Duzentas opções, nenhuma solução?

Duzentas opções, nenhuma solução?

Tratamentos para a dor nas costas hoje são vendidos como acarajé na rua. Previna-se, você pode acabar com dor de barriga.

Demasiadas Opções: Um Problema que Pode Paralisar

The New York Times1
Em qualquer mercado de saúde no Ocidente as opções terapêuticas são centenas, literalmente. Diante disso, o consumidor novato deve se perguntar: Qual é o melhor produto/serviço para mim, certo?

Errado. Se você é essa pessoa – e sofre de dor crônica lombar, ou de enxaqueca, ou de Síndrome do Cólon Irritável, o meu conselho é: não faça isso.Pergunte melhor: Qual é o tratamento terapêutico mais seguro para mim? O que pode me causar menos dano, enfim.

A advertência tem por justificativa um artigo publicado na revista The Spine Journal, tida por séria, dez anos atrás. O cenário era a América, onde, na época (2008), apenas no segmento da dor lombar (low back pain) havia 200 opções “terapêuticas” sendo comercializadas, entre as quais 60 produtos farmacêuticos; 32 terapias e 100 técnicas manuais diferentes; 20 programas de exercícios, e por aí vai.

Nada contra esse número de opções, claro. No mercado automotriz talvez seja o mesmo. O detalhe é que neste último os recalls, além de raramente causar vítimas, são poucos e viáveis. A parafuseta do exaustor está fora da especificação de fábrica? Ela é substituída e pronto. Em contrapartida, um tendão lesionado…2

Em se tratando de cardiologia, doenças infecciosas, ou neurologia, até que há pesquisas sérias avalizando a eficácia, segurança, e relação custo-benefício de um produto/serviço antes deste vir à tona. Não é o caso da dor lombar, porém – as opções abundam, se multiplicam como coelhos e a maioria carece de sustentação científica.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Vejamos, por exemplo, os tratamentos não farmacológicos para a dor crônica lombar. Aqui entram exercícios terapêuticos, fisioterapia, psicoterapias de menor a maior grau, e medicina alternativa complementar (desde massoterapia a mindfulness). Esse tipo de tratamento passivo não tem risco de provocar adição, ou efeitos colaterais, como os farmacológicos (ex.: AINEs, opióides, anticonvulsivos etc.) e pode reduzir a dor e melhorar a qualidade de vida. E, se combinado com outras intervenções (ex.: exercício gradual) num programa de recuperação multidisciplinar – ou seja, combinando diversas opções ao longo do tempo – evidências indicam que dá resultados razoáveis.

Mas quais são as melhores opções não farmacológicas? Ninguém sabe. E quais combinam melhor com que outra intervenção (ex.: exercícios, terapia cognitiva…)? Ninguém sabe. E mesmo que alguém soubesse, qual seria a melhor combinação dentre todas as possíveis? Também ninguém sabe.

“Tratamentos que nunca foram submetidos a testes randômicos controlados são vendidos como curas infalíveis para clientes desavisados” – alegam os autores do estudo americano antes mencionado.

PACIENTES COM DOR CRÔNICA CARECEM DE EXPERTISE PARA ESCOLHER AS OPÇÕES TERAPÊUTICAS MAIS ADEQUADAS.

Não é de se estranhar, então, que pacientes com dor crônica lombar fiquem perdidos nessa nutrida fauna e flora “terapêutica”. Eles não apenas carecem do mínimo de expertise para escolher direito, como em geral não tem condições psicológicas sequer para pensar em, neles próprios, assumirem a responsabilidade de uma escolha. Difícil culpá-los por isso. Afinal, uma “melhor opção” não existe.

Será que isso acontece porque a dor é subjetiva? Complexa? Multifacetária na sua origem? Pode ser, mas apenas em parte. O outro lado da confusão deve-se à falta de um quadro classificatório de opções terapêuticas.

“A evidência do benefício da cirurgia é no mínimo fraca, como constatou uma recente série relacionada a dor lombar publicada pela Lancet. Apesar disso, as taxas de cirurgias na coluna lombar tem quase dobrado a cada 10 anos, segunda a University of NSW.”

Ian Harris, professor de cirurgia ortopédica
Aristóteles, dizem, foi o primeiro no Ocidente em identificar essa necessidade, a de classificar, diante da diversidade apresentada pela natureza. Em algum momento, imagino, ele deve ter se perguntado: “Meu Zeus do céu! Por onde começo?” E lá foi ele classificando (cerca de 400 animais) e catalogando (100 espécies de peixes marinhos).Ou não teria sido considerado o primeiro cientista da história.

Como o Ari fez? Estabeleceu critérios – altura, aparelho respiratório, órgãos reprodutores, cor dos olhos, sei lá… e foi classificando cada espécimen, conforme isso. E deu no que deu: esse aí é animal, mamífero e mata o próximo, etc. Esse outro é morcego, voa e conta com radar próprio. Etcétera.

Longe de ter pretensões aristotélicas eu faço algo parecido em outro post. Classifiquei 74 preferências terapêuticas associadas à dor crônica músculo esquelética. O propósito é o de ajudar um paciente bisonho – ou o veterano cansado de guerra, a calçar as sandálias da humildade – a vislumbrar, por si mesmo, o caminho a seguir na sua recuperação. Depois que ele(a) consulte um Prêmio Nobel, o Papa, quem quiser… Mas o primeiro passo deve ser seu.

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