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Autocontrole e dor crônica entre as mulheres

Autocontrole e dor crônica entre as mulheres

Mais dia, menos dia, o paciente com dor crônica que não tem suas expectativas de “cura rápida” atendidas, enfrenta um dilema: ficar confiando no que o(s) médico(s) recomenda(m), traçar ele mesmo uma estratégia de recuperação ou deixar a situação nas mãos de Deus ou o Acaso. Isso pode ocorrer meses, anos ou décadas de conviver com a doença, mas o acontecimento é muito provável (se não inevitável). Afinal, a justificativa para essa afirmação mora em nós, com um pé na consciência e outro na inconsciência. Trata-se do Lócus de Controle, um conceito psicológico aventado há mais de meio século relativo à percepção de um indivíduo sobre quem ou que controla os eventos em sua vida: ele mesmo ou forças externas tais como outras pessoas poderosas ou… Deus?

“Não podemos controlar tudo na vida, mas podemos definitivamente controlar a nós mesmos.”

– Jan McKingley

Recentemente, eu pesquisei o Lócus de Controle em 1.022 mulheres com dor crônica, no Brasil Brasil. (Como parte de um projeto de pesquisa realizado em parceria com uma faculdade de medicina no Estado de São Paulo). Tratava-se de averiguar a que ou a quem, e o quanto, as mulheres com dor crônica “responsabilizavam” por ouvir suas queixas relacionadas a sua condição de saúde. Ou dito de outra forma, a quem correspondia a missão de tirá-las da situação em que estavam e até que ponto elas estavam satisfeitas em relação a isso.

Por que trazer à tona o Lócus de Controle no contexto do manejo da dor crônica? Dois motivos. Infelizmente, a saga de um paciente com dor crônica é previsível: ele raramente obtém a cura, ou mesmo o alívio, imaginado após receber seu diagnóstico. A possibilidade de sentir-se desiludido com os resultados do que a medicina clínica oferece é grande. O que fazer nessa conjuntura depende em boa parte do Lócus de Controle da pessoa. O Lócus de Controle é uma orientação íntima, uma expressão da personalidade, que diz até que ponto a pessoa acredita que controla os eventos que a afetam.

Se o Lócus de Controle de uma pessoa for caracteristicamente Externo, significa que ela acredita que os eventos da sua vida dependem do poder de outros (“Outros Poderosos”). Ao contrário, um Lócus de Controle Interno indica que a pessoa acha que esses eventos estão sob o seu controle. E se o Lócus de Controle preferenciar o Acaso, que eles dependem de uma entidade superior ou da sorte.

A Pesquisa: Hipóteses versus Achados

As minhas hipóteses eram as de que a Externalidade, enquanto Lócus de Controle, prevaleceria sobre as outras duas apresentações (Internalidade e Acaso). Afinal, eu pensei, em tudo o que diz respeito a cuidados de saúde, notórios “Outros Poderosos” são… os médicos. Era de se esperar que a maioria das mulheres amostradas tendesse a se deixar controlar por essas figuras de poder.

A orientação pela Internalidade, poderia vir em segundo lugar, favorecida especialmente pelas mulheres sofrendo de dor crônica há mais tempo, que por sinal constituíam 70% da amostra. Decepcionadas com a escassa ou nenhuma melhora obtida após anos de consultas, exames e tratamento, essas pacientes tenderiam a procurar soluções por si mesmas.

Quanto a preferência pelo Acaso, eu simplesmente previ que ela fosse mínima. Eu supus que ninguém, ou quase isso, se disporia em sã consciência a deixar a solução de um problema da própria saúde por conta da casualidade.

Pois foi isso que aconteceu. Surpreendentemente, os resultados da pesquisa mostraram a prevalência do Lócus de Controle Acaso, seguido à distância pelo Lócus de Controle Externo, e por último, do Lócus de Controle Interno.

Pelo visto, a maioria das mulheres da amostra – que há anos conviviam com a dor crônica – desacreditava que a essa altura “Outros Poderosos”/médicos fossem capazes de intervir positivamente na sua condição (doença/dor crônica), ou que elas próprias pudessem fazer a diferença, mais do que elementos incorpóreos e fortuitos, como a sorte, o Destino ou o Acaso. Diante da incapacidade dos “Outros Poderosos” ou da própria paciente para resolver o problema, agora a sua solução só poderia vir de fora, ou “de cima”.

Quais as implicações do Acaso ser o Lócus de Controle prevalente entre mulheres com dor crônica?

O principal problema causado por tal orientação é o de induzir o paciente a adotar estratégias de enfrentamento passivas.

Sobram evidências de que o enfrentamento passivo da dor crônica é caracterizado por catastrofismo, esquiva, depressão e ansiedade, dificultando a necessária adaptação à dor crônica, além de gerar distúrbios mentais.

Um estudo abrangendo 76 pacientes com dor crônica também mostrou que o enfrentamento passivo estava fortemente associado com sofrimento psicológico geral e depressão, enquanto o enfrentamento ativo tinha efeito inverso, além de impulsionar o nível de atividade.

Além disso, a estratégia de enfrentamento passivo é acompanhada por baixa autoeficácia, maior intensidade de dor e incapacidade.

Moral da história

O Lócus de Controle praticamente explica a postura de uma paciente com dor crônica diante da sua doença. Acreditar em si mesmo ao tomar decisões (Internalidade) facilita a adesão a tratamentos preferencialmente “ativos”. Ou seja, abordagens terapêuticas que visam menos a cura da doença, e mais, o bem-estar do paciente como um todo. Inversamente, há evidências claras de que um Lócus de Controle influenciado por Outros Poderosos (Externalidade), não “funciona” para aliviar a dor crônica, especialmente no médio e longo prazo. Terceirizar a responsabilidade por aliviar uma condição crônica, transferindo-a ao sistema médico, no caso, é uma postura míope quase sempre destinada ao fracasso.

Nenhuma das duas versões do Lócus de Controle foi a preferida da maioria das 1.022 mulheres pesquisadas. Isto é grave, uma vez que sugere um quadro de descrédito quanto ao que as pacientes podem 1) fazer por si mesmas e 2) obter do sistema médico – as opções mais concretas e possíveis na vida terrena –. assim sentindo-se obrigadas a buscar uma solução no fortuito, o Acaso.

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