronavírus é por gotículas respiratórias, a coleção de partículas que uma pessoa expulsa quando espirra ou tosse. Devido ao tamanho e peso relativamente grande das gotículas, o seu raio de contaminação em geral não supera 1,5 metros porque elas caem mais rapidamente no chão depois de serem expulsas de uma pessoa.

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No entanto, um grupo de 239 cientistas acha que isso muda em se tratando de partículas de aerossol, muito menores que as gotículas. Por serem minúsculas, em torno de 10 mícrons – um mícron equivale a um milionésimo de metro – elas podem flutuar no ar por horas, transmitindo o novo coronavírus.

A OMS, porém, não está de todo convencida.

“Especialmente nos últimos dois meses, declaramos várias vezes que consideramos a transmissão aérea possível, mas certamente não suportada por evidências sólidas ou até claras”.

– Benedetta Allegranzi, líder técnica da OMS no controle de infecções

Mais concretamente, a OMS alega que a transmissão aérea do vírus só é possível produzindo artificialmente aerossóis ou gotículas menores que 5 mícrons em ambientes laboratoriais. (Um mícron é igual a um milionésimo de metro.) E que, então, os problemas relativos à ventilação ou a capacidade protetiva das máscaras seriam preocupantes apenas nessas circunstâncias extremas.

Assim as coisas, enquanto não houver estudos randomizados e controlados abrangendo umas quantas centenas ou milhares de pessoas sendo observadas tossindo e espirrando desenfreadamente durante vários minutos, nada de evidências, portanto nada feito. (Por sinal, o mesmo argumento usado pela OMS de janeiro a junho para não recomendar o uso de máscaras, ora considerado imprescindível no elenco de medidas para mitigar a propagação do vírus.)

Ora, a discussão sobre o que é evidência e o que não é, data do tempo que as cobras caminhavam. De um lado, é verdade que as provas para validar um fenômeno ou medicamento precisam ser obtidas cientificamente. Porém, há experimentos que simulam a realidade cujos resultados podem ser avaliados com base no bom senso. E há também evidências que podem ser constatadas a olho nu na volta da esquina. E ocorre que em tempos de epidemia (quase) qualquer buraco é trincheira; não há tempo para preciosismos outrora necessários.

Os cientistas que interpelaram a OMS se baseiam em várias experiências envolvendo a transmissão do vírus pelo ar, “principalmente em espaços internos pouco ventilados e lotados”.

“Sabemos desde 1946 que tossir e falar geram aerossóis”.

– Linsey Marr, especialista em transmissão aérea de vírus da Virginia Tech.

Eu selecionei quatro exemplos de experimentos laboratoriais investigando a transmissão aérea do novo coronavírus. Eles aconteceram em universidades nos quatro cantos do planeta – um  finlandês, outro americano, um terceiro brasileiro e ainda um quarto realizado na China. A descrição de todos eles pode ser vista nesse vídeo, também preparado especialmente pelo blog.

