Coronavirus - by dorcronica.blog.br

Afinal, as vacinas Covid-19 funcionam para idosos?

Afinal, as vacinas Covid-19 funcionam para idosos?

Eu sei que em momentos como este, em que “qualquer buraco é trincheira” – “Qualquer vacina serve, me dá a primeira aí!”– uma afirmação como essa soa negacionista, antipatriota e deveria ser punida com a deportação imediata. Contudo, fatos são fatos, e agora que duas vacinas (talvez) comecem a ser usadas em janeiro, convém investigar se há dados oficiais suficientes para afirmar que elas funcionam bem – ou seja, imunizam e protegem bem, e com segurança – em quem tem acima de 59 anos.

“Ele pensava que o mundo faria um progresso mais rápido sem o peso dos idosos.”

– Gabriel Garcia Marquez, Amor en Tiempos de Cólera

A confusão gerada em relação a eficácia da CoronaVac após a desastrada coletiva de imprensa oferecida pelo Governo de São Paulo no 10/12, não pode ser totalmente debitada na conta destes: os jornalistas também colaboraram. Ninguém então perguntou se a vacina funcionava nos idososalgo que interessa diretamente a 30 milhões dos brasileiros. O anúncio de que essa vacina seria 78% eficaz, feito na semana passada, tão pouco moveu a agulha – até hoje nada sobre idosos. E nada, também, pelo lado da vacina da Oxford-AstraZeneca. (Desta última, só se sabe que semanas atrás alguém no Reinou Unido disse que ela funcionaria em todas as faixas etárias. Na era Trump & Cia, porém, eu não acredito nem em bruxas.)

Afinal, ela protege os idosos?

Desconfiado, resolvi procurar por uma resposta pela minha conta.

Logo descobri estar me aventurando em campo minado. Para começar, em geral a questão da performance das vacinas em idosos é controversa. Veja o exemplo da vacina para a gripe, que todos tomamos há anos.

In 2011, o Technical Advisory Group do Pan American Health Organization, um escritório regional da Organização Mundial da Saúde para as Américas, reiterou a recomendação da vacina contra influenza para adultos mais velhos.

No ano seguinte, um painel de médicos e cientistas convocado pela Americas Health Foundation e outros concluíram o seguinte: “… uma vez que as evidências de antivirais em idosos não são claras, seu uso deve ser tratado caso a caso; apesar da diminuição da resposta imunológica, a vacinação contra influenza em idosos ainda é crucial”.

Seis anos depois, em 2018, a vacina da gripe começava a ser aplicada em doses diferentes para faixas etárias diferentes, nos EUA.

Existem diferentes tipos de vacinas contra a gripe e algumas são específicas para determinadas faixas etárias. Se você for um idoso e estiver pensando em tomar uma vacina contra a gripe nesta temporada, é provável que seu médico recomende uma vacina contra a gripe projetada especificamente para pessoas com 65 anos ou mais, como uma vacina de alta dose ou vacina contra a gripe com adjuvante.”1

Ou seja, os idosos não necessariamente são protegidos em igual forma que os ainda-não-idosos, como a dose convencional de uma vacina. A vacina deles precisa ser de maior octanagem, por assim dizer. Eu não sabia disso. Para mim, uma vacina era, enfim… uma vacina.

Deve-se deduzir, então, que idosos também reajam diferente (menos) às vacinas anti-Covid, e que isso tenha sido levado em conta nos respectivos testes clínicos.

Por aqui, um parêntese. Antes de mais nada, convém esclarecer de que performance estou falando. Uma coisa é imunizar o idoso – protegê-lo de ficar doente e de coisa pior – e outra é evitar que ele sofra no processo. Isto tem a ver com segurança. Vira e mexe, as vacinas anti-Covid-19 parecem não representar perigo para essa faixa etária. A imunização é outra história. Ao menos na faixa dos 18 e 59 anos, veremos que já é menos garantida.

Depois, é preciso reconhecer que algumas vacinas anti-Covid-19 não parecem funcionar bem em idosos. Laboratórios como o Sanofi e o GlaxoSmithKline, tem esclarecido à mídia que as suas vacinas em testes “possuem dosagem baixa demais e não conseguem gerar uma resposta imune suficiente nessa população”.

Fecha parêntese.

Então o que as vacinas anti-Covid-19 têm a oferecer aos com mais de 60 anos?

