Coronavirus - by dorcronica.blog.br

A novela da cloroquina. Uma reprise.

Cloroquina

Mesmo comprovada cientificamente a ineficácia da cloroquina se usada no tratamento precoce da Covid-19, vários senadores da República negam o fato de pé junto. O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), nada menos, insiste em repassar a responsabilidade do seu uso para médicos e pacientes. Como pode ser isso? A ciência diz uma coisa, o palpite, outra, e declara-se um empate? Isso é surreal. Um mau exemplo para a educação das crianças. Ou um subterfúgio para ninguém, nunca, ser reprovado em qualquer exame, em qualquer faculdade de medicina. Ou exame de qualquer coisa que envolva comprovação científica, aliás. Com alguma relutância por conta do nonsense que caracteriza o assunto, porém consciente de que a CPI pode ter confundido alguns desavisados, eu o comento nesse post. Rezando para nunca mais ter que voltar nele.

Os dois primeiros dias da CPI da Covid-19 foram tomados por um debate apaixonado sobre… a cloroquina. Mais ou menos como discutir se uma fita do cinema mudo de Carlitos deveria levar legenda ou não. Um porre, não fosse pelo surrealismo do embate, digo, do debate – ou vice-versa.

De um lado, um “vossasenhoria” atestando que o uso da cloroquina era mais seguro que beber uma Minalba porque: “Eu tomei hidroxicloroquina e no dia seguinte estava bom. Ah, e minha família também. A minha netinha, sabe?”  E pronto, não se fala mais no assunto. (Depois fiquei sabendo que era plágio. A frase era originária do ocupante do alto do Planalto.)

De outro lado, meia dúzia de “vossassenhorias” alegando não haver ciência a sustentar a cloroquina, a menos que você tenha malária… o que é nada bom, mas também não vem ao caso, eu acho. Malária é malária, e Covid… bem, você me entende.

Algum progresso na discussão? Zero. Estranho isso, pensei de cara. Eu tinha postado várias matérias sobre a cloroquina no blog, mas há quase um ano atrás, quando todos éramos 10 anos mais jovens! Assunto encerrado, então. No entanto, a turma pró-cloroquina nessa CPI, como se nada. “A ciência está dividida, 50% versus 50%, uns a favor e outros contra a cloroquina”, pontificou outra vismecê, salomonicamente.

É óbvio, claro, que esse pessoal está menos interessado na eficácia terapêutica da cloroquina, e muito mais no que ela significou até hoje: a imbecilidade criminosa do Ministério da Saúde (que deixou para os médicos decidir o seu uso), e a incompetência do Conselho Federal de Medicina (que não decidiu coisa alguma). Uns querem manter a saga da cloroquina a descoberto, e outros, oculta.

Porém, o que me intriga é a cegueira, surdez, ignorância ou teimosia dos excelentíssimos que insistem publicamente em que a cloroquina dá para o gasto e deveria ser incluída num kit Covid de atendimento precoce. Lembrei de um caso semelhante, o de uma fazenda holandesa em que foi descoberto um grupo que esperava pelo fim do mundo trancafiado num porão. A espera, até encarar a realidade, durou 9 anos! No caso do pessoal pró-cloroquina na CPI lá se vão 15 meses.

Intrigado, eu consultei o caso com um psiquiatra, meu amigo. Vira e mexe, chegamos à conclusão de que esse pessoal – senadores e tal – não poderia ser tão alienado assim. Seguramente, faltava-lhes informação. Então, sai em campo procurá-la.

Os resultados de um estudo, publicado há pouco no The Lancet Rheumatology, por exemplo. Ele abrangeu 8.540 pacientes com doenças reumatológicas ou musculoesqueléticas diagnosticados com Covid-19. A conclusão? “As evidências disponíveis não suportam o uso deste medicamento (a cloroquina) na prevenção ou tratamento de Covid-19”, disse a Dra. April Jorge, do Massachusetts General Hospital e líder da equipe de pesquisadores.

Em seguida constatei que vários estudos já tinham concluído o mesmo.1234

Porém, o que mais me chamou a atenção foi um artigo intituladoDeath threats after a trial on chloroquine for Covid-19”, de Estella Ektorp, publicado na The Lancet em junho 2020, que descreve as ameaças de morte – sim, ameaças de morte – recebidas por Marcus Lacerda, principal investigador do primeiro ensaio clínico randomizado e controlado que testou a cloroquina em 81 pacientes com sintomas graves de Covid-19, em Manaus.

