Psicologia da Dor - by dorcronica.blog.br

Dor nociplástica. Um passaporte para os psicólogos dominarem o mercado da dor?

Dor nociplástica um passaporte para os psicólogos

Que profissional da saúde domina o mercado da dor no Brasil? Atualmente, esse mercado está acéfalo, porém a recente oficialização da dor nociplástica pela International Association for the Study of Pain (IASP), no mesmo nível da dor nociceptiva (lesão tecidual) e da dor neuropática (lesão nervosa), pode vir a mudar esse cenário. Isso, porque, à diferença destas ultimas, a dor nociplástica admite a presença de um fator psicológico. Ou seja, de emoções, sentimentos, cognições… Você pode ter raiva e isso exacerbar sua dor, e por sentir raiva, ter a dor aumentada. Tudo embolado, então o conjunto – e não apenas suas partes biofisiológicas, como é de praxe – precisa ser incluído no exame médico, para fins de diagnóstico, tratamento, etc. Há 5 anos eu postei sobre a possibilidade de os psicólogos ingressarem no “mercado da dor”. Em duas oportunidades, aliás. Divulguei, inclusive, o texto “Psicologia da Dor”, lançado em 2019. Nada aconteceu. Pode ser que a chegada do novo conceito da dor nociplástica, desperte nos psicólogos o “Espírito Animal” de quem quer ocupar espaços num mercado em aberto.

Autor: Julio Troncoso, PhD

Nota do blog: O termo “espírito animal” foi popularizado pelo livro “Animal Spirits: How Human Psychology Drives the Economy, and Why It Matters for Global Capitalism”, dos economistas George Akerlof e Robert Shiller (Prêmio Nobel de Economia em 2013), que denunciou a influência das emoções – da cobiça empresarial mais precisamente – na tomada de decisões que empurram as economias a beira do abismo.

“A vida nada mais é do que uma competição para ser o criminoso e não a vítima.”

– Bertrand Russel

A noção de um “mercado da saúde”, ou de um “mercado da dor”, semelhante a um mercado automotriz ou bursátil, Hipócrates não previu. Porém, hoje ele certamente existe. Trata-se do espaço onde compradores (pessoas com queixas de dor, como você e eu) e vendedores (profissionais da saúde, empresas farmacêuticas, farmácias, planos de saúde e outras) interagem (diretamente ou através de intermediários) para comercializar bens e serviços que visam o alívio da dor humana.

O mercado da dor faz parte do mercado da saúde, igual aos mercados de instrumentos cirúrgicos, ou de lares para idosos, ou de congressos médicos. São todos mercados, alguns mais interessantes para serem explorados (pelos vendedores) do que outros.

Dito isso, qual das 55 especialidades médicas e 59 áreas de atuação reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) (Resolução CFM Nº 2.221/2018) mostra estar realmente interessada em dominar o mercado da dor? Reumatologia? Anestesiologia? Ortopedia? Odontologia? Família? Ora, são essas as especialidades médicas “de raiz” mais procuradas pelos pacientes com dor.

Qual ou quais delas mostram interesse em se apropriar do mercado da dor? Apropriar-se, no sentido mercadológico: procurar almejar fatias maiores e/ou mais lucrativas, o nome virar marca, precificar sem ligar para a concorrência, ser procurado por fornecedores ávidos em agradar etc.

A meu ver, atualmente nenhuma.

As razões podem ser várias. Pouca recompensa financeira, talvez a mais relevante. O “mercado da saúde” acena aos médicos com oportunidades muito mais lucrativas (ex.: cirurgia) do que as oferecidas pelo “mercado da dor”.

Fato é que dos 550 mil médicos atualmente trabalhando no país, apenas uma proporção insignificante (numericamente falando, não quis ofender) possui “especialização em dor” ou, dito mais corretamente, tem “atuação em dor” reconhecida pelo CFM ou pela AMB (Associação Médica Brasileira). E note que essa classificação é subsequente a uma especialização “de verdade”, como neurologia, reumatologia ou ortopedia.

Assim as coisas, o “mercado da dor”, representado por mais ou menos um terço dos 215 milhões de brasileiros com idade acima de 18 anos, ou 71 milhões, muitos dos quais (lamento, não parei para contá-los) atendidos pelo sistema de saúde privado, é hoje uma espécie de Terra de Ninguém, mercadologicamente falando.

Mercado da dor

A classe médica em geral se mostra desinteressada em marcar presença nesse espaço. Pouco custaria aos médicos monopolizar esse espaço, uma vez que a veneração que o cidadão médio dispensa a eles é atávica. “Dr.”, alguém disse, não é apenas um prefixo; é um superpoder. No entanto, em geral preferem ficar de fora, quando muito tratando a dor dos pacientes com fármacos e só.

E as outras profissões que poderiam se habilitar a isso – fisioterapeutas, osteopatas, psicólogos, dentistas…? Para minha surpresa – eu venho do mundo corporativo onde os espaços de mercado vazios não duram nessa condição nem um dia sequer – elas ainda não detectaram a oportunidade, ou não se sentem capazes de aproveitá-la, ou temem o repúdio dos médicos que lhes fornecem pacientes.

Um mistério. Refiro-me a largar mão de um mercado virgem – o dos pacientes com condições crônicas nas quais a dor nociplástica é característica – ainda maior do que o da cannabis medicinal, ora bombando no Brasil. Isso, nem Freud explica.