PFIZER/BIONTECH

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

A vacina desenvolvida pela Pfizer e BioNTech parece proteger 94% dos adultos com mais de 65 anos. O julgamento envolveu 41.000 pessoas em todo o mundo. Metade recebeu a vacina e metade um placebo. Os idosos, por sinal, estiveram muito bem representados:  41% tinham idades entre 56 e 85 anos. Ao todo, 170 voluntários se infectaram e apenas oito faziam parte do grupo que recebeu a vacina, sugerindo que ela oferece boa proteção. Em adultos mais velhos, a vacina funcionou tão bem quanto em pessoas mais jovens.2

MODERNA

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

A Fase 3 da Moderna recrutou mais de 30,000 voluntários nos EUA, sendo 7 mil com idade entre 65 e 80 anos. A eficácia da vacina (95%) demonstrada na primeira análise interina com um total de 196 casos de Covid-19, dos quais 185 casos foram observados no grupo de placebo versus 11 casos observados no grupo de mRNA-1273, resultando em uma estimativa pontual de eficácia da vacina de 94,1%. A eficácia foi consistente entre os dados demográficos de idade, raça e etnia e gênero. Os 196 casos de Covid-19 incluíram somente 33 adultos mais velhos (com mais de 65 anos).34

SPUTNIK V

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Três dias antes da virada do ano, o governo russo aprovou sua vacina Covid-19, Sputnik V, para uso por indivíduos com 60 anos ou mais.5

O primeiro lote de voluntários com 60 anos ou mais foi vacinado contra a pandemia com a vacina russa Sputnik V Covid-19, de acordo com um relatório. Os voluntários receberam a vacina no final de outubro. Um total de 110 voluntários com idades entre 60 e 82 anos, foram testados, entre os quais 28 com comorbidades típicas dos idosos, como diabetes, hipertensão e problemas renais crônicos.

Até então, indivíduos com mais de 60 anos não foram incluídos no programa nacional de vacinação. A aprovação vem após ensaios clínicos que mostraram que a vacina Sputnik V provou ser mais de 90% eficaz em indivíduos com mais de 60 anos.

CORONAVAC

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

A Sinovac Biotech tecnicamente não pode afirmar que tem em mãos uma vacina anti-Covid-19 segura, eficaz e comprovadamente útil para os acima de 60 anos.

Como é sabido, o teste clínico da CoronaVac abrangeu 4 países: China, Turquia, Indonésia e Brasil.

Vejamos o que ocorreu neles que pudesse legitimar a CoronaVac:

  • Na China, no segundo trimestre de 2020 foram realizadas apenas as Fases 1 e 2 do estudo. Desde o primeiro momento, os chineses se esquivaram de informar plenamente a respeito.
  • Os resultados da CoronaVac na Turquia, divulgados nessa semana, são os da primeira etapa da Fase 3, e não incluía idosos simplesmente porque eles não constavam do projeto original.
  • Na Indonésia a Fase 3 sequer terminou. (Veja matéria no final do post). Hoje (11/01) a Indonésia aprovou o uso emergencial da CoronaVac, divulgando eficácia global de 65,3%.
  • O Brasil, é o único país com um projeto de teste clínico registrado no Clinical Trials.gov, nos Estados Unidos. Completíssimo, entre os itens se destaca o seguinte:

“Para segurança e imunogenicidade, os participantes são classificados em dois grupos de idade, Adultos (18-59 anos) e Idosos (60 anos e acima).”

A Fase 3 do ensaio brasileiro foi encerrada no 13 de dezembro, quando o Instituto Butantan anunciou que o número de casos confirmados nos ensaios de Fase III havia chegado a 170, valor superior aos 151 casos exigidos para análise primária. Em 23 de dezembro de 2020, o Butantan disse que a vacina era mais de 50% eficaz no ensaio, mas reteve os resultados completos a pedido de Sinovac, levantando questões sobre a transparência, pois foi o terceiro atraso na liberação dos resultados. Em 7 de Janeiro, o Butantan divulgou que a eficácia da CoronaVac é de 78% para casos leves e 100% para casos graves, mas não informou os dados por faixa etária, nem tampouco a eficácia global (que promete divulgar amanhã – 12/01). 

OXFORD/ASTRAZENECA

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Por fim, a vacina da Oxford-AstraZeneca: o que ela oferece aos idosos?

Resposta: menos que as outras.

E para que não se diga que estou fazendo terrorismo irresponsável, eu vou reproduzir a seguir trechos referentes aos idosos em dois artigos publicados na The Lancet ao completar a Fase 3; um sobre Segurança e Eficácia, e outro sobre Segurança e Imunogenecidade (capacidade de imunização da vacina), ambos assinados por meia dúzia de cientistas do Oxford Vaccine Group, ao completar a Fase 3.6

Os resultados apresentados em ambos os artigos constituem as principais conclusões da primeira análise provisória, que são fornecidas para revisão rápida pelo público e pelos formuladores de políticas. 

Eficácia (A redução percentual da doença em um grupo de pessoas vacinadas em comparação com um grupo não vacinado, usando as condições mais favoráveis).

– “Safety and efficacy of the ChAdOx1 nCoV-19 vaccine (AZD1222) against SARS-CoV-2: an interim analysis of four randomised controlled trials in Brazil, South Africa, and the UK.”7

Na Fase 3 a análise interina de eficácia primária (interim primary efficacy analysis) abrangeu 11 636 participantes (7548 no Reino Unido, 4088 no Brasil).

