Dor lombar crônica, pilates & o cafuringa

Dor lombar crônica, pilates & o cafuringa

Qualquer pesquisa rigorosamente baseada em evidências sobre um tema relacionado à dor humana tem mérito. Mesmo que seja uma grama, algum valor ela agrega ao conhecimento científico. Num país como o Brasil, porém, a exigência vai além disso. Ela, a pesquisa, precisa ser útil, ajudar a resolver problemas humanos, enfim. E com maior razão, se o problema for dor lombar crônica que afeta entre 4,2% e 14,7% da população brasileira, hoje somando 210 milhões de lombares, faça as contas. Eis a sua primeira obrigação. A segunda é a segunda.

“Conceitos que se mostraram úteis para ordenar as coisas facilmente alcançam tal autoridade sobre nós, que nos esquecemos de suas origens terrenas e as aceitamos como dados imutáveis.”

Albert Einstein

Um artigo sobre Pilates & dor lombar que li recentemente me deixou pensativo.

Ele abrange uma revisão de artigos realizada em base de dados arquiconhecidas (ex.: ScIELO) nos últimos dois anos (2014-2016). O seu objetivo? Averiguar os efeitos do método Pilates em pacientes com dor lombar não-específica. E tanto na seleção dos critérios de pesquisa como na coleta de dados se faz questão de apontar a adesão aos preceitos da Pesquisa Baseada em Evidências. (Atualmente, ao que parece, se o articulista não proclamar isso com destaque é como dizer ao leitor: “Olha, eu sou pesquisador de araque, as minhas evidências são apenas bom senso e também careço de opinião própria. Se quiser ler, que seja pela sua conta e risco.)

Eu pratico Pilates há décadas e por aqui já publiquei dois posts sobre o método Pilates. Fora isso, no canal do blog no Youtube há hospedados sete vídeos sobre o seu uso na prevenção da dor lombar. Daí o meu interesse no tema.

O tal artigo, enfim, mostra mais preocupação em preencher os protocolos da Pesquisa Baseada em Evidências do que em apresentar uma conclusão útil para o leitor interessado em se prevenir, ou se aliviar de uma dor lombar. (O que conduz a seguinte desagradável indagação: “Afinal, para que serve uma pesquisa sobre um tema desses?”.

Vamos direto às conclusões:

“Não encontramos nenhuma evidência de alta qualidade para qualquer das comparações de tratamento, resultados ou períodos de acompanhamento investigados. No entanto, há evidências de qualidade baixa a moderada de que o Pilates é mais eficaz do que a intervenção mínima para dor e incapacidade.”

Huuuummmmmm, e daí?

“Quando o Pilates foi comparado com outros exercícios, encontramos um pequeno efeito para a função no acompanhamento de médio prazo. Assim, enquanto há alguma evidência para a eficácia do Pilates para dor lombar, não há evidências conclusivas de que é superior a outras formas de exercícios.

Conclusão:

A decisão de usar o Pilates para dor lombar pode ser baseada nas preferências e custos do paciente ou do prestador de cuidados.”

Errado, a meu ver. A decisão de usar Pilates para prevenir ou aliviar uma dor lombar deve ser baseada em outros três fatores, que não os anteriores:

O método Pilates em uso

Joseph Pilates, falecido em 1967, desenhou vários exercícios físicos em 1914 quando, prisioneiro num campo de concentração britânico, resolveu treinar os outros presos para mantê-los saudáveis.

Para encurtar a história, anos mais tarde ele abriu um studio em New York, ficou famoso e depois do seu falecimento, em 1967, o seu legado foi mantido por oito discípulos, e corrompido por milhares de imitadores (e aproveitadores) em todo mundo. Nada contra, apenas que “o Pilates” não é uma coisa só, mas um monte de coisas distintas e essa variedade certamente faz diferença nos resultados de uma pesquisa que visa “determinar os efeitos do método Pilates para pacientes com dor lombar etc”.