Enfim, eu confesso que nunca quis escrever sobre esse enigma para não incomodar agremiações da saúde cujos dirigentes e membros costumam ser hipersensíveis a qualquer comentário que se assemelhe a uma crítica. Mas, de repente surgiu diante de mim um breve, porém primoroso artigo de autoria de uma psicóloga italiana, Federica Galli, da Sapienza Universitá di Roma, e não resisti.

Compreendendo a dor nociplástica: construindo uma ponte entre a psicologia clínica e a medicina”, chama o artigo, publicado recentemente no Journal of Personalized Medicine.

Ora, a Dra Galli percebeu ao menos duas coisas:

  • A dor nociplástica caracteriza uma penca de Condições de Dor Crônica Sobrepostas (CDCSs) (ex.: dor nas costas que não é identificada como dor musculoesquelética ou neuropática, enxaqueca crônica, dor crônica generalizada, fibromialgia e síndrome do intestino irritável, entre outras).12 ora classificadas na categoria “dor crônica primária”, na CDI-11.
  • A dor nociplástica é o único tipo de dor que admite “oficialmente” a presença (e influência) do componente emocional no processamento da dor crônica. O que explica porque as CDCSs abrigam emoções e transtornos mentais (ex.: ansiedade, depressão), sinais de deficiência social e características da própria estrutura da personalidade. São todas características do fenótipo da dor nociplástica.34

Então, os médicos não se interessando pelo mercado da dor, que outras profissões da saúde com acesso direto ao paciente – eis uma condição obrigatória – estaria mais habilitada para ajudar um paciente já diagnosticado medicamente com dor crônica a auto-manejar seu tratamento?

Fisioterapeutas? Osteopatas? Psicólogos?

Ora, teoricamente todos têm alguma vantagem competitiva para liderar o “mercado da dor”. Os fisioterapeutas são os que mais tempo passam próximos dos pacientes, facilitando o desenvolvimento de empatia e confiança; osteopatas, por sua vez, já são formados no entendimento clínico de que o paciente é uma unidade mente-corpo indivisível; e os psicólogos, bem, estes parecem os mais capacitados para ajudar um paciente a compreender a relação entre os fatores biológicos, sociais e psicológicos na patogênese da dor.5

A Dra. Galli aposta suas fichas neles.

O papel potencial da psicologia neste campo é claro, tanto do lado da pesquisa quanto da abordagem clínica”, escreve ela.

E dá suas razões.

  • Muitos pacientes com dor crônica têm um histórico de experiências adversas na infância e/ou com ambientes psicopatológicos comórbidos. Nesses casos, problemas psicológicos podem causar dor crônica de origem nociplástica (DN), ao influenciar o sistema nervoso. Um sistema nervoso hipersensibilizado, aliás, é um dos mecanismos característicos da dor nociplástica.6
  • Além disso, muitos transtornos emocionais, como depressão e ansiedade, e processos emocionais, como consciência e regulação emocional, influenciam a presença e gravidade das condições de dor nociplástica7, revelando a importância de uma avaliação psicológica para diagnóstico e intervenção(ões) psicológica(s).

Conclusão

A medicina clínica convencional – ou Medicina Ocidental, como é denominada por alguns autores – é criticada por, na prática, se comportar conforme uma visão cartesiana diante da dor.8

Por considerar mente e corpo como “substâncias” distintas, privilegiando o atendimento a este último. Se esse paradigma for atropelado pela realidade e fosse admitido que mente e corpo constituem uma coisa só, a mente passa a figurar automaticamente em qualquer explicação a ser dada sobre o estado de dor crônica. A mente certamente envolveu-se no processamento dessa sensação. E a quais profissões da saúde humana foi tacitamente concedido o acesso livre a tratamentos de transtornos metais? Psicólogos, psiquiatras e psicanalistas. Prova disso é que quando um gastroenterologista, um dentista ou um fisioterapeuta percebe que o paciente apresenta forte nervosismo, clara excitação ou profunda tristeza, o mais provável é que ele ou ela seja encaminhado a um desses “especialistas da mente” e estamos conversados.

O ingresso oficial da dor nociplástica na medicina da dor – a CDI-11 é uma ferramenta da Organização Mundial da Saúde – abre uma janela de oportunidade enorme para os psicólogos preencherem o vácuo deixado pelos médicos no “mercado da dor”. E não apenas porque a dor nociplástica possui um componente emocional, mas também porque essa dor está quase sempre mais ou menos presente em qualquer estado doloroso. Ela pode ocorrer isoladamente ou como comorbidade em indivíduos com condições de dor crônica que são principalmente nociceptivas ou neuropáticas.910

Ou seja, trata-se de uma dor com considerável presença em qualquer população. Para se ter uma ideia disso, em 2009 os adultos norte-americanos que relataram dor na mandíbula ou na face foram 11,5 milhões de adultos, ou 5% da população do país. Dor no pescoço e dor de cabeça intensa ou enxaqueca tiveram prevalência de aproximadamente 15% cada, enquanto dor nas costas foi a mais comum das condições dolorosas, com prevalência de 28,5%.11

A oportunidade oferecida ao psicólogo quanto a se apropriar de uma boa fatia desse “mercado da dor”, oferecida pelo advento da dor nociplástica, é apenas uma hipótese, em todo caso. Eu ignoro se ele quer, se vai se atrever, se está disposto a estudar medicina da dor ou se outros competidores, fisioterapeutas principalmente, vão se antecipar. Aliás, de repente essa oportunidade é somente percebida por mim! Afinal, o “mercado da dor” está sem dono há décadas e todo mundo parece conforme. Mas que hoje há uma bola quicando nessa área, isso há.

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