Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

A nova variante do vírus: “para quê tanta ansiedade? Tanta angústia?”!

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Um vírus, qualquer um, tecnicamente não é um organismo pensante, mas (de alguma forma) parece saber muito bem o quanto interessa permanecer vivo. Então, ele se adapta. E para tanto, muda. Muda para se espalhar mais facilmente, escapar do sistema imunológico ou ambas as coisas. Esse processo de luta pela sobrevivência se traduz em variantes que carregam as mutações. Uma nova variante do coronavírus se espalha rapidamente pela Europa e já chegou na África do Sul. Ela é mais contagiosa que outras? O que ela tem de especial? As vacinas anti-Covid-19 que vem por aí, podem dar conta dela? Esse post irá deixar você informado sobre tudo isso.

“A hora de consertar o telhado é quando o sol está brilhando.”

John Kennedy, 1917-1963

Uma nova variante do coronavírus é responsável por medidas preventivas severas em Londres e a suspensão do trânsito de pessoas entre o Reino Unido e vários outros países, entre os quais o Chile, porém não Brasil. Em São Paulo, ao que parece, tenta se seguir um caminho semelhante – pelo mesmo motivo.

Faz sentido tanta celeuma? Ou como disse o inefável Pazuello:

“Para quê tanta ansiedade, tanta angústia?”.

Os cientistas sabem que qualquer vírus sofre mutações, ou seja, pequenas alterações no seu material genético. O vírus que foi detectado pela primeira vez em Wuhan, China, não é o mesmo que você encontra em São Paulo, e tempo atrás eu ouvi falar até da descoberta de uma variante mineira, distinta das duas anteriores.

Qual é a razão? A mesma nossa, há 2,5 milhões de anos, quando o primeiro bípede surgiu na Terra: sobrevivência. E esse processo de luta pela sobrevivência se traduz em variantes que carregam as mutações.

Mutações são como os acessórios que as montadoras agregam aos carros toda virada de ano para convencer os trouxas de que são modelos novos, evoluídos, diferentes etc. E quase nunca o são.

Com os vírus é a mesma coisa. As mutações que sofrem raramente mudam seus efeitos infecciosos. Porém, às vezes, o fazem e para pior. E aí a coisa pega.

A variante britânica do novo coronavírus, por exemplo, tem algumas mutações que afetam a forma como o vírus se fixa nas células humanas e as infecta. E nos últimos 30 dias ela vem caracterizando as amostras virais registradas no Reino Unido.

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Será verdade que essa variante é mais capaz de transmitir o vírus do que outras variantes como, por exemplo, a mutação D614G que surgiu na Europa em fevereiro e se tornou a forma globalmente dominante do vírus, ou a A222V, que também se espalhou pela Europa e estava ligada às férias de verão das pessoas na Espanha?

Não se sabe. A investigação está recém começando, contém grandes incertezas e uma longa lista de perguntas sem resposta.

Por que essa variante está causando preocupação?

  • Ela está substituindo rapidamente outras versões do vírus
  • Possui mutações que afetam parte do vírus provavelmente importantes
  • Algumas dessas mutações podem aumentar a capacidade do vírus de infectar células
  • A variante do Reino Unido evoluiu para escapar do sistema imunológico em pacientes imunocomprometidos


A mutação (ou “deleção”) que afeta a suscetibilidade dos anticorpos – tecnicamente chamada de deleção 69-70, o que significa que faltam letras no código genético – já foi vista pelo menos três vezes: em visons dinamarqueses, em pessoas na Grã-Bretanha e em um paciente imunossuprimido que se tornou muito menos sensível ao plasma convalescente.

Outra mutação – uma deleção H69 / V70, na qual uma pequena parte do espinho é removida – já havia surgido várias vezes antes.

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A variante B.1.1.7, a britânica, é excepcionalmente altamente “mutada”. Uma análise inicial dela identificou 23 alterações potencialmente importantes. As mais perigosas são as que alteram o spike, a proteína do spike, o esporão que penetra a superfície das células do nosso corpo para dar ingresso ao vírus. Quaisquer alterações que facilitem isso provavelmente serão uma vantagem. Para ele se espalhar e contagiar.

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Crédito: Jonathan Corum | Fonte: Andrew Rambaut et al., Covid-19 Genomics Consortium U.K.

À esquerda do gráfico, o vírus na sua composição original, que se mantém até a mutação (ou deleção). À direita, as mutações se sucedem e afetam a proteína spike.

Por motivos de espaço, veja informações sobre as siglas e o seu significado aqui.

Tudo exposto acima sugere que o vírus pode se espalhar mais facilmente do que outros. E com consequências nada boas: de acordo com o primeiro-ministro Boris Johnson a tal variante pode ser até 70% mais transmissível e isso aumenta o número R (o reprodutivo) – que indica se uma epidemia está crescendo ou diminuindo – em 0,4.

Ficou ansioso(a)? Angustiado(a)?

Calma. Não há certeza de que essa variante tenha se espalhado tão velozmente apenas por mérito próprio. Separar o que é devido ao comportamento das pessoas e o que é devido ao vírus é difícil. No caso de Londres, o lockdown meia boca dos últimos dois meses certamente ajudou a aumentar os casos de novos infectados.

Essa variante está substituindo rapidamente outras versões do vírus e possui mutações que o afetam de maneira importante e com potencial infeccioso.

Depois, uma coisa é o vírus mudar, e outra, evoluir o suficiente para tornar a infecção mais mortal. Por enquanto não há evidências nesse sentido.

E por fim, alguns cientistas suspeitam que o aumento da transmissão resulta, pelo menos em parte, de a nova cepa tornar as crianças tão suscetíveis quanto os adultos.

Mas por enquanto são conjeturas. Isso de que a B.1.1.7 seja “70% mais transmissível que as variantes mais conhecidas” ainda é mais um chute do que um cálculo estável. Ele é baseado em simulações com modelos matemáticos e recém está sendo investigado às pressas em experimentos de laboratório.

“Ninguém deve se preocupar com a possibilidade de ocorrer uma única mutação catastrófica que de repente torne toda imunidade e anticorpos inúteis. Será um processo que ocorre ao longo de vários anos e requer o acúmulo de múltiplas mutações virais. Não vai ser como um botão liga-desliga.”

Jesse Bloom, biólogo, FH Cancer Research Center, EUA

Vamos agora a pergunta que não quer calar: As vacinas funcionarão contra a nova variante?

Quase certamente sim, ou pelo menos por enquanto. Uma mutação em um coronavírus pode alterar a forma de suas proteínas spike, tornando mais difícil para os anticorpos controlá-las com firmeza. E as mutações de B.1.1.7 incluem oito mutações no gene spike.

Uma coisa é o vírus mudar, e outra, evoluir o suficiente para tornar a infecção mais mortal.

Mas o nosso sistema imunológico também é inteligente e pode produzir uma variedade de anticorpos contra uma única proteína viral, tornando menos provável que os vírus possam se esquivar de seu ataque. De fato, os fabricantes de vacinas rotineiramente levam as mutações em consideração (ex.: vacinas contra a gripe sazonal). As vacinas treinam o sistema imunológico para atacar várias partes diferentes do vírus, portanto, mesmo que parte do spike sofra mutação, elas ainda devem funcionar.

As vacinas americanas, especificamente, ensinam esse sistema a bloquear o ingresso do vírus ao interior das células se grudando na ponta do spike.

Tudo tem limite, porém. De adaptação em adaptação, o vírus aprenderia a evitar vacinas. Elas se tornariam menos eficazes. Quanto mais mutações, maior o perigo. Cabe aos cientistas monitorar essa evolução. E cabe a nós nos precavermos dessa possibilidade. Como?

Ah, lá vem ele com a mesma ladainha de sempre: lave as mãos, mantenha a distância social, use álcool gel e… você deve estar pensando.

Errado. Esse discurso eu já sei que não funciona. A minha recomendação é outra: pense que esse vírus é algo assim como o Exterminador do Futuro, que muda a cada dois ou três anos. Nesse quadro mental, ele não é um fluído venenoso ou uma toxina, mas um ser vivo, inteligente e predador como os humanos. E que evoluciona como Darwin disse que as espécies evolucionam: ou seja, predatoriamente. O dito cujo é como você, como eu e, portanto, muito perigoso se pressentir que está sob ataque mortal. O sistema imunológico já faz isso – atacá-lo – e pelo visto, no ensejo ganha algumas e perde outras. A vacina chega para fortalecê-lo ao ponto de ganhar quase todas – 95% das vezes, segundo dizem. Mas na minha trama, o vírus muda, se contorce e metamorfoseia para se defender melhor e assim garantir a sobrevivência. E por esses dias, ele está justamente se aprontando para evadir a vacina, de maneira a escapar da resposta imunológica e continuar a infectar pessoas como você. Pense assim. Tenha medo.

“Essa coisa está transmitindo, está adquirindo, está se adaptando o tempo todo. Mas as pessoas não querem ouvir o que dizemos, que é: este vírus vai sofrer mutação”.

Dr. Ravindra Gupta, virologista, University of Cambridge.

O governo britânico está hoje sob forte crítica porque desde 8 de dezembro sabia da nova variante e principalmente por ter afirmado há 5 dias ser desumano cancelar o Natal – e depois fazê-lo. Foi uma mensagem alarmante, potencialmente desnecessária, para os britânicos e para o resto do mundo. Porém, tardia ou não, foi uma mensagem. Bem melhor do que noutros países, em que ainda hoje a mensagem é… nenhuma.

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