A psicologia da dor nas costas

A psicologia da dor nas costas
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Um grupo crescente de médicos e cientistas agora acredita que a dor crônica nas costas é uma doença do sistema nervoso, não da coluna vertebral. Essa descoberta abriu as portas para novos tipos de tratamentos que podem amenizar a dor nas costas para sempre. 

Em seus humores mais sombrios, o demônio escondido nas costas de Marc Sopher tornava quase impossível para o médico de família continuar com sua rotina diária. Iria golpear sua parte inferior das costas, enviando latejantes maçantes de dor pela espinha e, em seguida, dispararia fortes ondas de dor por uma perna e depois pela outra. A princípio, o Dr. Sopher tentou ignorar a dor. Ele presumiu que havia distendido alguma coisa na coluna, talvez uma hérnia de disco ou beliscado um nervo.

“Sou um médico com formação tradicional”, diz ele. “Comecei a tomar alguns anti-inflamatórios e esperei minhas costas sararem.”

Mas o demônio não iria embora. Ao realizar reuniões, ele teria que se levantar e esticar as costas. Ao dirigir, ele teria que parar e sair do carro para aliviar a tensão na coluna. Ao ler histórias de ninar para seus filhos, ele deitava de bruços. Não havia explicação anatômica para a severidade de sua dor.

“Tentei continuar trabalhando o melhor que pude”, diz ele. “Eu honestamente acreditava que viveria com dor pelo resto da minha vida.”

A maioria das pessoas com dor nas costas (as estimativas chegam a 90%) vão melhorar em sete semanas com pouco ou nenhum tratamento médico. O corpo se cura, a inflamação diminui e o nervo relaxa. Essas pessoas voltam ao trabalho, prometendo evitar o tipo de gatilho físico que causou a dor em primeiro lugar. Cerca de 10% dos pacientes não melhoram. A dor fica pior e pior: é crônica. Um dia, essas pessoas se viram deitados no chão, imaginando o que fizeram para merecer tamanha agonia.

Hoje, o Dr. Sopher não tem mais dores nas costas. Ele matou seu demônio. Quando o conheci, ele estava encharcado de suor, depois de correr 13 quilômetros e jogar uma partida de tênis. Mais tarde, ele vai andar de bicicleta. Seu cabelo curto está salpicado de branco – Dr. Sopher tem 46 anos – e ainda tem o corpo tenso de um jovem atleta. Mas o Dr. Sopher não foi curado pela medicina convencional. Ele não passou por cirurgia, não recebeu injeções epidurais ou tomou analgésicos. Em vez disso, o Dr. Sopher é um dos milhares de pacientes que sofrem de dores crônicas nas costas que melhoraram tratando sua mente.

Ele aprendeu a pensar de maneira diferente sobre sua dor, e foi então que ela passou. Essa narrativa pode parecer suspeita – não há escassez de tratamentos falsos para dor crônica nas costas – mas um crescente corpo de evidências científicas a apoia. A dor crônica nas costas agora é vista predominantemente como uma doença do sistema nervoso, não da coluna vertebral. É um problema adequado para psicólogos e neurocientistas, não cirurgiões. Os melhores tratamentos costumam ser os menos invasivos.

O tratamento convencional para dor nas costas

O tratamento médico convencional para dores nas costas segue um roteiro previsível. Depois que o paciente é entrevistado e submetido a um exame físico, ele é submetido a uma série de testes diagnósticos. Isso normalmente inclui raios-x, tomografias e ressonâncias magnéticas. O resultado final é uma gama surpreendente de imagens anatômicas detalhadas. Os médicos não precisam mais imaginar as camadas de tecido sob a pele.

Infelizmente, tudo isso vem tendo resultados limitados. Depois de passar por todos os testes de diagnóstico, 85% dos pacientes que sofrem de dor lombar ainda não recebem um diagnóstico preciso. A dor não pode ser identificada; há muitas partes móveis. Em vez disso, seu sofrimento é dividido em uma categoria vaga, como “tensão lombar” ou “instabilidade da coluna vertebral”. Mas mesmo quando um paciente recebe um diagnóstico estrutural específico, não está claro o quão significativo o diagnóstico realmente é.

Hérnias de disco: o “bicho papão” da dor nas costas

Veja, por exemplo, as hérnias de disco, uma das “causas” mais comuns de dor nas costas. Um estudo de 1994 publicado no The New England Journal of Medicine fotografou as regiões da coluna vertebral de 98 pessoas sem dor nas costas ou problemas relacionados com as costas. As fotos foram então enviadas para médicos que não sabiam que os pacientes não estavam com dor. O resultado final foi perturbador.

Segundo os médicos:

  • 80% dos pacientes sem dor exibiam “problemas sérios”, como protuberância, ou hérnia de disco; e
  • em 38% dos pacientes, as ressonâncias magnéticas revelavam vários discos danificados.


A desconexão entre “degeneração do disco” e dor nas costas aumenta com a idade: mais de 80% das pessoas com mais de 60 anos que não têm dor nas costas ainda apresentam degeneração significativa do disco. Essas anormalidades estruturais da coluna são frequentemente usadas para justificar tratamentos caros, como cirurgia, mas ninguém defenderia a cirurgia para pessoas sem dor.

Nota do blog:

A indústria da dor nas costas, representada pelos que vendem produtos e serviços afins, é muito forte. É difícil achar profissionais da saúde gabaritados, dispostos a desafiá-la. O Dr. Lorimer Moseley, cuja obra o dorcronica.blog.br – assim como vários outros pelo mundo afora – vem publicando há muito tempo, é um deles. Vejamos o que ele diz sobre a hérnia de disco:

Pensar que temos uma hérnia de disco pode aumentar a dor nas costas. Mas, e se esse conhecimento for impreciso? Como isso de que uma hérnia de disco significa que o disco ‘saiu do lugar’, ou seja, ‘para fora’ da junção das vértebras?”

“Ora, um disco está tão firmemente preso às suas vértebras que nunca, jamais, pode escorregar, “sair para fora…”. Apesar disso, temos a linguagem (“deslocamento do disco intervertebral”, “compressão do nervo”) e as imagens (ex.: ressonância magnética) para acompanhá-la, e ambas sugerem fortemente que sim.”

Dr. Lorimer Moseley (Adaptação ao português)

Ou seja, uma hérnia de disco, mesmo perfeitamente visível, nem sempre é a causa da dor nas costas. E quando não é, o paciente, apavorado, pode até acabar fazendo cirurgia à toa, sem sequer tocar na verdadeira causa… que pode ser estresse, por exemplo.

Sim, eu sei, é uma noção tida como ignorante, ou até delirante, pela maioria dos médicos ortopedistas e dos fisioterapeutas. Porém, Moseley e outros que pensam como ele fundamentam seus argumentos em estudos científicos pautados pela Medicina baseada em Evidências, e principalmente, em resultados concretos com pacientes de carne e osso. Isso é inegável.

Tanto assim que, nas últimas diretrizes clínicas emitidas pelo American College of Physicians e pela American Pain Society, os médicos foram fortemente recomendados a não “obter imagens ou outros testes de diagnóstico em pacientes com dor lombar inespecífica”. Isso porque, em muitos casos, os testes caros se mostraram mais do que inúteis.

O conhecimento sobre a dor nas costas, goste-se ou não, está mudando. Ou no mínimo, dando lugar a novas perspectivas. Na história da medicina isso sempre provou ser uma coisa boa. 

Tradução livre de trechos do post “The Psychology of Back Pain”, publicado por Johan Lehrer, no site Men’sHealth.

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