  • Em participantes que receberam duas doses padrão, a eficácia da vacina foi de 62,1% (IC 95% 41,0-75,7; 27 [0,6%] de 4440 no grupo ChAdOx1 nCoV-19 vs 71 [1 · 6%] de 4455 no grupo de controle) e
  • em participantes que receberam uma dose baixa seguida por uma dose padrão, a eficácia foi 90,0% (67,4–97,0; três [0,2%] de 1367 vs 30 [2 · 2%] de 1374).
  • A eficácia geral da vacina em ambos os grupos foi de 70,4% (IC 95,8% 54,8-80,6; 30 [0,5%] de 5807 vs 101 [1,7%] de 5829).

Nota do blog: Você deve notar que todos os voluntários vacinados receberam duas doses com intervalo de cerca de um mês, mas que em alguns casos a primeira dose foi apenas com metade da dosagem. E que, curiosamente, a eficácia da vacina na primeira dose foi menor (62,1%) que a obtida após a segunda dose (90%).

O que cabe comentar aqui é que nenhum participante com mais de 55 anos de idade foi contemplado na anomalia, e que, portanto, se faz necessária uma avaliação adicional em adultos mais velhos para confirmar se seus resultados inesperados também se dão neles. Isso foi reconhecido oficialmente pelo consórcio no relatório.

Segurança (Capacidade da vacina não causar dano ao receptor) e Imunogenecidade (Capacidade de a vacina provocar uma resposta imune, como o desenvolvimento de anticorpos anti-medicamentos biológicos pelo sistema imune da pessoa).

– “Safety and immunogenicity of ChAdOx1 nCoV-19 vaccine administered in a prime-boost regimen in young and old adults (COV002): a single-blind, randomised, controlled, phase 2/3 trial”,

Nossos resultados mostram que a vacina ChAdOx1 nCoV-19 foi segura e bem tolerada com um perfil de reatogenicidade inferior em adultos mais velhos do que em adultos jovens. A imunogenicidade foi semelhante entre os grupos de idade após uma vacinação de reforço. Houve respostas imunes semelhantes após a vacinação com duas doses de ChAdOx1 nCov-19 em adultos mais velhos, incluindo aqueles com mais de 70 anos de idade, quando comparados com aqueles com menos de 55 anos.

Nota do blog: Reatogenecidade é a capacidade de a vacina gerar reação adversa (ou colateral) local ou sistêmica no organismo.

Menos eventos adversos foram relatados após a vacinação de reforço (2ª dose) que após a vacinação primária e a reatogenicidade foi reduzida com o aumento da idade.8

Como os grupos de idade mais velhos foram recrutados depois de grupos de idades mais jovens, houve menos tempo para o surgimento de casos e, como resultado, os dados de eficácia nessas coortes são atualmente limitados pelo pequeno número de casos, mas dados adicionais estarão disponíveis em análises futuras.910

Enfim, os deslizes da Oxford-AstraZeneca – três taxas de eficácia por falta de uma, programação vacinal esquisita (intervalo entre as duas doses de 3 meses em vez de 3 semanas) e pouca representatividade de idosos – não saíram barato. No final de novembro, autoridades do governo federal dos EUA comentaram que, embora promissores, os resultados da vacina foram confusos e não refletiam dados de idosos. Em seguida, os executivos da Oxford-AstraZeneca realizaram várias teleconferências privadas com analistas do setor, nas quais revelaram detalhes que não estavam no anúncio público, incluindo como os casos Covid-19 foram divididos em diferentes grupos. Esses detalhes, todavia, nunca foram compartilhados com o público.11

Moncef Slaoui, o conselheiro chefe da Operação Warp Speed, o esforço militar dos EUA para vacinas, disse a repórteres que os testes e avaliações dos EUA estariam completos para aprovação recém…”em algum momento no início de abril”.12

Conclusão: onde tudo isso deixa a nós, idosos, por aqui?

No mesmo lugar onde estávamos antes, mas com expectativas mais realistas quanto ao que esperar das vacinas anti-Covid 19. A verdade é que até o momento nenhum dos seus desenvolvedores botou na mesa dados claros sobre a performance da sua vacina nos idosos. E estes estão entre os primeiros a serem vacinados! Não parece haver algo errado nisso? Nem tanto com as vacinas, mas com os caras que as promovem?

LEMBRE-SE: use máscara
Cadastre-se E receba nosso newsletter

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

SAIBA TUDO SOBRE VACINAS COVID-19
CLIQUE AQUI
Preencha e acesse!
Coloque seu nome e e-mail para acessar.
Preencha e acesse!
Você pode baixar as imagens no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
ATENÇÃO!
Toda semana este blog publica dois artigos de cientistas e dois posts inéditos da nossa autoria sobre a dor e seu gerenciamento.
Quer se manter atualizado nesse tema? Não duvide.

Deixe aqui seu e-mail:
Preencha e acesse!
Você pode ver os vídeos no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas
Preencha e acesse!
Você pode ler o ebook no blog gratuitamente preenchendo os dados abaixo:
Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas