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A fibromialgia e o atendimento médico: um segredo de polichinelo

A fibromialgia e o atendimento médico: um segredo de polichinelo

Com o tempo, a fibromialgia passou a ser o repositório de dores de todo tipo, principalmente se reportadas por mulheres, desde que estes careçam de explicação. Em parte, isso é devido à natureza muito complexa da fibromialgia. Tanto assim, que essa doença congrega atualmente mais artigos científicos escritos do que qualquer outra do gênero crônico, e no entanto, ainda sequer um tratamento padrão para ela é consenso na medicina. A outra parte responsável pelo pouco progresso alcançado no conhecimento da fibromialgia é um Segredo de Polichinelo: os médicos a cargo do atendimento primário não gostam de fibromiálgicos, ou melhor, de gente que os consulta alegando ter dor em todo o corpo sem causa evidente. Motivos eles têm. Este post, se vale de uma publicação feita no exterior, para ventilar o assunto por aqui. É melhor para a saúde.

“Do segredo de Polichinelo, só Polichinelo não sabia.”

Fabrício Fiuza

Um artigo recente na The Reumatologist, uma revista científica séria, lavou a minha alma. Trata-se da publicação oficial do American College of Rheumatology, o grêmio que “responde” informalmente pela classe médica sobre a fibromialgia.

O título do artigo “Muitos médicos e especialistas não aderem aos critérios de diagnóstico de fibromialgia” não é de entusiasmar, claro. O meu caso, porém, é especial. Dos 100 mil visitantes que o dorcronica.blog.br tem por mês, muitos escrevem se queixando de fibromialgia ou coisa parecida. A maioria não consegue achar um médico com experiência nessa doença, ou que sequer a reconheça como tal.

Lorraine L. Janeczko, epidemiologista da Johns Hopkins University e colaboradora de boas publicações científicas, se define como “especialista em Educação Continuada de… médicos”. Corajosa, ela começa o seu artigo na The Reumatologist sem meias palavras: “Os médicos generalistas, e até mesmo muitos especialistas, têm um conhecimento relativamente pequeno dos critérios de diagnóstico da fibromialgia…”.

A Dra. Janeczko se refere aos critérios formulados pelo American College of Rheumatology em 1990 e 2010, e se baseia numa pesquisa a cargo de cientistas da Universidade de Toronto, no Canadá.  Estes entrevistaram online 284 médicos atuando em ambientes clínicos urbanos: 100 médicos de família, 69 anestesiologistas, 58 especialistas em medicina física e reabilitação, 29 reumatologistas e 28 neurologistas.

“Os médicos não têm conhecimento adequado e homogêneo dos critérios da fibromialgia. Aproximadamente metade deles não os usa. Isso pode aumentar atrasos no diagnóstico e diagnósticos errados“, advertiu o líder da pesquisa, o Dr. Dinesh Kumbhare, na Pain Medicine. De fato, muitos pacientes com dor crônica são erroneamente diagnosticados como fibromialgia ou são erroneamente diagnosticados como não tendo fibromialgia. Além do que, obter um diagnóstico definitivo da doença pode demorar 6 ou 7 anos nos Estados Unidos.

No geral, 12% dos médicos entrevistados usavam apenas os critérios de 1990 em sua prática, 27% usavam os critérios de 2010, 12% usavam ambos e 49%, nenhum. Portanto, em cada 2 médicos, apenas um se baseava em critérios “oficiais” ao diagnosticar fibromialgia.

Mesmo os médicos com treinamento especializado, mais familiarizados com os critérios, careciam de um conhecimento abrangente da fibromialgia (ex.: comorbidades com distúrbios mentais).

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Polichinelo é um antigo personagem tipo burlesca da commedia dell’arte, cujas raízes remontam ao teatro da Roma Antiga. Segredo de Polichinelo é uma informação que devia ser secreta, mas que é do conhecimento geral.

