Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Como o diagnóstico da fibromialgia mudou nos últimos 25 anos?

Como o diagnóstico da fibromialgia mudou nos últimos 25 anos?

Este é o primeiro post de uma série de sete, baseada numa revisão de artigos sobre as Diretrizes Canadenses de 2012 para o Diagnóstico e Tratamento da Síndrome de Fibromialgia, focando as mudanças na compreensão e tratamento da fibromialgia ocorridas desde os anos 90.

A série será composta de:

1 Como o diagnóstico da fibromialgia mudou?  
2 Como diagnosticar a fibromialgia? Ver post →
3 Como as novas evidências neurofisiológicas sobre a fibromialgia podem propiciar seu gerenciamento racional?
4 Qual é a estratégia de tratamento ideal da fibromialgia?
5 Quais são os tipos de tratamento indicados para a fibromialgia?
6 Quais medidas de resultados podem ser aplicadas na prática clínica?
7 Pontos-Chave da série de posts

Autor: Julio Troncoso

Nota do Blog:

Ano passado o blog publicou um extenso ebook sobre o estado da arte em fibromialgia, na época. Uma das minhas fontes foi um artigo publicado por integrantes do Comitê Canadense de Diretrizes de Fibromialgia, que resolvi revisitar agora.

Baseado numa extensa revisão de artigos, ele mostra a evolução do conhecimento sobre a doença – conceito, diagnóstico, tratamentos… – nos últimos 20 e tantos anos, algo que poucos médicos conhecem. Selecionei os trechos mais relevantes e fáceis de entender, de maneira a postá-los semanalmente por partes, adicionando algumas ilustrações para facilitar o entendimento dos leigos.

A fibromialgia virou uma espécie de lugar comum na medicina: muito falada e pouco entendida. E não somente pelos leigos. Esta série de posts é imperdível para quem deseja ter uma noção clara da doença.

A fibromialgia é agora muito mais amplamente aceita como uma síndrome verdadeira, com patogênese centrada no sistema nervoso e anormalidades demonstradas nos mecanismos reguladores da dor em vários níveis do sistema nervoso central e periférico.123 Porém, na ausência de achados físicos ou resultados anormais de testes laboratoriais, os médicos devem confiar na consagrada arte da medicina para diagnosticar a fibromialgia.

Os pacientes experimentam dor crônica generalizada como o principal sintoma e frequentemente apresentam sintomas associados de fadiga, sono não restaurador, disfunção cognitiva, transtorno do humor e outros sintomas somáticos, que estão presentes em graus variáveis ​​em pacientes individuais.4

A taxas de prevalência canadense é algo menor que a brasileira: entre 1% a 5%. Ela aumenta com a idade e afeta mormente as mulheres em pelo menos 6 vezes mais frequentemente do que os pacientes do sexo masculino.5 Contudo, neste último grupo são poucos os que a revelam já que a fibromialgia é tida por uma “doença feminina”. Embora observada com mais frequência em mulheres de meia-idade, ela foi descoberta em homens, crianças, adolescentes e pessoas idosas.

Até recentemente, o diagnóstico da fibromialgia não requeria a confirmação de um especialista, mas isso está mudando com a especialização em dor crônica, por parte de diversos profissionais da saúde – de reumatologistas a psicólogos. O atendimento mais comum para a maioria dos pacientes, não obstante, continua a ser no ambiente de atenção primária.

O tratamento deve se distanciar da simples prescrição de um medicamento, com incorporação de estratégias não farmacológicas em uma abordagem multimodal. Como a fibromialgia persiste ao longo dos anos, com sintomas flutuantes, mas raramente desaparecendo completamente, os pacientes devem ser encorajados a identificar estratégias que podem modular os sintomas durante um surto.6

A revisão de artigos comentada nessa série de posts foi baseada principalmente nas Diretrizes Canadenses de 2012 para o Diagnóstico e Tratamento da Síndrome de Fibromialgia78 e dela surgiu uma visão geral das mudanças na compreensão e tratamento da doença desde a publicação dos critérios de classificação do American College of Rheumatology em 1990, que foram remodelados em 2010.910

De 4.735 artigos originais, 363 artigos foram selecionados. Destes, 150 eram adequados para atribuição formal de um nível de evidência, segundo a classificação do Oxford Centre for Evidence Based Medicine.11

Este o primeiro de uma série de 7 posts baseada nessa revisão e complementada por observações do blog.

COMO O DIAGNÓSTICO DA FIBROMIALGIA MUDOU?

Em contraste com o conceito original de fibromialgia, que era inteiramente focado no sintoma de dor e na presença de pontos sensíveis, agora são incluídos fadiga, distúrbios do sono, alterações cognitivas e distúrbios do humor.12 Essa mudança de conceito se reflete nos critérios de 2010 do American College of Rheumatology, que foram desenvolvidos especificamente para identificar os participantes do estudo no ambiente de pesquisa e não para o diagnóstico da doença em um paciente individual na clínica.13

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O Quadro resume as diretrizes completas, endossadas pela Canadian Pain Society e Canadian Rheumatology Association, ora disponíveis em www.fmguidelines.ca.

Como os sintomas de um paciente variam em gravidade ao longo do tempo, limites estritos para cumprir os critérios não devem ser aplicados em um único ponto. Portanto, ao fazer um diagnóstico de fibromialgia, o médico deve realizar uma avaliação clínica abrangente, com atenção a todos os componentes principais dos sintomas, comorbidades e uso atual de medicamentos.1415161718

Fora o diagnóstico baseado nos critérios propostos pelo American College of Rheumatology, existe algum outro instrumento com fins semelhantes?

Existem vários. Eu aqui vou me referir a apenas um, o melhor recomendado. Em junho 2019, a revista PAIN publicou o resultado de um estudo de um grupo de trabalho internacional, formado por clínicos e pesquisadores com experiência em fibromialgia, para gerar os principais critérios de diagnóstico da doença e aplicar uma estrutura de diagnóstico multidimensional adotada por uma parceria público-privada ACTTION, a Food and Drug Administration (FDA) e a American Pain Society (APS).

A classificação de ACTTION-APS FM fornece um sistema de diagnóstico baseado em evidências para a fibromialgia. Ela inclui critérios diagnósticos, características comuns, comorbidades, consequências e mecanismos putativos. O seu detalhamento pode ser visto, em português, no ebook “Tudo o que você queria saber sobre Fibromialgia e tinha medo de perguntar”.

Este foi o primeiro de uma série de sete posts contendo trechos selecionados do artigo: “Fibromyalgia: evolving concepts over the past 2 decades, de autoria de Mary-Ann Fitzcharles, Peter A. Ste-Marie, BA, e John X. Pereira, for the Canadian Fibromyalgia Guidelines Committee. Canadian Medical Association Journal.

Não deixe de conhecer os próximos posts da série:

1 Como o diagnóstico da fibromialgia mudou?  
2 Como diagnosticar a fibromialgia? Ver post →
3 Como as novas evidências neurofisiológicas sobre a fibromialgia podem propiciar seu gerenciamento racional?
4 Qual é a estratégia de tratamento ideal da fibromialgia?
5 Quais são os tipos de tratamento indicados para a fibromialgia?
6 Quais medidas de resultados podem ser aplicadas na prática clínica?
7 Pontos-Chave da série de posts
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1 comentário
  1. A cuase dois anos sofro com dores nas costas já fiz tratamento conservador, uso de remédios mais a dor sempre existe. Não sei mas o q faço para ter qualidade de vida

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