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Covid 19: prontos para encarar a quarta onda?

Covid 19: prontos para encarar a quarta onda?

Os surtos virais a cargo de parentes da Covid-19 – a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) – tiveram impacto psiquiátrico inegável sobre as populações afetadas. Danos imediatos nos pacientes infectados e seus familiares, como insônia e irritabilidade como consequências do estresse e da ansiedade provocados pelo confinamento e pela perspectiva de se infectar; e também danos de longo prazo, com sobreviventes apresentando perda de memória, alterações do sono e maiores níveis de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade, meses ou anos após a recuperação do quadro viral.1

Tratar-se-ia de uma Quarta Onda capaz de vergar qualquer sistema de saúde, alertam médicos canadenses. Nesse post são apresentados dados que justificam essa apreensão – e por tabela, a necessidade urgente de o Brasil se precaver dela enquanto há tempo. 

“Não há remédios que você possa tomar que substituam o que você pode fazer por sua própria saúde.”

– Aarti Patel

Dois médicos, Victor Tseng, intensivista americano, e Sohail Gandhi, presidente da Associação Médica de Ontário (Canadá), estão prevendo que uma “quarta onda” dessa pandemia pode ter um efeito estressante maior e mais sustentado sobre o sistema de saúde que as anteriores.2

Anteriores? Sim, a primeira onda é a hoje em curso, formada pelas demandas clínicas imediatas dos pacientes com Covid-19: hospitalização, ventilação e morte, concentradas principalmente em grupos de alto risco. A segunda traz no seu bojo paralelamente os pacientes com condições urgentes não relacionadas à Covid-19. A terceira onda virá impulsionada por aqueles com condições crônicas cujos cuidados foram interrompidos. E a quarta onda incluirá traumas psicológicos e transtornos e doenças mentais, principalmente, naqueles que mais sofreram com o confinamento ou com a perda de seres queridos dos quais não puderam sequer se despedir – ou que, militando em grupos de risco, continuam a sofrer diante da perspectiva de se infectar.

Eu pensava escrever sobre essa Quarta Onda somente “para quando a Covid-19 deixar de ser uma preocupação”, mas, pelo que ultimamente tenho percebido, ela já deixou de sê-lo. Ora, a Covid-19 não é mais notícia, e as pessoas saíram à rua. E isso abre o caminho para uma certa pós-pandemia sobre a qual já muito se fala, mas (como sempre) pouco se sabe. Exceto que trará à tona milhares de adultos e crianças mais ou menos combalidos psicossocialmente devido ao desequilíbrio causado por esses 6 meses de Covid-19.

A previsão nada tem de brilhante. É óbvio que as novas realidades próprias da quarentena (ex.: trabalho em casa, crianças confinadas e falta de contato físico com outros membros da família, amigos e colegas), fora a ameaça do desemprego, o medo de contrair o vírus e ter que se preocupar com pessoas próximas particularmente vulneráveis​, pode ter sido demais para muitos. Especialmente para quem já mostrava sintomas de estresse, ansiedade, depressão etc. antes da virada do ano.

E para que você não diga que estou exagerando, vamos às provas.

Uma primeira mega revisão da literatura científica sobre o impacto psicológico de infecções por membros da família dos coronavírus (SARS, MERS e Covid-19) coube a 6 psiquiatras ligados a duas universidades inglesas, University College London e King´s College London. Após  procurar por “dados sobre as características psiquiátricas e neuropsiquiátricas agudas e pós-doença da infecção por coronavírus”, em quase 2 mil estudos abrangendo 3,5 mil casos de infectados, eles concluíram que no estágio pós-doença o delírio era comum em pacientes no estágio agudo da SARS, MERS e Covid-19. Depressão, ansiedade, fadiga e transtorno de estresse pós-traumático, não ficavam atrás. (Os autores alertaram, todavia, que os dados se referiam predominantemente a pacientes com SARS e MERS tratados no hospital, e que, portanto, seria prematuro “… generalizar quaisquer achados para Covid-19, principalmente para pacientes com sintomas leves.”3

Reações psicológicas à Covid-19 também provém de países europeus. Liderado pela Evidência Aberta, derivada da Universitat Oberta da Catalunya (Espanha), um estudo recente revelou que “… uma em cada duas pessoas no Reino Unido se sentia deprimida com o futuro devido à crise do Covid-19 – colocando 41% da saúde mental da nação em risco.” O projeto de pesquisa envolve a Universidade de Glasgow, a Universidade de Estudos de Milão, a Universidade de Estudos de Trento, a Universidade de Tilburg e a Universidade Nacional da Colômbia. Amostrando 10.551 pessoas (3.523 no Reino Unido, 3.524 na Espanha e 3.504 na Itália), a pesquisa revelou que a maioria da população entre 18 e 75 anos relatou ter se sentido deprimida ou desesperada em relação ao futuro em algum momento durante o período: 57% no Reino Unido, 67% na Espanha e 59% na Itália.4

“(Antes da pandemia) os tempos de espera para os serviços de saúde mental já eram muito longos, se não inacessíveis, para muitos. E depois de meses rodeados de notícias de doenças, sofrimento humano, tragédia e morte, é inevitável que muitos de nós emergiremos dela com cicatrizes mentais. Tudo isso ficou pior pelo fato de que o mundo para o qual retornaremos não será o mesmo de antes da Covid-19.”