O professor de Pilates, ou o título que se quiser dar

Eu poderia dizer que entre os “instrutores de Pilates” há os “curiosos”, cujas credenciais não passam de ter assistido um par de cursos de fim de semana, talvez ministrados por um outro “curioso”, versus os graduados e pós graduados em ciências da saúde (fisioterapeutas, educadores físicos etc.), que também os há. Obviamnente, estes últimos são os menos. Mas alguém poderia alegar que Van Gogh não tinha nem educação primária etc, e que o gênio carece de canudo etc. – e até ter razão. Então vou por outro lado, o do zelo técnico, a preocupação com os detalhes, a rigorosidade científica com que o bom professor de Pilates conduz uma hora de exercícios, sem intervalos, retirando de cada um deles 100% do seu potencial.

A variabilidade desse fator no mercado, convenhamos, é imensa. Ou você não tem visto PILATES sendo anunciado em garagens e lojinhas, em qualquer quadra, em qualquer bairro?

A qualidade da população em pauta segue o traçado de uma curva de distribuição de probabilidades como a de cima, com apenas 1% da população de “instrutores de Pilates” do país no extremo direito, o da excelência. Ou seja, se na sua região atuam 100 desses profissionais, classificados numa escala de 1 (Ruim) até 5 (Excelente), você tem 1% de chance de achar aquele que saberá o que está fazendo, e será capaz de fazê-lo, se a ideia é prevenir ou aliviar uma dor nas costas. (Ok, ponha aí 2%. Tudo bem?)

O aluno de Pilates

O cartaz acima é dos anos 30 (do século passado) e, no entanto, já registra a expressão Body and Mind. (Expressão, aliás, que hoje ornamenta as capas de vários best sellers relacionados à saúde). O que isso significa? Vou explicar isso usando uma anedóta real.

Nos anos 70, o Cafuringa, ponta do Fluminense, era tido como o mais rápido do país. Um dia ele escapou com a bola deixando o seu marcador para trás e, mesmo com o campo livre a sua frente, continuou a correr em linha reta até se espatifar além da linha de fundo, no escanteio. Fim do jogo, o técnico do time exigiu uma explicação. “É que correr e pensar… ora, não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo, Professor”, foi a resposta.

Pilates é o oposto disso. Cada exercício é um desafio mente/corpo. Quem não passou pela experiência dificilmente entende o conceito que hoje é comum encontrar em artigos sobre neurociência, e sobre neurociência aplicada ao conhecimento da dor. O Pilates, Joseph, foi maquiavélico: ou o exercício é feito com perfeição ou você perdeu seu tempo e seu dinheiro. Tentar a perfeição, por outro lado, exige concentração plena. Manter-se antenado nessas condições durante uma hora relativamente extenuante não é um passeio no parque.

E porque estou comentando isso? Porque uma pesquisa sobre os efeitos de Pilates sobre a dor lombar deveria levar em conta a disposição dos praticantes para executar o método com perfeição. Apenas quem consegue isso – uma maioria, talvez – pode aspirar a prevenir ou a se aliviar de uma dor lombar. E não são muitos.


Espero que o caro leitor não veja nesse post a intenção de criticar quem pesquisa com rigorosidade científica ou coisa parecida. O meu ponto é outro – são dois os pontos, aliás:

  • A exigência de se usar exclusivamente dados esterilizados cientificamente ao se pesquisar alguma coisa é válida, claro, mas não precisa virar paranoia. Não ao ponto de o pesquisador acreditar que a pureza do processo de pesquisa é tudo (ou quase).
  • O caso em pauta é um exemplo disso: a revisão dos dados pode ter sido perfeita, mas deixou de fora outros que, se levados em conta, provavelmente produziriam outro resultado. O método usado (clássico ou não), a qualidade do professor (variando de Ruim a Excelente), e a disposição/disciplina do aluno (variando de Parcial a Total) fazem toda a diferença.

Em suma, recomendar o uso do método Pilates para dor lombar com base “…nas preferências e custos do paciente ou do prestador de cuidados”, pode ser “adequado” do ponto de vista da “Pesquisa Baseada em Evidências”, mas inútil para o cristão que quiser prevenir ou se aliviar de uma dor lombar.

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