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Drogas psicodélicas no tratamento de transtornos mentais crônicos

Drogas psicodélicas para transtornos mentais crônicos

Nos anos 60, um psicólogo e um poeta lançaram ao mundo a chamada geração beat, que encantou os hippies e The Beatles. O movimento se caracterizava pelo uso de um alucinógeno, o LSD. O uso dessa droga ainda é ilegal, não assim a busca de uma solução para problemas de saúde mental ainda não resolvidos pelas drogas convencionais, e que afetam milhões de pessoas em todo o mundo. A perda de consciência momentânea propiciada por drogas psicodélicas pode ter propriedades terapêutica, afirmam alguns cientistas à frente de laboratórios de universidades de ponta americanas. Paralelamente, mais de uma centena de empresas privadas desenvolvem pesquisas próprias ou associadas, de olho em descobertas com potencial de vir a ser um novo Prozac.

“A certa altura, dispositivos que alteram a consciência, como o microscópio e o telescópio, foram criminalizados exatamente pelas mesmas razões que as plantas psicodélicas foram proibidas em anos posteriores. Eles nos permitem perscrutar pedaços e zonas do Caos.”

– Timothy Leary

Os cientistas esperam que novos compostos psicodélicos forneçam os benefícios terapêuticos das drogas (ex.: antidepressivas), mas sem as alucinações, sendo assim uma terapia alternativa para pessoas doentes que não podem ou não querem experimentar alucinações.

Na década de 1960, o psicólogo de Harvard Timothy Leary juntou-se ao revolucionário poeta beat Allen Ginsberg para promover uma nova visão do mundo criada na consciência – ou na perda de consciência – de cada um. Por trás disso, uma nova droga chamada Lysergic Acid Diethylamide, ou LSD. A proposta foi encampada rapidamente pelo florescente movimento hippie da época.1

Timothy Leary ensinava psicologia em Harvard e fazia experimentos com LSD e outros alucinógenos, primeiro em presos e depois em si mesmo e seus amigos. LSD não era ilegal na época. Em 1960, Allen Ginsberg, supervisionado por Leary, ingeriu cogumelos de psilocibina (sob a influência da droga, ele ligou para Jack Kerouac, escritor líder do movimento “beat”, identificando-se como Deus para a telefonista), e começou a espalhar a notícia sobre as novas e poderosas drogas psicodélicas. Quando Harvard demitiu Leary em 1963, ele montou o Castalia Institute em Millbrook, Nova York, para continuar seus estudos. A abordagem de Leary para tomar LSD era o oposto da de Ken Kesey — Leary acreditava em tomar a droga em um ambiente controlado, como uma salvaguarda contra bad trips. Ele cunhou a frase “Turn On, Tune In, and Drop Out” e formou a “League of Spiritual Discovery“, um grupo de defesa do LSD. “Come Together“, a famosa canção dos Beatles, composta por John Lennon e lançada no álbum Abbey Road de 1969, foi uma elegia ao slogan da campanha de Leary para o governo da Califórnia (Come Together, Join the Party). Leary passou vários anos na prisão por porte de drogas.

A partir da década de 1960, os cientistas pensaram que a depressão resultava de níveis baixos do neurotransmissor serotonina no cérebro, e as drogas antidepressivas tradicionais, como os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), funcionavam corrigindo esse desequilíbrio químico. Mas havia buracos nessa hipótese. Mais notavelmente, os ISRSs aumentam os níveis de serotonina imediatamente, mas os sintomas de depressão geralmente não aliviam até várias semanas após o início da medicação.

A seguir, trechos de uma matéria sobre psicodélicos e saúde mental, publicada recentemente no The New York Times.

Uma nova teoria surgiu na década de 1990 e início de 2000 de que a depressão, assim como a ansiedade e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), podem resultar da perda de sinapses no cérebro – as conexões entre os neurônios. Os cientistas descobriram que as pessoas com depressão têm menos volume em regiões do cérebro importantes para o humor, controle executivo e sentimentos de recompensa. Pensa-se que o estresse crônico e a genética contribuem para a atrofia dos neurônios e suas conexões.

Descobriu-se que os medicamentos antidepressivos foram capazes de regenerar essas sinapses perdidas – um processo conhecido como plasticidade. É possível que, ao forjar novas conexões no cérebro, as pessoas possam começar a mudar os padrões de pensamento negativo e recuperar o controle sobre impulsos ansiosos ou depressivos.

A plasticidade também acontece naturalmente, com conexões crescendo cada vez que você aprende algo novo. A localização e a quantidade de plasticidade serão diferentes dependendo da experiência. Eventos de vida formativos, como se tornar pai e sofrer a perda de um ente querido perdido, podem mudar o cérebro de maneiras significativas. Os cérebros de monges budistas e outros meditadores experientes – pessoas íntimas de experiências místicas – também sofrem mudanças. Há até pesquisas sugerindo que a terapia da fala funciona em parte alterando os padrões de atividade cerebral. O cérebro não muda muito durante a idade adulta, não como na infância, quando milhões e milhões de neurônios e sinapses crescem e se perdem, mas não é estático. Essas mudanças orgânicas tendem a ser sutis. Você não vê elefantes de pernas longas enquanto medita, e ninguém acha que ter um filho curará instantaneamente sua depressão ou fará com que você pare de fumar – outro uso terapêutico potencial de psicodélicos. Pessoas com depressão também parecem ter menos capacidade de ativar a plasticidade naturalmente, então a medicação pode ser importante para iniciar esse processo.

Como os antidepressivos tradicionais, acredita-se que os psicodélicos conferem seus benefícios terapêuticos ao induzir plasticidade no cérebro. Mas eles trabalham muito mais rápido e mais intensamente. Cetamina, psilocibina e LSD estimulam o crescimento celular prolífico e proporcionam alívio psicológico em questão de horas.

A cetamina, uma droga anestésica aprovada pelo FDA, recentemente se tornou a estrela do movimento da medicina psicodélica. À medida que psicodélicos como psilocibina e MDMA se aproximam da aprovação do FDA para o tratamento de uma variedade de indicações de saúde mental, a cetamina está abrindo caminho para o desenvolvimento de uma indústria nacional em torno da psicoterapia assistida por psicodélicos. A cetamina e seus efeitos dissociativos e psicodélicos foram recebidos pela florescente indústria psicodélica como uma “droga de entrada” em um novo ecossistema de negócios composto por clínicas especializadas, terapeutas treinados e protocolos médicos exclusivos. Embora as clínicas que oferecem tratamento com cetamina estejam ansiosas para apresentá-lo como o “único psicodélico legal”, vozes dentro da academia estão levantando dúvidas sobre os efeitos psicodélicos do composto.2

Os psicodélicos podem ser uma maneira de amplificar as mudanças neuronais que são possíveis com ISRSs ou terapia ou outras experiências humanas profundas, ou podem agir como um atalho. Algumas pessoas se referem ao tratamento psicodélico como sendo 10 anos de terapia em um dia. É essa propriedade explosiva dos psicodélicos que os cientistas estão tentando recriar nos novos compostos. Eles pensam que, ao religar rapidamente os circuitos neurais, podem transformar um cérebro doente em um saudável.3

Atualmente, há 110 ações de drogas psicodélicas em estágio clínico negociadas nas bolsas de valores norte-americanas, 64 pesquisam o tratamento de uma variedade de doenças mentais com base no uso de 10 substâncias psicodélicas diferentes, 40 pesquisam o tratamento de doenças com base no uso de maconha THC e 6 estão focadas no desenvolvimento e operação de clínicas de tratamento. Ao menos uma dezena delas têm valor de mercado superior a US$ 50 milhões.4

Alguns cientistas estão trabalhando para desenvolver moléculas baseadas em psicodélicos que forneçam os benefícios terapêuticos das drogas, mas sem as alucinações. Outros pensam que os efeitos dos psicodélicos no cérebro são o que lhes confere suas propriedades terapêuticas, não a viagem em que levam as pessoas, e que a experiência subjetiva das drogas pode ser removida enquanto seu impacto na depressão permanece. Pesquisas realizadas em roedores e placas de Petri nos últimos anos sugerem que isso pode ser possível. Vários estudos publicados identificaram novas moléculas que agem como psicodélicos no cérebro e mantêm suas propriedades antidepressivas sem causar alucinações.5

O que está em jogo neste debate não é apenas a questão intelectual de como as drogas que levam você para o inferno e voltam podem curar sua depressão, mas também o futuro de como elas são administradas como medicamentos e de que forma chegam ao mercado. Nos Estados Unidos, estima-se que 8,9 milhões de adultos tomem antidepressivos para tratar o transtorno depressivo maior, mas para aproximadamente 30% deles, os medicamentos não funcionam. (Proporcionalmente, quase 2 milhões de pessoas desassistidas, no Brasil.) Se os psicodélicos fossem eficazes mesmo para uma fração desses indivíduos, seria um enorme benefício para a saúde comportamental e para a indústria psicodélica.6

Baseado no artigo “Taking the Magic Out of Magic Mushrooms”, de Dana G. Smith, publicado pelo The New York Times.

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