– Diana Duong, jornalista canadense especializada em saúde5

E no Brasil?

Uma empreitada a cargo do tripé Fiocruz, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) coletou dados online de 40 mil pessoas em abril-maio.6

Durante o período de isolamento, e provavelmente por causa dele, em cada 10 das entrevistadas, 4 se sentiram “tristes e deprimidas”, e pouco mais de 5, “frequentemente ansiosas ou nervosas”. Isso, em geral. Nos adultos jovens (entre 18 e 29 anos) as porcentagens foram maiores: 54 e 70%, respectivamente.

A pesquisa também confirmou um dado curioso, já denunciado noutros estudos no exterior: as mulheres correm menos risco de serem afetadas severamente pela infecção com a Covid-19 do que os homens, porém relatam problemas de humor com mais frequência. Enquanto a metade delas disse se sentir triste ou deprimida com frequência (sempre durante o período da pandemia), a participação dos deprimidos não chegou a um terço. Por outro lado, por cada 2 homens relatando ansiedade e nervosismo, houve 3 mulheres nessa condição.

Enfim, sobram provas de que o tédio, o isolamento, a inatividade e a falta de estrutura certamente afetaram humores, padrões de sono, hábitos alimentares e, finalmente, a própria saúde mental de populações enormes e variadas (idosos, crianças, doentes crônicos em tratamento, pessoas com cirurgias eletivas suspensas, desempregados…). Os efeitos desses estragos, que por ocorrer na área mental parecem invisíveis e inofensivos, se ignorados vão se fazer sentir em planos bem concretos: custos de assistência social e hospitalar, estatísticas de violência urbana e intrafamiliar, despesas com reabilitação psicológica, e aumento de doenças crônicas derivadas de queda de imunidade por conta de estresse crônico, entre outros.

No período de pré-crise viral, por aí por janeiro-fevereiro, os encarregados de velar pela saúde dos brasileiros tiveram tempo de se preparar melhor para enfrentar a pandemia. Hoje é cristalino que essa vantagem eles não souberam e/ou não quiseram aproveitar. Por mais que se inventem explicações e se manipulem estatísticas para justificar o injustificável, é ponto pacífico que muita gente morreu por causa disso. Agora se perfila uma nova ameaça, a Quarta Onda. Ela é, ao mesmo tempo, uma nova oportunidade para começar de zero e demonstrar que se aprendeu alguma coisa.

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2 respostas

  1. Perdi o meu querido pai por covid…também tive covid . Hoje fiquei depressiva, não aceitei perder o meu pai desse jeito. Também sinto dores horrível no corpo todo ,rigidez no pescoço e joelhos. Engordei 9 quilos. As vezes fico pensando será se vou voltar a ter felicidade de novo?

    1. Lamento a sua perda. Eu não sou médico, mas posso opinar sobre a sua atual condição de vida. Ignoro se você já foi diagnosticada em relação a sua dor generalizada. Se isso já foi feito corretamente, faça duas coisas: 1) siga o tratamento prescrito pelo médico até ter algum resultado após um tempo razoável, caso contrário, não insista. Procure outro que entenda de dor. Poucos sabem tratá-la. 2) Informe-se sobre o tema “dor”. O blog é uma boa fonte e se você procurar por “dor generalizada”, ou “dor crônica”, leia e depois reflita sobre o lido, e então saberá assumir responsabilidade pela sua recuperação.
      O que você precisa fazer para aliviar a sua condição eu já sei, porque passei por isso. Mas não vou lhe dizer. Exceto que, se a sua dor for antiga (+ de 3 meses), os remédios vão aliviá-la apenas temporariamente e há o risco de se viciar neles. Se o seu diagnóstico não tiver indicado uma doença autoimune ou coisa parecida, então o seu estado de ânimo é provavelmente em boa parte responsável pelas suas dores. É a minha opinião, não é uma opinião médica, insisto. Mas você dificilmente irá entender isso de bate-pronto. Leia primeiro. E se surgirem dúvidas, o que é previsível se você levar a minha recomendação a serio, eu estou por aqui.

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