“Acho que a maioria dos médicos está ciente da fibromialgia, embora muitos ainda não acreditem nela e comuniquem isso (a falta de crença) aos seus pacientes. Porém, mesmo entre os médicos que aceitam a ciência e a existência da fibromialgia, há falta de compreensão dela, o que dificulta sua capacidade de comunicar-se efetivamente com seus pacientes”, agregou o Dr. Eric L. Matteson, professor de medicina do Mayo Clinic College of Medicine and Science.

Os autores da pesquisa sugeriram que médicos e estudantes de medicina aprendessem sobre os critérios, e os aplicassem na prática diária. Seminários de educação médica continuada e módulos de treinamento online sobre o diagnóstico de fibromialgia, também foram sugeridos, bem como incluir nos currículos médicos e de residência em dor cursos avançados sobre dor crônica e diagnóstico de fibromialgia.

Eu duvido muito que conselhos como esses sejam seguidos no Brasil, onde eles certamente se aplicam. A fibromialgia é uma doença órfã, ou seja, sem uma especialidade médica que a apadrinhe oficialmente – os reumatologistas que me perdoem – ou os pacientes saberiam a quem consultar. Sem isso, não vejo chance de ela ingressar na grade de matérias numa faculdade de medicina.

Antes eu disse que o artigo da Dra. Janeckzo “lavou a minha alma” porque há um ano escrevi um ebook de 200 páginas, muito bem documentado, sobre tudo o que se deveria saber sobre fibromialgia, e postei-o no blog. Até hoje a publicação foi baixada por 1.400 visitantes, porém nenhum comentário sequer eu recebi – bom, ruim, péssimo… sugestão, crítica, comentário de ódio… nada… – de profissionais da saúde. Esse silêncio estrondoso corrobora os achados da pesquisa comentada pela Janeckzo. Corajosamente, insisto, porque se no Brasil uma médica se atrevesse a isso, nem digo denunciar pela mídia a ignorância – “fugaz e inadvertida ausência de conhecimento”, desculpem – da sua classe em relação a uma doença crônica que aflige entre 12 e 14 milhões de pessoas, suspeito que no dia seguinte estaria sendo ferozmente repudiada pela associação ou grêmio ofendidos. Mas é só uma suspeita, claro. Sem evidências científicas – ensaio clínico, cego, randômico e controlado etc. – a sustentá-la.

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3 respostas

  1. Desde criança sempre senti muitas dores principalmente nas pernas, as vezes era repreendida pelos meus pais, pois achavam que era manha, minha mãe contava que com 9 messes de idade eu tinha o diagnóstico de reumatismo no braço esquerdo, na minha juventude também sentia muitas dores e os médicos falavam que era dor do crescimento, hoje além da fibromialgia, ainda tenho artrite rematoide, e continuo sentindo muitas dores?

    1. Querida, minha vida é muito parecida com a sua: passei a infância com dores nas pernas, fui diagnosticada com febre reumática e passei a tomar mensalmente uma injeção de benzetacil por anos.
      Dos 20 aos 27 anos passei um período bom, foi quando comecei a sentir terríveis dores nas articulações, tinha um bebê de 4 meses e mal conseguia pegar em meus braços para amamenta-lo, demorou uns 2 anos para me diagnosticarem com a artrite reumatoide, sofri anos tomando remédios que não me ajudavam muito. Somente há 2 anos comecei a ver uma luz no fim do túnel, a doutora me receitou imunológico simponi o qual melhorou consideravelmente minhas dores. Quanto a fibromialgia que também tenho, estou melhorando com tratamento psicológico e psiquiátrico.
      A vida é muito pesada às vezes, mas espero melhorar é que vc melhore também!❤

  2. Entendo a sua frustração. Sou mais uma leiga e opinando. Eu me sinto mal quando vou ao médico ,e ele olha pra mim e me nega um auxílio doença. ” A SENHORA ESTA BEM… ” Boa sorte! Parece piada.

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