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O primeiro é um projeto conjunto realizado por quatro organizações de pesquisa finlandesas – entre elas as universidades de Aalto e Helsinski.
Os pesquisadores modelaram um cenário em que uma pessoa tosse em um corredor entre prateleiras, como as encontradas em supermercados; e levando em consideração a ventilação.
A nuvem de aerossol – note que não são gotículas, mas aerossóis ……………..  – se espalha para fora da vizinhança imediata da pessoa que tosse e se dilui no processo. E isso pode levar alguns minutos.
Ou seja, alguém infectado pelo coronavírus pode tossir e se afastar, mas depois deixa para trás partículas extremamente pequenas de aerossol carregando o coronavírus. Essas partículas podem acabar no trato respiratório de outras pessoas próximas.
Conclusão: evite espaços públicos, especialmente quando são fechados.
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E falando em espaços fechados, como bares e restaurantes – convém conhecer um outro experimento, dessa vez a cargo de pesquisadores da Florida Atlantic University.
Usando raios laser, eles conseguiram ver a distância percorrida por uma tosse simulada, que gera partículas na ordem de 10 a 20 microns, equivalente a gotícula de menor tamanho.
Distâncias 3 pés = 91,44 cm
6 pés = 1,8289 mt
9 pés = 2,7432 mt
12 pés = 3,6576 mt
A marca dos 6 pés é ultrapassada uma e outra vez.
Quando a tosse é suficientemente potente como para alcançar 9 pés, os aerossóis podem se manter no ar entre 2 e 3 minutos. Eis a má notícia. A boa é que, à essa altura, a concentração da nuvem de aerossóis é 8 vezes ao passar pelos 6 pés.
As gotículas ficam menos densas, porém ainda aéreas e, portanto, capazes de transportar um vírus.
A máscara RESOLVE?
Não por completo.
Em suma, diz o professor: usando ou não máscara, fique a pelo menos 6 pés de distância de quem quer que seja – ou mais longe. Se possível.
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Agora uma experiência brasileira semelhante à anterior. Note como o modo de experimentação pode modificar as medições, e mesmo assim tirar as mesmas conclusões.
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E por fim, um experimento chinês mostrando a transmissibilidade do vírus por parte de uma pessoa num restaurante onde há outras 20 pessoas realizado por pesquisadores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Guangzhou.
Quase desconhecida dois meses atrás quando a relatei nesse blog, hoje é a evidência mais notória apontada pelos cientistas para afirmar que não é necessário sequer uma pessoa infectada com o vírus espirrar, tossir ou gritar num restaurante para infectar muitos no recinto. Basta ela falar. Simplesmente falar.

Resumo da Ópera:

  • A infecção por gotículas, continua sendo o principal caminho de transmissão do coronavírus.
  • Aerossóis, no entanto, também são perigosos. Sendo muito leves eles conseguem se manter mais tempo no ar, eventualmente transportando o vírus.
  • As distâncias mais seguras em relação a outros começam a partir de 1,8 metros.

E por que a OMS apenas hoje se dispõe a revisar evidências de transmissão de coronavírus pelo ar? Suspeito que a sua relutância se deve às colossais consequências que isso acarretaria se for verdade. Por um lado, com grupos de aerossóis invisíveis pairando em ambientes vazios – como um corredor de supermercado, ou uma sala de reuniões, ou um salão de festas… – ninguém poderia se sentir protegido da contaminação, mesmo usando a máscara caseira recomendada. Por outro lado, em lugares fechados com sistema de ar condicionado o vírus se multiplicaria absurdamente. Aliás, uma das hipóteses quanto a origem do surto viral na cidade de Wuhan, na China, é a de que este ocorreu num restaurante. O fator chave para a infecção teria sido o sistema de ar condicionado.

“Em ambientes de saúde, se a transmissão de aerossóis representa um risco, entendemos que os profissionais de saúde deveriam estar realmente usando o melhor equipamento preventivo possível … eis, na verdade, uma das razões pelas quais a Organização Mundial da Saúde disse que não estava interessada ​​em falar sobre a transmissão da Covid-19 por intermédio de aerossóis. A de que não há um número suficiente desse tipo de máscara especializada em muitas partes do mundo”.

– Dr Benjamin Cowling, Hong Kong University

O mundo, enfim, precisaria repensar radicalmente a atual maneira de impedir a propagação do vírus.

Máscaras e escudos de plástico seriam necessários o tempo todo. Os sistemas de ventilação nas escolas, nos hospitais e clínicas, faculdades e hotéis, empresas e residências, transportes públicos e privados precisariam minimizar o ar de recirculação e adicionar novos filtros poderosos. E luzes ultravioletas teriam de ser instaladas para matar partículas virais surfando em pequenas gotas dentro desses locais. De nada adiantaria os restaurantes manterem as mesas separadas por dois metros – para não falar dos bares e botecos!

Combater a pandemia do Covid-19, enfim, se tornaria muito mais difícil e caro, especialmente em lugares onde as pessoas não estão dispostas a usar máscaras faciais, seja no bairro do Leblon ou na favela do Beco do Kisuco.

LEMBRE-SE: use máscara
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