Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Dor crônica & Covid Longa: a opinião de um médico

Dor crônica & Covid Longa: a opinião de um médico

O Dr. Jaime Olavo Márquez, médico neurologista e ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor, resolveu comentar o artigo “Dor Crônica & Covid Longa: parentes próximos?”, publicado aqui na semana passada. Eu resolvi postar a sua contribuição ao blog, nem tanto por razões ególatras – disso há sempre algum vestígio em todos nós – mas principalmente para animar um ou outro leitor desavisado a efetivamente ler o tal artigo. Como a dor crônica, a Covid Longa, já aflige de maneira semelhante boa parte da população, e pelo visto há de continuar a fazê-lo sabe-se lá até quando. No entanto, assim como ocorrido com a dor crônica, a Covid Longa não é reconhecida como doença pelos profissionais da saúde. E pense comigo: como é possível diagnosticar e tratar medicamente algo que não é doença, mas apenas uma coleção de sintomas? No presente, eis o drama dos long haulers, vulgo sequelados. Amanhã, um deles pode ser você.

“O caminho para ir da discórdia para a harmonia é ir da concentração nas diferenças para a concentração nas semelhanças.”

Tony Robbins

Na presente análise, o professor Júlio Troncoso traça, de maneira extremamente clara e documentada, um paralelo entre dor crônica e síndrome pós-Covid, ou Covid longa.

O assunto é dissecado com precisão mostrando pontos comuns entre as duas entidades clínicas, não mais consideradas como síndromes. De fato, são justamente essas características comuns que permitem classificar ambas como doenças. (A dor crônica, lembremos, já consta como entidade clínica, considerando o novo código internacional de doenças (CID-11) a vigorar a partir de 2022.

No artigo, argumenta-se claramente que a Covid Longa e a dor crônica se assemelham em nada menos que 13 características clínicas fundamentais, desde a definição (expressa igualmente em termos vagos de tempo, de maior que 3 meses) até a sintomatologia, passando por prevalência, causas, diferenças de gênero, e até dores crônicas específicas como a fibromialgia, hoje considerada indiscutivelmente uma dor nociplástica com feições clínicas parecidas às da Covid Longa. Da mesma forma, a síndrome de fadiga crônica ou encefalomielite miálgica, atualmente é bem definida em várias situações clínicas relativas aos long haulers.

A recorrência e o impacto multi-orgânico (cardiológico, metabólico) e neurológico (cefaleias sem dúvida, neuropatias periféricas e suas complicações – vide Síndrome de Guillain Barré, neuropatias múltiplas – estabelecem também uma nítida semelhança entre as duas entidades nosológicas.

As repercussões musculoesqueléticas, por sua vez, são igualmente similares. (Pessoalmente, porém, acredito que a sarcopenia seja mais intensa na Covid Longa.) Evidências robustas também sugerem que o impacto sobre a saúde mental, por múltiplos mecanismos, é muito parecido, senão idêntico, em ambos os casos.

O artigo finaliza com um comentário preciso e absolutamente pertinente: a dificuldade que os profissionais da saúde têm em reconhecer a Covid Longa e a dor crônica, como doenças crônicas, estigmatiza gratuitamente o(a)s pacientes, além de confundir o diagnóstico e o tratamento.

Enfim, este foi sem dúvida um dos artigos mais inteligentes e impactantes que li recentemente – e advirto eu sou um leitor compulsivo da produção científica na minha área. Recomendo a todos sua leitura. Bom proveito.

Jaime Olavo Marquez
Neurologista. Área de atuação em dor.

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