Dor Crônica - by dorcronica.blog.br

Endometriose: uma cirurgia de respeito

Endometriose: uma cirurgia de respeito

Finalmente, a existência de um(a) influencer serve de algo. A celeuma criada em torno da cirurgia da Anitta para tratar de endometriose trouxe à tona essa doença que afeta 1 em cada 10 mulheres no Brasil. Sobre a doença em si, a mídia já comentou muita coisa e isso foi bom. Eu notei, contudo, que as características da cirurgia ficaram na penumbra. Li, por outro lado, que nos Estados Unidos em cada 10 mulheres que consultam médico por conta da endometriose, 41% das que são avaliadas fisicamente, vão para a mesa de operações. O tema não é ameno, obviamente, mas deveria interessar a milhares de mulheres.

“Falta de higiene? Não. Falta de preservativo? Não. Falta de água? Não. Falta de pesquisar a fundo todas as variáveis que cada corpo pode responder a uma anomalia? SIM.”

– Anitta

A excisão da endometriose é uma operação que permite cortar todo o tecido endometriótico visível na pélvis da paciente. Isso significa que, uma vez removido, o tecido não volta a crescer e é por isso que seus sintomas devem melhorar.1

Segundo o Dr. Gustavo Safe, especialista em endometriose, a abordagem cirúrgica à endometriose, em geral visa: “… cuidar do bom funcionamento pélvico e abdominal, restabelecer a anatomia, tirar as aderências e melhorar o funcionamento das partes ginecológicas, urinárias e intestinal. Depois, retirar a endometriose. Em alguns casos, é necessário a retirada de outros órgãos, como pedaços da bexiga ou da parede do intestino – o que pode demandar alguma dificuldade cirúrgica, pior ou melhor recuperação”.2

As técnicas cirúrgicas usadas para remover tecido semelhante ao endométrio são:

Excisão O tecido é cortado.
Ablação O tecido é destruído usando congelamento, aquecimento, eletricidade ou raios laser.

Das duas técnicas cirúrgicas clássicas para a endometriose, laparoscopia e laparotomia, a usada no caso da Anitta foi a primeira, considerada minimamente invasiva.3 Ela usa uma câmera pequena e fina chamada laparoscópio e requer apenas pequenas incisões para ver o abdômen. A laparoscopia é realizada sob anestesia geral. Dormindo, a paciente não sente dor.

A rotina da cirurgia da endometriose é convencional. Vestida com apenas uma espécie de avental a paciente recebe injeções intravenosas sedativas e conversa com enfermeiras, anestesiologistas e seu cirurgião na sala pré-operatória e, também, na sala de cirurgia.

Nesta última, há uma meia dúzia de pessoas das que, apenas um anestesista e um instrumentista perguntam à paciente, ou a informam de alguma coisa. O primeiro coloca a paciente para dormir antes ou após esta ser movida para a mesa de operação e coberta para, como no caso em pauta, a laparoscopia para excisão de endometriose.

Paralelamente, a paciente é lavada para que os tecidos próximos da cirurgia, além de mãos e antebraços, fiquem estéreis. Betadine, um antisséptico, é usado para desinfetar a pele antes que as incisões sejam feitas.

Durante a laparoscopia para excisão da endometriose:

  • O cirurgião faz algumas pequenas incisões perto do umbigo.
  • Geralmente são feitas quatro incisões: uma no umbigo, uma em cada lado do abdome entre o umbigo e a pelve e uma alguns centímetros abaixo do umbigo. Juntas, essas quatro incisões criam uma forma de diamante. Essas incisões também são conhecidas como portas e são os locais onde os instrumentos cirúrgicos serão inseridos.
  • Uma das primeiras coisas a serem inseridas é um tubo que bombeia o gás dióxido de carbono para o abdômen. Isso permite que o abdome infle e se expanda para que haja melhor visibilidade e acessibilidade para o cirurgião.
  • Em outra das incisões é inserida uma câmera de laparoscopia iluminada para visualização do útero, trompas de falópio, ovários, parede abdominal, intestinos, reto e muito mais. Os instrumentos cirúrgicos serão inseridos nas outras aberturas.
  • Um manipulador que é inserido na vagina também pode ser usado para mover o útero e procurar endometriose ao redor e atrás dele.
  • O cirurgião remove o máximo de tecido possível de órgãos como ovários, bexiga, trompas de falópio e reto. Uma amostra deste tecido pode ir para um laboratório para teste. O cirurgião também removerá qualquer tecido cicatricial nos órgãos acima.
  • Por fim, o cirurgião fecha as incisões. Dependendo da sua reação, a paciente pode ir para casa no mesmo dia da cirurgia, ou no dia seguinte.

Como a endometriose é identificada e extirpada?

