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Doutor, cadê o meu Everest?

Doutor, cadê o meu Everest?

A taxa de desistência do tratamento medicamentoso de pacientes com doenças e/ou dores crônicas é escandalosa. Apesar de ser a saúde que está em jogo, o bem mais precioso do ser humano, vira e mexe este prefere continuar como se nada, ou quase. No ensejo, desperdiça o tempo e o dinheiro já investido em consultas médicas, medicação, fisioterapia etc. e, ironicamente, precisa preparar o bolso e a paciência para logo começar a repetir a mesma via crucis. Um absurdo? Não, é apenas a resposta natural de um humano a uma proposta – o tratamento terapêutico – que impõe somente obrigações, privações, mudanças de hábitos nada prazerosos. Contudo, o benefício potencial de um tratamento terapêutico – a possível melhora – permanece o mesmo, inquestionável, contundente, absoluto. Sem tratamento, não há recuperação, e sem recuperação a doença e a dor ficam como estão, ou piores. Ponto. Portanto, não seria útil, ao propor o tratamento ao paciente, o médico acenar vigorosamente com o que, no final das contas, se pretende com um tratamento desses? E assim, focar a atenção do dito cujo no que se há de ganhar com isso, em vez de deixá-lo, sozinho, contemplar o que ele acha que vai perder?

“O que você obtém ao atingir seus objetivos não é tão importante quanto o que você se torna ao conseguir isso.”

Zig Ziglar

O primeiro ser humano a conquistar o Everest foi Edmund Hillary.1 (Segundo os ingleses, porque quem chegou antes no topo foi o seu guia sherpa nepalês, Tenzing Norgay, mas isso não vem ao caso aqui.) Logo depois da façanha, Hillary, neozelandês, virou Cavaleiro da Rainha e deu inúmeras entrevistas. Numa delas, ele saiu-se com uma resposta antológica à pergunta óbvia: “Por que teria escalado o Everest?”

“Porque estava ali”.

Apenas isso. Ou tudo isso. Nos quase 70 anos após a escalada de Hillary e Tenzing, mais de 6 mil escaladores conquistaram a cume do Everest. Desfrutando de equipamentos, alimentação e serviços de auxílio muito melhores que os da dupla em 1953, mas nem por isso deixando de sofrer as dores da escalada. De fato, são dores em todo o corpo, causadas principalmente pela falta de oxigênio.2

“Para aqueles que ainda não chegaram ao topo do Monte Everest, com 8.000 metros, é quase impossível imaginar o imenso desafio físico e psicológico de subir ao topo do mundo. No acampamento base, a 17.600 pés, há cerca de 50% do oxigênio no ar do que no nível do mar. Mesmo naquela elevação, você se sente fraco e totalmente diferente de si mesmo. À medida que você se aproxima do cume, o terreno fica muito mais precário e o oxigênio cai para 33% do nível do mar. É como subir escadas e segurar duas a cada três respirações”.3

O esforço, da base a cume do Everest no caso de Hillary e Tenzing se prolongou por incríveis 7 semanas, seja pela falta de oxigênio ou pelo frio de 36 graus Celcius negativos. Agride fortemente todos os órgãos vitais: cérebro, pulmões, coração, sistema gastrointestinal, mãos, nariz, face…

O que impulsiona um ser humano consciente e lúcido a cometer semelhante barbaridade consigo mesmo?

“Porque estava ali.” Genial.

Eu ignoro se a tirada de Sir Hillary surgiu espontaneamente ou se foi o produto de muitas noites de insônia pensando em como ficar famoso. Vai saber, mas que foi antológica, ela foi.

“Porque estava ali.”

Por trás dessas três palavras há uma enciclopédia de artigos e textos científicos sobre o mecanismo de recompensa do ser humano. Um sistema de recompensa alojado no cérebro que explica como, depois de passar milênios fugindo de alossauros e tigres, agora aos primeiros os reconhecemos somente em fotografias e aos outros os mantemos engaiolados. Explica, enfim, porque prevalecemos como espécie.

E agora a pergunta obrigatória: o que o anterior – Hillary, o Everest e tudo mais – tem a ver com a dor crônica?

É que, a meu ver, o paciente com dor ou dores crônicas típico carece de sistema de recompensa. Ponto. Ele ou ela não veem pela frente um Everest a ser conquistado. Ponto de novo.

Para começar, a maioria desses pacientes consulta em média três médicos ou mais – as estatísticas dizem isso, não eu – toma um monte de remédios, comparece bovinamente a inúmeras sessões de fisioterapia… e nada (ou quase). Nisso, lá se vão meses, anos ou décadas (como no meu caso) e a cada mês, ano ou década, para o paciente vai ficando cada vez mais claro que está saindo dessa ciranda pior, bem pior do que quando entrou. Porque não conseguiu se livrar da doença e ou da dor por completo, como pensava originalmente? Não, não só por isso. Mas por descobrir que essa meta não era possível. Pior ainda, que aquilo nunca poderia ter sido pensado como possível. E que se perdeu muito tempo, dinheiro e esperança correndo atrás do impossível.

Equivale a, mais ou menos, chegar na base do Everest… de cuecas. Ou seja, sem ânimo para empreender nada. Sem chance de vencer.