“A única conclusão que se pode tirar do estudo é que esse medicamento, quando usado em altas doses, não é seguro”.

Marcus Lacerda

O estudo envolveu 21 instituições de pesquisa no Brasil, Espanha e Moçambique, com participantes recrutados de um site no Brasil, e foi publicado na JAMA.

Na mesma época, em meados de junho 2020, o FDA americano, a agência reguladora americana e a maior referência mundial no ramo, revia a sua posição – anteriormente positiva – sobre a cloroquina.

“Com base em uma revisão de novas informações e uma reavaliação das informações disponíveis no momento em que foi emitida, o FDA agora conclui que esses critérios não são mais atendidos. As bases para esta decisão incluem o seguinte:

  • Agora acreditamos que os regimes de dosagem sugeridos para CQ (cloroquina) e HCQ (hidroxicloroquina) conforme detalhado nas fichas técnicas são improváveis de produzir um efeito antiviral.
  • As observações anteriores de diminuição da eliminação viral com o tratamento com HCQ ou CQ não foi replicado de forma consistente e dados recentes de um ensaio clínico randomizado avaliar a probabilidade de conversão negativa não mostrou nenhuma diferença entre HCQ e padrão de atendimento sozinho.
  • As diretrizes atuais de tratamento dos EUA não recomendam o uso de CQ ou HCQ em pacientes hospitalizados com Covid-19 fora de um ensaio clínico, e as diretrizes do NIH agora não recomendam tal uso fora de um ensaio clínico.
  • Dados recentes de um grande ensaio clínico randomizado não mostraram evidências de benefício para mortalidade ou outros resultados, como tempo de internação hospitalar ou necessidade de ventilação mecânica do tratamento com HCQ em pacientes hospitalizados com Covid-19.

O FDA concluiu que, com base nessas novas informações e em outras informações discutidas no memorando anexo, não é mais razoável acreditar que as formulações orais de HCQ e CQ podem ser eficaz no tratamento de Covid-19, nem é razoável acreditar que os benefícios conhecidos e potenciais desses produtos superam seus riscos conhecidos e potenciais. Assim, o FDA revoga nos EUA o uso emergencial de HCQ e CQ para tratamento de Covid-19, conforme seção 564 (g) (2) da Lei.”5

Oposta diametralmente à clareza exposta pelo FDA, foi a postura do Conselho Federal de Medicina. (Quem sabe, talvez isso tenha confundido as “vossasexcelências termocéfalas” na CPI.) Tente acompanhar o vai-vem dos facultativos.

No ano passado, logo em abril, o Conselho Federal de Medicina do Brasil condicionou o uso de cloroquina e hidroxicloroquina ao critério médico e ao consentimento do paciente. Ao mesmo tempo, o Planalto ensejava uma resoluta defesa do medicamento no contexto da Covid 19 e o Exército era encarregado de fabricá-la. Curiosa a coincidência.

Um ano depois, no dia 19 de abril, em audiência pública da Comissão Temporária da Covid-19 do Senado, o vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Donizette Giamberardino Filho, esclareceu que a entidade “não recomenda e não aprova tratamento precoce e não aprova também nenhum tratamento do tipo protocolos populacionais [contra a COVID-19]”.6

Passam-se duas semanas e, em entrevista ao Estadão, agora o presidente do conselho reafirma a defesa da autonomia do médico ao receitar remédios sem eficácia contra a Covid.7

Ou seja, mesmo após a publicação, ao longo dos últimos meses, de estudos que demonstram a ineficácia de medicamentos como a cloroquina contra a Covid-19 e a manifestação de entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) desaconselhando o uso do remédio, o Conselho Federal de Medicina (CFM) não se move. A entidade defende que ainda não há consenso científico sobre o uso dessas drogas no tratamento precoce da doença. O que equivale a defender o indefensável: que a cloroquina é uma opção anti-Covid-19 tal qual o remdesivir e o Regn-CoV2, os únicos dois medicamentos autorizados pelo FDA e a ANVISA.8

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