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Em busca da chave da dor crônica no cérebro

Em busca da chave da dor crônica no cérebro

Cientistas americanos estão examinando sinais de duas áreas do cérebro para compreender melhor a dor crônica. Num novo estudo, sinais de duas áreas do cérebro ligados à dor aguda são ativados durante crises de dor crônica. As novas descobertas podem ajudar no desenvolvimento de tratamentos para dores crônicas.

Nota do blog: Às vezes, ou quase sempre, me parece inacreditável o desinteresse (relutância, até) dos profissionais da saúde consultados por pacientes com dor (crônica, principalmente) em aprender sobre a neurociência da dor. Na minha humilde opinião – eu não sou médico, e sim um ex-paciente com dor crônica que resolveu estudá-la para se livrar dela – quem desconhece aquilo nem deveria tratar de pacientes com dor crônica. Uma opinião radical, eu sei, mas acredite, bem fundamentada no que a ciência mostrou sobre esse tema nos últimos 30 anos. Você quer tratar (bem) da sua dor crônica? Ou da dor crônica de alguém? Comece por entender o papel do cérebro nisso tudo. Direto e reto. Por isso, sempre que descubro na web um novo achado científico sobre a relação cérebro-dor crônica, não hesito em divulgá-lo. Poucos se interessam, claro. Afinal, não há comprimidos ou exames de imagem nessa proposta. Porém, mais dia, menos dia, eu sei, a ficha vai cair em um ou outro. Onde? No cérebro. Onde mais poderia ser? Tudo passa por ali.

Pela primeira vez, os cientistas mediram biomarcadores e atividade em áreas do cérebro relacionadas com a dor crônica. Os pesquisadores usaram aparelhos de ressonância magnética funcionais para investigar se duas áreas do cérebro conhecidas por serem ativadas durante a experiência de dor aguda – o córtex cingulado anterior (ACC) e o córtex orbitofrontal (OFC) – também são ativadas durante a experiência de dor crônica.

Os cientistas reuniram dados de quatro indivíduos, três com dor crônica causada por acidente vascular cerebral e um com membro fantasma após amputação de uma perna.

O raio X mostra dois dispositivos de registro implantados nos ombros e eletrodos de registro colocados no cérebro. Prasad Shirvalkar, M.D., Ph.D., UCSF.

O raio X mostra dois dispositivos de registro implantados nos ombros e eletrodos de registro colocados no cérebro. Prasad Shirvalkar, M.D., Ph.D., UCSF.

Os sujeitos tiveram eletrodos implantados para registrar a atividade de ACC e OFC durante episódios de dor crônica.

Essas medições, combinadas com o autorrelato da gravidade e do tipo de dor, permitiram aos pesquisadores usarem o aprendizado de máquina para prever episódios de dor crônica observando a atividade do OFC. A dor aguda, por outro lado, pareceu desencadear mais atividade do ACC, sugeriu um estudo separado da equipe de pesquisa.

As descobertas foram publicadas na revista Nature Neuroscience. “Quando você pensa sobre isso, a dor é uma das experiências mais fundamentais que um organismo pode ter”, disse o Dr. Prasad Shirvalkar, professor associado de anestesia e cirurgia neurológica da Universidade da Califórnia em São Francisco e primeiro autor do estudo.

“Apesar disso, ainda há muito que não entendemos sobre como funciona a dor. Ao desenvolver melhores ferramentas para estudar e potencialmente afetar as respostas à dor no cérebro, esperamos fornecer opções para pessoas que vivem com condições de dor crônica.”

A importância deste estudo

Estudos anteriores sobre dor crônica basearam-se principalmente em autorrelatos. Especialistas dizem que incluir a dimensão adicional de exames cerebrais diretos ajuda a obter uma compreensão mais completa da natureza da dor crônica. “O autorrelato e as medidas quantitativas, como exames cerebrais, oferecem diferentes benefícios e desvantagens”, disse o Dr. Dung Trinh, médico-chefe da Health Brain Clinic, que não esteve envolvido no estudo.

“O autorrelato depende de os indivíduos descreverem suas experiências de dor, fornecendo informações subjetivas sobre a intensidade, qualidade e impacto emocional da dor”, explicou Trinh. “Essa abordagem permite captar a experiência vivida da dor e seus efeitos no cotidiano. Por outro lado, os autorrelatos podem ser influenciados por preconceitos individuais, variações na interpretação e problemas de recuperação de memória.”

“Medidas quantitativas, como tomografias cerebrais, fornecem dados objetivos sobre a atividade cerebral associada à dor”, continuou ele. “Eles oferecem uma medida mais direta e fisiológica do processamento da dor. Combinar autorrelatos com medidas objetivas pode fornecer uma compreensão mais abrangente”, acrescentou.

A conexão do cérebro com a dor

“Tendo estudado neurociência desde meados dos anos 80 e tratado pessoas com todos os tipos de lesões na medula espinhal e nos nervos durante 34 anos, é excepcionalmente claro que existe um aspecto central, mediado pelo cérebro, na dor crônica”, disse Dr. Robert Masson, neurocirurgião que não esteve envolvido no estudo.

“A organização sofisticada do cérebro, tanto em relação à sua estrutura intrínseca, como também relacionada com a sua capacidade fundamental de ‘aprender’, a sua plasticidade presta-se à capacidade de reduzir ou melhorar a dor crônica. A complexidade vai além da dor em si e é derivada do cérebro emocional, dos gatilhos de ansiedade, das respostas de luta ou fuga ou de ‘simpatia’ e, ao longo do tempo, das mudanças no ambiente neuroquímico.”

A nova pesquisa faz parte de um esforço mais amplo da iniciativa Brain Research Through Advancing Innovative Neurotechnologies (BRAIN) do National Institutes of Health (NIH) e da iniciativa Helping to End Addiction Long-term Initiative (HEAL), esta última destinada a reduzir o uso de opioides e outros analgésicos no tratamento da dor crônica.

“A medicação é uma parte muito pequena e mal direcionada da estratégia de tratamento da dor crônica”, disse Masson.

“Compreender a interação complexa e o aprendizado de máquina biológica que o cérebro opera, ajudará a criar caminhos, no início dos episódios de lesão nervosa, que diminuirão a plasticidade direcionada para uma melhor recuperação e para longe da dor crônica e da dependência química.”

Como esta pesquisa pode ajudar pessoas com dor crônica?

Informando outros estudos dentro do HEAL e do BRAIN que estão tratando a dor crônica com estimulação cerebral profunda (DBS). Identificar os biomarcadores de atividade corretos para dor crônica por meio de ressonância magnética é o primeiro passo para poder “sintonizar” o DBS de uma forma que possa ajudar as pessoas com dor crônica.

“A dor crônica é um problema significativo a nível mundial, contribuindo para a incapacidade e a redução da qualidade de vida de milhões de pessoas”, disse Trinh. “Os tratamentos atuais para a dor crônica têm frequentemente limitações e há uma necessidade crítica de opções mais eficazes e não viciantes”, acrescentou.

O trabalho em curso e futuro envolvendo mais participantes será fundamental para determinar se diferentes condições de dor partilham a atividade OFC observada nestes pacientes ou como as assinaturas diferem entre pessoas com diferentes condições de dor.

Abordagens mais modernas para DBS que ajustam a estimulação com base em biomarcadores de atividade do cérebro têm sido usadas para tratar com sucesso alguns distúrbios cerebrais, incluindo a doença de Parkinson e o transtorno depressivo maior, mas esses sucessos exigiram biomarcadores cerebrais bem estabelecidos. Para condições como a dor crônica, a identificação de biomarcadores está numa fase inicial.

Tradução livre de “Brain signatures for chronic pain identified in a small group of individuals”, NIH (National Institutes of Health).

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