Admitamos por hipótese, todavia, que mesmo nessas condições uns quantos valentes quisessem prosseguir na empreitada. Nesse momento, alguém com muito pedigree e capaz de convencer pinguim antártico a comer picolé, deveria aparecer animando essa turma. Apontando entusiasmadamente para o Everest certo. Sendo que o Everest certo seria aderir caninamente a um tratamento terapêutico consensado com o médico, sem ceder à tentação de aumentar por conta própria a dose medicamentosa e/ou de abandonar os exercícios ou ainda se movimentar mesmo sentindo alguma dor. Uma meta raramente apresentada a ele ou ela pelo médico(a).

Cadê o MEU Everest? Eis a questão. Na vida real, dificilmente o paciente crônico sai de uma consulta com essa pergunta respondida. E muito dificilmente ele irá respondê-la, sozinho.

E a tarefa motivacional do médico/mentor/orientador/educador na pós-consulta? Todo prestador de serviços, se quiser ser alguém num mercado competitivo, deve se render às exigências da pós-venda. Ou seja, acudir o cliente no uso do que foi vendido, quando provocado por este ou, melhor ainda, por iniciativa própria. Atualmente, mesmo as empresas mais herméticas enviam aos seus clientes um questionário de avaliação do produto ou serviço. Em muitos casos, apenas para manifestar presença, algo assim como: “Estou aqui. Lembre-se de mim!”.

Agora, eu pergunto ao caro leitor: “Nos últimos 5 anos, dos 5 últimos médicos que você consultou, quantos tomaram a iniciativa de aparecer construtivamente na pós-consulta?”

Ok, a pergunta é incômoda. Mas profissionais da saúde, convenhamos, não costumam fazer isso. A consulta, via de regra acaba com uma prescrição medicamentosa escrita, o eventual repasse a um fisioterapeuta ou psicólogo (dependendo do que deve ser consertado) e alguns conselhos vagos sobre se alimentar melhor, dormir melhor, etcétera.

Ora, isso não é um Everest, nem nada que desperte qualquer motivação.

Diante disso, o sistema de recompensa, esse grupo de estruturas neurais responsáveis pela saliência motivacional, pela aprendizagem associativa e pela validação positiva das emoções, que no cérebro compreende o circuito VTA (área tegumentar ventral) e NAc (núcleo accumbens), simplesmente não se mexe.

O resultado? Em termos eruditos, “completar o tratamento terapêutico não desencadeia emoções de valência positiva no paciente e, portanto, falha em provocar comportamento consumatório.” Em bom português: “O paciente está se lixando para o tratamento”, ou coisa parecida.

Conclusão

Dos que começam a escalada ao Everest apenas 2/3 conseguem chegar ao cume. Note que ninguém aparece por lá de alegre, sem condições físicas e mentais à altura da empreitada. A totalidade dos escaladores que se habilitam são pessoas atléticas preparadas para o encarar um esforço que, sabem, é supremo. No entanto, um terço desiste mesmo tendo o Everest à frente.

Ano passado eu assisti a live de um médico do HCor de São Paulo, neurocirurgião muito respeitado, afirmar que os pacientes com dor crônica que não completam seu tratamento medicamentoso superavam os 60%. Eu não sei de onde o bom doutor tirou esse dado, mas ele soa bem. E tem explicação: a taxa de desistência dos pacientes com dor crônica é o dobro da dos escaladores do Everest provavelmente porque, à diferença destes que têm o maciço à frente para desafiá-los, os pacientes com dor crônica em geral têm nada. Ou quase isso.

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4 respostas

  1. Olá. Estou nesses 60% que desistem, ou quase. Tomo os medicamentos fiz as fisioterapias, consultei 5 especialistas. Reconheço o esforço de todos eles em me ajudar. Sinto muito. Sinto dor.

  2. Eu estou na somatória de quem quer chegar no Everest, porém sozinha. Não vou decidir! Fisioterapia é um pesadelo, pois todas são exatamente iguais e eu sei que não me ajuda em nada, pioram. Psicólogo, dos três, observei que sempre segue o inverso. Então em vez de eu melhorar, também pioro! Melhor seguir, eu com minhas pequenas atividades dia a dia, devagar e sempre. Se não consigo uma, parto para outra, de qualquer esforço fora do habitual, sei que a dor ficará intensa. Então, dias ou semanas, eu, meu eu e as medicações que não CURAM mas ajudam a driblar, vamos nos recuperando. Se Everest for voltar o que eu era, já tenho a resposta que não chegarei ao topo, mas quero viver. Um dia tudo isto vai passar. É apenas esperar… sempre com fé e esperança. Pois a força para continuar a viver e passar por tudo, não vem de mim, já tão” debilitada… Ela vem de quem nos deu a vida. 🙏

    1. Elisangela, a boa notícia: você já percebeu o que 99% das pessoas na sua condição teima em ignorar. Ou seja, que você está sozinha no controle de sua condição de saúde. Entender e aceitar isso é o ponto de partida para se recuperar qualidade de vida. Eis o seu Everest. A má notícia: você fala em fé e esperança e em apenas esperar, agregando que a força vem de quem nos deu a vida. Eu discordo. Fé e esperança são combustíveis para você executar atividades que mantenham mente e corpo funcionando. Você não tem que esperar, mas planejar e testar o que consegue fazer com pouca dor até dominar algumas atividades que atraiam a sua atenção, tirando-a da dor e da angústia de ela, a dor, não sumir. E penso que quem nos deu vida, não pode fazer mais do que isso. Cabe a você criar a sua própria força e acredite, a ciência diz que isso ajuda a aliviar os sintomas da dor crônica. At, Julio

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