Se por um lado, a laparoscopia não é invasiva, por outro lado, a excisão da endometriose não deixa de ser uma cirurgia complexa. O cirurgião precisa identificar as lesões da endometriose não apenas olhando e usando uma câmera cirúrgica, mas também sentindo as diferenças entre as diferentes áreas do tecido dentro e ao redor do abdômen e da pelve. Mesmo conhecendo os sintomas da paciente, ele ou ela não saberá do local da endometriose até olhar dentro e ao redor do abdômen e da pelve.4

Importa mencionar que o objetivo da cirurgia, no caso, é do tipo sim-ou-sim. Ou seja, não há espaço para resultados medíocres. A remoção completa da endometriose é fundamental para o alívio completo dos sintomas porque o que o cirurgião vê é apenas uma parte da lesão. A parte subjacente pode crescer novamente levando à recorrência dos sintomas.

E o que denuncia endometriose nesse ou naquele local? Isso também não se mostra de forma cristalina. A cor das lesões e aderências da endometriose pode ser escura, ou não. Pode haver tecido cicatricial em locais onde a endometriose cresceu, mas também existe endometriose infiltrativa profunda. Algumas lesões não são vistas porque estão atrás do peritônio ou dentro dos ovários ou outros órgãos. Quando estes são mais de 5 a 10 mm, elas somente podem ser encontradas via ultrassonografia ou ressonância magnética.

Em suma, há dificuldades e riscos que apenas um cirurgião com ampla experiência e treinamento na identificação e excisão da endometriose pode mitigar.

A complexidade da endometriose

Convém entender que, se bem a cirurgia da Anitta é minimamente invasiva e quase um procedimento ambulatorial, a endometriose, enquanto doença, é muito complexa. Ela afeta principalmente órgãos na região pélvica, contendo ovários, trompas de falópio, útero, colo do útero e vagina. O tecido endometrial deve crescer em seu útero, que é o órgão responsável por abrigar e desenvolver um bebê na gravidez. Na endometriose, o tecido endometrial pode crescer em torno dos ovários e trompas de falópio, como a bexiga, ureteres e reto.5 Em casos raros, o crescimento do tecido pode se espalhar para outros órgãos da pélvis, mesmo que não estejam relacionados à reprodução. Algumas mulheres têm crescimento de tecido endometrial ao redor de seus intestinos, reto e bexiga.6

Para complicar ainda mais as coisas, descobriu-se que a endometriose cresce em órgãos fora do abdômen e da pelve, incluindo intestinos, diafragma, pulmões e cérebro.7 Portanto, pode haver necessidade de cirurgiões adicionais de diferentes especialidades de prontidão, além do especialista em excisão de endometriose. Urologistas, gastroenterologistas e cirurgiões torácicos podem fornecer conhecimentos adicionais, se necessário, dependendo de onde as lesões estão localizadas.

A laparoscopia para excisão da endometriose é quase um procedimento ambulatorial, mas é comum que vários tipos de “subprocedimentos” sejam realizados além da excisão, como cistectomia ovariana ou ureterólise.

  • Uma cistectomia ovariana é a remoção cirúrgica de cistos em um ou ambos os ovários. Isso é necessário quando há um endometrioma ou um cisto de chocolate no ovário. Este tipo de cisto é preenchido com endometriose e tecido semelhante ao endométrio. Durante a cirurgia, a parede do cisto será cortada e o conteúdo do cisto, juntamente com o próprio saco do cisto, será aspirado através de uma das pequenas incisões feitas anteriormente no abdômen.
  • A ureterólise também pode precisar ser realizada se as lesões de endometriose forem encontradas nos ureteres, que são os tubos que conectam os rins à bexiga. Este procedimento visa expor e liberar o ureter das aderências.

Uma vez que a endometriose é removida, as incisões serão fechadas e qualquer tecido extirpado será enviado para a patologia para confirmar a presença de endometriose. A paciente será levada para a Unidade de Recuperação Pós-Anestesia, até que acorde e seja liberada para alta. Então, quando você acorda em recuperação, tudo pode parecer um borrão. Você não tem noção de quanto tempo dormiu e está ansiosa para saber como foi o procedimento. No entanto, não é frequente que as pacientes realmente vejam, muito menos conversem com seu cirurgião após a cirurgia no pós-operatório. Na maioria dos casos, cabe aos seus enfermeiros ou familiares transmitir a notícia de como foi a operação. Depois de ser monitorada por algumas horas em recuperação, você receberá alta e será enviada para casa. E assim todo o medo, preocupação e nervos que você tinha antes da cirurgia se foram. Agora começa o processo de cura e espero que o início de uma vida melhor com menos dor.

Baseado no artigo “An Inside Look: Endometriosis Excision Surgery in the Operating Room”, de Jenna Dvorsky, publicado em 23/06/22

Cadastre-se E receba nosso newsletter

Veja outros posts relacionados…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

CONHEÇA FIBRODOR, UM SITE EXCLUSIVO SOBRE FIBROMIALGIA
CLIQUE AQUI
Preencha e acesse!
Coloque seu nome e e-mail para acessar.
Preencha e acesse!
Você pode baixar as imagens no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
ATENÇÃO!
Toda semana este blog publica dois artigos de cientistas e dois posts inéditos da nossa autoria sobre a dor e seu gerenciamento.
Quer se manter atualizado nesse tema? Não duvide.

Deixe aqui seu e-mail:
Preencha e acesse!
Você pode ver os vídeos no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o mini-ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas