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Dor crônica e a resposta dos iludidos

Dor crônica e a resposta dos iludidos

Recentemente, uma postagem sobre fadiga crônica mereceu um comentário que me pareceu quase ofensivo. Depois, trocando mensagens com quem comentou, percebi que não havia intenção de agredir, que o comentário podia representar o pensamento de muitas pessoas esgotadas de enfrentar praticamente sozinhas suas dores crônicas e, principalmente, que o assunto em si era muito mais profundo. Resolvi então postar a troca de mensagens que veio a seguir, obviamente mantendo o anonimato de quem comentou. Na verdade, eu estou aproveitando a oportunidade de esclarecer que quando neste blog eu afirmo que o tratamento medicamentoso não cura, nem fornece alívio no médio e longo prazo para quem tem dor crônica e que, portanto, somente resta a essa pessoa atentar para o alívio através de terapias antiestressantes que tragam calma, paz de espírito e serenidade, eu não estou vendendo fumaça. Ao contrário, estou me apoiando nos mais recentes achados da medicina da dor. Se o visitante do blog pensar diferente, nada contra, apenas vai lá e se informe.

Agora vamos à troca de mensagens:

Comentário 1

Sinceramente falando, só quem sente sabe como é essa doença SFC/EM.

Não há ‘treino mental’ que resolva, vcs não têm ideia do que se trata, e creio que estão longe de saber.

É a mesma coisa de querer ‘treinar’ uma pessoa desidratada a não sentir sede… não resolve nada… mesmo que ela ‘engane’ seu cérebro pra ‘não sentir a sede’… se ela não beber água… vai continuar desidratada, entenderam?!

Não se iludam… e não iludam as pessoas… isso não é legal!

Não ‘ensinem’ o que vcs mesmos ‘não sabem’! 

Resposta 1

Pelo visto, a senhora já desistiu de tentar aliviar a sua condição de saúde usando a própria mente. Talvez se saia melhor com medicamentos e/ou fazendo nada. Desejo-lhe muita sorte nisso. Cada um é dono do seu destino. Eu sou um iludido que deu certo – 23 anos carregando uma dor cervical severa – e vou continuar ajudando pessoas que queiram se iludir se baseando nos achados científicos em que eu me inspirei – diferentes dos seus, certamente – e fazendo o que eu fiz. Talvez consigam os mesmos bons resultados que eu consegui, talvez não. Porém, eu prefiro dar a todos esses iludidos um alento de vida, uma razão pela qual lutar contra a adversidade, em vez de fazer coro aos que – talvez por ser mais inteligentes, argutos e sabidos etc. – não tem nenhuma. De tão realistas que foram, da ilusão de viver, nelas, ficou nada. A mim, e a uns quantos outros, esse desfecho não interessa.

Comentário 2

“Sinceramente, vou procurar acompanhar essa sua ‘nova’ proposta, mas estou incrédula de que vou ouvir alguma ‘novidade efetiva’.

Desculpe, mas acho que ainda não descobriram alguma ‘solução real’ para fadiga crônica e dores crônicas…. tudo são paleativos e jogos psicológicos.

Se eu não houvesse aprendido ‘na pele’ a lidar com tudo isso, e aprender a suportar e em muitas vezes sublimar as dores, talvez nem estivesse mais viva, aos meus quase 70 anos de idade.

Ainda assim, estou sempre pronta a aprender, e curiosamente vou tentar acompanhar o conteúdo dessa sua proposta, mas me desculpando outra vez, infelizmente acredito que não me trará nada de novo.

Agradeço por sua boa intenção, abraços.”

Resposta 2

Eu entendo perfeitamente o seu ceticismo quanto a usar a mente para tratar a dor crônica. Eu sou cético por natureza e formação científica e, no entanto, agreguei essa autoterapia ao meu plano de recuperação – o qual, por esse e outros motivos, felizmente deu certo. Disso fazem 7 anos, após eu passar dos 70. (Pois é, até nessa idade é possível estudar e aprender algo totalmente novo e inusitado e fazê-lo funcionar no próprio benefício).

Nesses anos pilotando aqueles dois espaços na internet, ambos filantrópicos e dedicados a informar pessoas com dor crônica, tenho tido muito contato com pessoas portadoras dessa doença. Aos poucos percebi que a maioria prefere continuar a tomar remédios que raramente funcionam (sobram evidências a respeito) e não são permeáveis ao que, paradoxalmente, a moderna medicina da dor recomenda. A quase totalidade dos médicos, aliás, também sofre do mesmo.

O uso da mente, todavia, é crucial no tratamento da dor crônica.

Curto e grosso, a dor é comandada pelo cérebro e para tanto ele processa informações sensoriais (relativas à fisiologia) e não sensoriais (relativas à disposição psicológica do portador diante do seu estado de saúde). Quanto mais tempo a dor permanece – meses, anos, décadas… – maior a importância dos fatores emocionais. A pessoa se torna hipervigilante, depressiva e solitária, agravando a sua situação.

Pouquíssima gente se atenta para isso e/ou faz alguma coisa para evitá-lo. Uma reação natural, aliás, decorrente da maneira em que a maioria de nós foi criada, em muitos casos, “domesticada” por figuras de autoridade – pais, mestres e médicos, principalmente. Tomar a iniciativa e assumir uma parte ativa num tratamento de dor crônica personalizado, para muitos é algo extravagante, impensado.

Quando a causa da dor crônica é fisiológica, estrutural e claramente diagnosticada (o que nem sempre ocorre), essa submissão quase infantil ao que a medicina clínica oferece é benéfica. Mas esse raramente é o caso da dor crônica, um fenômeno supercomplexo provocado por diversos e variados fatores fisiológicos, ambientais, psicológicos, sociais e até culturais. A persistência da dor e seus sintomas subjacentes (fadiga, sono ruim, problemas de cognição e memória…) gera estresse e, encurtando a estória, isso desemboca em ansiedade, raiva, depressão… A essa altura, note bem, o problema já não é mais a dor, e sim, o sofrimento que a situação causa. Algo que, mais dia, menos dia, a pessoa descobre que não é viável atenuar com fármacos.

A meu ver, então, tem-se duas populações de pacientes com dor crônica. Uma é formada pelos que, mesmo acuados e combalidos, não querem ler nem ouvir sobre o que ocorre e muito menos aprender como sair do poço, provavelmente por não haver garantias disso ser possível. O outro segmento, de tamanho muito menor, é o dos iludidos – estou usando a sua expressão, mas sem ânimo de ofender, absolutamente. Os que acreditam que podem tomar a frente do próprio tratamento, consultando menos médicos e aprendendo mais sobre a dor crônica e auscultando, principalmente, a própria consciência. Eu quero e sou capaz de conduzir o meu destino? Eis a questão a ser respondida em primeiríssimo lugar.

Sabe por quê? Porque a resposta a ela é um indicador – muito empírico, admito – de quanto a pessoa ama a vida. Isso diz o quanto se está disposto a sair da zona de conforto (desconforto, no caso) e se arriscar a estudar, aprender, testar, falhar e tornar a testar… caminhos diferentes dos habituais, que levam até farmácias e consultórios médicos. Eu acredito firmemente em que, sem a pessoa sentir esse chamado vital, absolutamente íntimo, nada feito, infelizmente. Vejo isso, todo dia. Gente vergada pela sua condição de saúde que não quer mais lutar, ou se recusa a fazê-lo se isso exigir muito de si (aprendizado, tempo, foco…).

Há consequências, certamente. Quando eu comecei a estudar a dor humana, há 7 anos, me deparei com uma informação intrigante, vinda separadamente de três médicos especializados em dor há tempos, sediados em países diferentes (EUA, Reino Unido e Australia) e todos (até hoje) muito prestigiados no mundo da medicina da dor. Em que eles coincidiam? Em selecionar os pacientes que iriam tratar. Após uma entrevista inicial, apenas alguns dos pacientes eram aceitos – especificamente aqueles em que se notava disposição para encarar a dor crônica como um projeto de vida. Na época aquilo me pareceu escandaloso, totalmente alheio ao juramento de Hipócrates, a ética médica e tudo isso. Hoje entendo por quê.

A senhora apontou que por aqui eu vendo ilusões. De cara, levei isso muito a mal pela simples razão que o pouco que aqui é vendido tem preços irrisórios. Aliás, eu financio todas as minhas atividades do próprio bolso e quando alguma publicação tem preço é porque ela custou-me esforço e tempo, e principalmente por que se sair de graça as pessoas automaticamente pensam que o que é de graça vale nada.

Hoje, porém, eu até acho que a senhora tinha alguma razão. Ironicamente, uma razão científica. Eu explico.

Um dos achados mais recentes na medicina da dor, atribuído a neurociência, é o de que a imaginação é terapia. De fato, experimentos comprovam que a imaginação do paciente com dor crônica pode aliviar o sofrimento associado a essa doença mais do que um antidepressivo. O efeito placebo, ou seja, a pessoa sentir alívio após receber um comprimido de açúcar a ela apresentado como um fármaco super eficaz, foi sempre desprezado pelos médicos por ser um engano, uma ilusão. Até recentemente a neurociência demonstrar que o cérebro pode ser enganado, e isto redundar em benefício do portador da dor. Acredite se quiser, mas se o cérebro acredita, não importa como, é como se a realidade tivesse acontecido. Então, porque não facilitar ao paciente com dor crônica o acesso a episódios imaginários que possam trazer paz de espírito, menos estresse e maior disposição para enfrentar a dor? O biofeedback e a realidade virtual, aliás, já fazem isso.

Enfim, eu não quero convencer a senhora de nada. Já passei dessa fase. Somos adultos e cada qual é cada qual. Eu informo e quem se informa saberá o que faz (ou não faz) com ela. Desejo sinceramente que a senhora melhore, se não da sua dor, especialmente do seu estado de ânimo (o que costuma estar mais dentro do nosso controle do que a dor). Lamento se me estendi demais nestas mal traçadas, mas apenas quis mostrar que por aqui há vida inteligente, e que se ilusões são vendidas, isso é feito conscientemente, com base em boa ciência e sem a intenção de enganar ou explorar ninguém.

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